Extreme prova que nem só de perfeição vive um grande show

Tem shows que a gente lembra pelo setlist. Outros, pela performance impecável da banda. E tem aqueles que se tornam memoráveis pelo que foge ao controle. Em Curitiba, o Extreme entregou esse terceiro tipo.

Quarta-feira, noite avançando, público menor do que o visto em outras cidades da turnê. No meio da pista, um “buraco” separando a premium da comum. No palco, nenhuma distância: a banda preencheu tudo, de vazios existenciais a imprevistos reais.

Antes deles, a banda da Pensilvânia, Halestorm, fez o que se espera de uma boa abertura: aqueceu o ambiente sem economizar energia. Liderada por Lzzy Hale (vocal e guitarra), ao lado de Joe Hottinger (guitarra), Josh Smith (baixo) e Arejay Hale (bateria), a banda entregou um show potente e direto. 

Lzzy segura o palco com naturalidade, voz firme, presença magnética. Já Arejay transforma qualquer solo em entretenimento, com direito às suas baquetas gigantes e um carisma que transborda. Teve distribuição de palhetas — tantas que algumas ficaram perdidas no chão (uma delas, felizmente, comigo).

Um dos pontos altos da apresentação aconteceu no trecho a capella de Like a Woman Can, que se encontrou com Crazy On You, do Heart. Nesse momento, Lzzy mostrou sua voz pura, sem efeito, sem artifício.

Sem contar que, como forma de homenagear Curitiba, os integrantes surgiram com capivaras de pelúcia. Josh tocou com o bichinho pendurado no baixo.  

Capivara no baixo.

Extreme com entrega total

Depois de passar pelo Monsters of Rock e por Porto Alegre, o Extreme escolheu Curitiba para encerrar a turnê brasileira. E entrou em cena com a confiança de quem sabe exatamente o que tem nas mãos.

Gary Cherone (vocal), Nuno Bettencourt (guitarra), Pat Badger (baixo) e Kevin Figueiredo (bateria) conduziram um repertório que atravessa gerações, incluindo clássicos do Pornograffitti (1990), responsável por eternizar More Than Words e Hole Hearted na memória de quem viveu os anos 90 da MTV. Ao vivo, essa memória ganhou corpo e coro em uníssono.

Nuno Bettencourt: técnica, carisma e perfeccionismo

Nuno Bettencourt é, ainda hoje, um dos grandes guitarristas em atividade. Virtuoso sem soar exibicionista, técnico sem perder emoção. Seus riffs e solos têm intenção e presença. Não à toa, aparece em listas dos melhores guitarristas de todos os tempos. E, mesmo tendo transitado por outros universos (sim, Rihanna incluída), é no palco com o Extreme que ele parece mais inteiro.

Dias antes dos shows no Brasil, Nuno chegou a preocupar fãs ao publicar um vídeo em que aparecia filtrando o sangue, o que remete imediatamente à “lenda” da transfusão sanguínea de Keith Richards. 

“Vampire life…the struggle is real”, disse ele.

E respondeu aos fãs afirmando: “eu não estou doente. É voluntário. Medicina preventiva”, tentando tranquilizar quem especulava sobre sua saúde. Em Curitiba, com os cabelos menos volumosos, mas com energia intacta, Nuno mostrou que a guitarra segue sendo uma extensão do próprio corpo.

Virtuosismo puro.

Os “technical bumps” que mudaram o roteiro

Perfeccionista, Nuno começou a se incomodar com as falhas técnicas que surgiam insistentes. Nada que derrubasse o show, mas o suficiente para tirá-lo do automático. E foi nesse espaço que a noite ganhou outra dinâmica.

Entre uma música e outra, ele sumia atrás das caixas de som com o técnico, ajustava, testava, voltava. Em alguns momentos, a microfonia arrancava um olhar mais sério. Mas bastava uma interação para reequilibrar o clima.

Numa das pausas mais longas, Gary segurou a frente com leveza, puxando o público, repetindo perguntas e brincando: “Quem já viu a banda? Quem está vendo pela primeira vez?”. E, ao ouvir as respostas, soltava um “então você é velho, velho, velho”, arrancando risadas.

Enquanto o guitarrista tentava resolver os ajustes, a plateia também entrava no jogo. Um fã, ao meu lado, começou a gritar aleatoriamente “Capão da Imbuia”, que é um bairro de Curitiba. Gary olhou, claramente sem entender, e seguiu. Mais um momento que só faria sentido ali.

Em outro ponto, uma fã gritou para Nuno “open your eyes”. Ele respondeu em seu português açoriano: “Poxa, você tem uma única chance na vida de me perguntar algo, e pergunta isso?”. Ela, sem saber muito o que fazer, respondeu com um coração tímido com as mãos. Ele riu, soltou um “tô brincando” e fez um gesto abrindo os olhos com os dedos.

Até que, em meio a mais um ajuste no violão, veio a frase que mudou o tom da noite: 

“40 anos de carreira… e esta é a primeira vez que passo por isso.” 

Não soou como reclamação. Soou como surpresa genuína. E, de certa forma, foi ali que o show se definiu.

Quando a conexão fala mais alto

Extreme não precisava provar nada para ninguém. Já não importava mais a perfeição técnica. O que estava em jogo era outra coisa: presença, entrega, conexão.

More than Words em Curitiba.

Conexão que atingiu seu extremo quando as duas cadeiras foram colocadas no centro do palco, uma ao lado da outra. Numa tentativa de “enganar” o público, os dois começaram a tocar Stairway to Heaven. Mas, metaforicamente, soou com uma perfeita intro para levar os fãs ao paraíso. E, então, emendaram na introdução de More Than Words. Gary deu voz ao público e seguiu cantando a balada, com direito a um sorrisinho maroto para Nuno, depois do primeiro verso. 

Ao longo de quase duas horas, clássicos como Decadence Dance, Play With Me (com intro de We Will Rock You), Hole Hearted (com Crazy Little Thing Called Love) e Get the Funk Out tomaram conta da noite.

Depois da pausa por causa de “a few technical bumps” (como se referiu Nuno no seu instagram), veio o potencial novo hit OTHER SIDE OF THE RAINBOW, do disco mais recente, com seu refrão delicioso, sobre “dar mais uma chance ao amor”. 

No fim, Curitiba pode não ter sido a noite mais redonda da turnê, mas foi uma das mais honestas. E, no hard rock, isso pesa mais do que puro virtuosismo.

A primeira vez de Bryan Adams em Curitiba

Toda primeira vez carrega um tipo especial de memória. Há expectativa, um certo nervosismo no ar e aquela sensação quase elétrica de que algo importante está prestes a acontecer. Por isso tantas histórias de amor — e tantos grandes shows — começam exatamente assim.

Curitiba finalmente viveu a sua primeira vez com Bryan Adams.

Depois de mais de quatro décadas de carreira, o cantor canadense pisou na capital paranaense, no dia 09 de março (justamente quando o clássico Heaven batia um milhão de plays no Spotify), com a turnê Roll With The Punches, e encontrou uma Live Curitiba completamente lotada, reunindo fãs de diferentes gerações para ouvir seus hits memoráveis e algumas das baladas mais românticas do rock.

Nem tudo, porém, começou em tom de romance

A entrada no local foi marcada por certa desorganização: muita gente parecia não saber exatamente qual setor deveria acessar, e a comunicação na chegada deixou parte do público confusa (inclusive jornalistas). Soma-se a isso o valor dos ingressos — que na plateia VIP ultrapassavam os dois mil reais com taxas adicionais pouco discretas — e o contraste entre experiência musical e custo da noite inevitavelmente se impõe.

Cinco minutos antes do horário marcado, o B-stage (ou palco B) era montado às pressas justamente nessa área VIP. Enquanto isso, ao fundo da pista, uma multidão se espremia tentando garantir qualquer ângulo possível do espetáculo. É o tipo de contraste que os grandes shows inevitavelmente produzem: proximidade absoluta para alguns, esforço quase acrobático para outros.

Então Bryan Adams surgiu pela plateia.

Cercado por um rigoroso esquema de segurança, o cantor atravessou o público em direção ao palco improvisado, criando um daqueles momentos que percorrem a multidão como uma corrente elétrica. Em poucos segundos, a estreia de Curitiba já começava com um gesto de proximidade.

O que veio depois foi uma demonstração rara de consistência artística.

Em tempos de correções digitais, bases pré-gravadas e vozes filtradas por camadas de tecnologia, Adams segue apostando naquilo que sempre definiu sua carreira: voz, guitarra, muitos violões e canções.

A voz, aliás, permanece praticamente intacta.

Com impressionante controle vocal, ele atravessa o repertório com a mesma assinatura rouca e potente que marcou seus discos desde os anos 1980. Durante quase todo o show, mal se vê o cantor recorrer a um gole de água. As músicas se sucedem em sequência quase ininterrupta, emendadas com naturalidade por quem domina o próprio repertório como extensão da própria respiração.

Bastidores e improvisos

Ao seu lado, a banda funciona como uma engrenagem precisa — e com uma história curiosa digna de bastidores de turnê. O guitarrista Luke Doucet foi chamado às pressas para substituir Keith Scott e integrar a banda ao lado de Gary Breit (teclados) e Pat Steward (bateria) depois de receber uma mensagem direta e quase improvável:

“Hey… você consegue aprender 26 músicas em três dias?”

Levando em conta certas adaptações, o guitarrista conseguiu entregar à altura. 

O baterista Pat Steward também protagonizou um dos momentos mais divertidos da noite. Antes de Make Up Your Mind, Bryan prometeu ao público que ali viria “o melhor solo de bateria que vocês verão na vida”. 

A simpatia de Adams com o público também se revelou em pequenos gestos.

Em certo momento, antes de uma das músicas, pediu que a plateia não risse quando aparecesse no telão um clipe antigo em que ele surgia com aquele corte de cabelo rebelde do início de carreira.

Celulares e um pequeno “punch”

Logo na segunda música, Straight From the Heart, no B-stage, veio um pequeno episódio que resume bem a relação contemporânea entre público e palco. Uma fã empolgada aproximou o celular demais do rosto do cantor para registrar a cena. Adams respondeu com um gesto rápido, baixando o aparelho com um leve “punch” de mão — nada agressivo, apenas o suficiente para recuperar seu espaço.

O momento teve algo de simbólico.

As canções de Bryan Adams nasceram em um mundo muito diferente do atual: a era das fitas K7, dos LPs, das fichas de orelhão, das dedicatórias gravadas em mixtapes. Um tempo em que as pessoas iam aos shows para viver a experiência, não para filmá-la.

Um repertório que atravessa gerações

Clássicos como When You’re Gone, Back to you, Run to You, Please Forgive Me e 18 Til I Die foram cantados em coro por uma plateia que parecia saber cada verso de memória. Heaven, em um arranjo mais ritmado para violão, ganhou uma nova textura ao vivo, surpreendentemente fresca para uma música que já atravessou gerações, embora alguns fãs tenham sentido falta do piano da versão original.

Um dos momentos mais hipnotizantes da noite aconteceu quando Adams assumiu o violão para interpretar Everything I Do (I Do It for You), do filme  Robin Hood: o Príncipe dos Ladrões, de 1991. Diferente de outras apresentações da turnê, ele permaneceu praticamente imóvel no palco. 

Foi um daqueles raros momentos de epifania coletiva em que milhares de pessoas parecem compartilhar a mesma emoção ao mesmo tempo. 

Outro instante curioso e inesperadamente fofo aconteceu durante Have You Ever Really Loved a Woman, gravada para o filme Don Juan DeMarco, de 1995. No meio de um verso, Adams simplesmente deu um espirro e continuou cantando na maior naturalidade, sem perder o ritmo da música.

Já o clímax veio com Summer of ‘69, com a plateia indo ao delírio (e os telões mostravam tudo).

O que faltou em Curitiba

Alguns elementos visuais da turnê não apareceram em Curitiba.
Em outras cidades, enormes infláveis — uma luva de boxe gigante em Roll With the Punches e um carro em So Happy It Hurts — voam sobre o público. Na Live, provavelmente pelas dimensões da casa, esses momentos ficaram de fora.

O que apenas reforça uma impressão que muitos fãs compartilharam ao sair do show: Curitiba ainda carece de uma casa de espetáculos realmente à altura de produções internacionais desse porte.

Também ficaram de fora do repertório duas músicas que costumam aparecer em outras datas da turnê: o cover de Twist and Shout e Let’s Make a Night to Remember, normalmente cantada no B-stage.

Ainda assim, foi uma noite memorável.

Para sempre jovem

Bryan Adams sempre foi, antes de qualquer rótulo, um contador de histórias sobre amor, juventude e memória. Parte dessa sensibilidade vem de sua própria trajetória. Filho de diplomata, passou parte da juventude em Portugal — anos que ele próprio descreve como alguns dos mais felizes de sua vida.

Por isso, existe algo de familiar quando ele volta a países de língua portuguesa. No Brasil, a proximidade da língua cria uma ponte natural entre palco e plateia.

Em determinado momento do show, ele mesmo brincou com isso e perguntou para alguém da plateia se estava “tudo bem”. Sim, está tudo bem. 

E quando foi se apresentar disse que aqui ele é “Bryanadams”, tudo junto, como se fosse uma palavra só.

E, de certa forma, é mesmo. Uma identidade inseparável de suas músicas, de sua voz e daquela energia que insiste em permanecer jovem. Quando falou sobre 18 Til I Die, deixou escapar uma verdade que resume bem sua relação com o tempo: a idade pode avançar, mas o espírito permanece aquele de 18 anos, idade das descobertas.

Para alívio de seus fãs, Bryan parece realmente decidido a permanecer com 18 anos.

O romântico incorrigível

Além da música, o artista também construiu uma carreira respeitada como fotógrafo profissional, tendo retratado artistas, modelos e personalidades do mundo inteiro. Talvez por isso exista algo quase cinematográfico na maneira como conduz um show: cada momento parece cuidadosamente enquadrado, como se soubesse exatamente qual imagem deseja deixar na memória do público.

E a imagem que ficou em Curitiba foi a de um artista generoso no palco.

Em determinado momento, ele brincou com a plateia perguntando se estava falando rápido demais. A resposta veio em coro: não.

Mesmo quando acelera uma balada como Heaven, Adams ainda carrega algo raro no mundo contemporâneo: o romantismo sem pressa.

Ao longo da carreira, ele acabou se tornando algo próximo de um arquétipo do romântico moderno — aquele que reúne as qualidades que tantas mulheres aprenderam a sonhar nas canções: intensidade, lealdade emocional e a coragem quase fora de moda de declarar sentimentos.

O verão de 26

Num tempo de vozes afinadas por algoritmos e performances coreografadas ao milímetro, o canadense segue fiel ao estilo que construiu sua carreira: romântico, roqueiro e sem artifícios.

Aquele romantismo de guitarras abertas, versos diretos e promessas cantadas sem ironia, como quando sustenta, com absoluta convicção, o verso “take my life”. E todo mundo se arrepia.

Recentemente, ele também demonstrou outra forma de independência artística ao lançar sua própria gravadora, a Bad Records, um gesto de liberdade criativa que combina bem com a energia de quem, aos 66 anos, ainda sobe ao palco como se estivesse começando.

No último show no Brasil, apareceu inclusive com os cabelos soltos. Talvez um detalhe trivial, ou um pequeno símbolo dessa mesma liberdade.

Se Summer of ’69 eternizou um verão de juventude, Curitiba agora pode reivindicar o seu próprio capítulo nessa história.

O verão de 26.

PS: Agora só falta inventar uma nova posição.🤭

SETLIST

1. Can’t Stop This Thing We Started (acústica, B-stage)

2. Straight From the Heart (acústica, B-stage)

4. Kick Ass

5. Run to You

6. Somebody

7. Roll With the Punches

8. Do I Have to Say the Words?

9. 18 til I Die

10. Please Forgive Me

11. It’s Only Love

12. Shine a Light

13. Heaven

14. Never Ever Let You Go (parcial)

15. This Time

16. Heat of the Night

17. Make Up Your Mind

18. You Belong to Me 

20. Have You Ever Really Loved a Woman?

21. When You Love Someone

22. So Happy It Hurts

23. Here I Am (acústica, com Gary Breit no piano)

24. When You’re Gone (acústica, com Bryan sozinho)

25. The Only Thing That Looks Good on Me Is You

26. (Everything I Do) I Do It for You

27. Back to You

28. Summer of ’69

29. Cuts Like a Knife

30. All for Love (acústica solo)

More hopes than fears

O conceito de lucro, contentamento e perfeição teve uma ligeira alteração no meu dicionário de termos diários. 

Até pouco tempo atrás, quem morava em Curitiba, na terra das bandas que nunca deram certo (até aparecer o Bonde do Rolê), precisa viajar para as capitais mais próximas, São Paulo, Porto Alegre ou o Rio, se quisesse assistir ao show das grandes bandas.

Pra ver The Cure, peguei o busão da excursão e fui pra terra da garoa. 

Pra ver o Radiohead, uma das minhas bandas favoritas, fiz o mesmo. 

São Paulo, check. Rio, check.

De uns tempos pra cá, as bandas têm vindo para as bandas de cá. E a cidade inteligente tem recebido vários shows internacionais. Deixou de ser uma cidade-teste. O Bruninho Marcio, que já tem CPF e tudo, foi um dos últimos a se apresentar pelas terras curytibanis. RHCP também tocaram para um Couto Pereira mais lotado (porque dividiram as pistas, com ingressos mais acessíveis). Tio Paul também. Inclusive, foi o primeiro show internacional do meu filho, que acabou de fazer 9. 

Apesar disso, a capital do Paraná, terra da pedreira Paulo Leminski, ainda carece de uma casa de shows fechada.

Vivo Rio. 

Espaço Unimed. 

Arena Ebanx??

A que mais se assemelha a esses espaços é a Live, com capacidade para 5 mil (onde eu vi o New Order e tantos outros shows). Mas seria um ótimo investimento a abertura de um local que atenda às bandas que não têm perfil para lotar um Couto Pereira, mas que contam com uma base de fãs que supera a capacidade de um teatro, caso do Keane.

Foi justamente por cwb, o berço das capybaras mais lindas do mundo, que os britânicos iniciaram em terra brasilis a turnê comemorativa do Hopes and Fears. #Keane20.

E lá se vão 20 anos desde que eu descobri essa banda, que tinha um vocalista com uma carinha fofinha. Foi pouco depois de começar a curtir Coldplay. Essas duas bandas, juntamente com Snow Patrol, formam, segundo um conhecido meu, a tríplice coxinha do pop rock. 

Só que em todas as poucas vezes que Tom Chaplin e seus companheiros vieram para o Brasil, não pude ir. Pois quando soube que Keane viria se apresentar em Curitiba, não acreditei. Hopes and dreams come true.

Tanto é que, nas semanas que antecederam o show, fui abduzida completamente pelo som da banda. Lembrei quão o álbum H&F é querido até hoje, menos para os críticos da Pitchfork, é claro.

Ao descobrir que o álbum fora avaliado com 2.8, não me contive e tive que escrever para o crítico. Nunca imaginei que ele fosse me responder tão rápido. 

Eu: 

“Hi,

Just read your review about Hopes and Fears.

2004

2.8

Has time proved you wrong?

😉

Janaina”

ELe:

Honestly, I’m still not a fan. The music feels manipulative and doesn’t move me at all. But I will say this: I’m surprised to see how much of a fan base this album has 20 years after its release. I didn’t expect that, and it’s impressive. I have gotten more emails about Keane lately than any other review, including Mumford & Sons. So you’ve got a lot of company questioning my taste!

De qualquer forma, ele disse, depois, que a minha mensagem foi a mais polida de todas.

Meu momento de imersão em Keane foi tamanho que meu filho chegou a me pedir pra parar de cantar. 

_Que música horrível é essa, mamãe? 

_É um mega hit, Totônio.

E coloquei pra ele ouvir:

_ Ah! É bonita mesmo, mas não com você cantando.

Sim, Totônio. Você tem razão, é música para a potência vocal do Tom Chaplin, que no primeiro show da turnê comemorativa do excelente álbum H&F em terra brasilis mostrou que não tem nada de João Gilberto. Impecável. Perfeito. Oops, perfeito?

E então, entra em cena meu conceito de perfeição, de lucro e de contentamento. Quando o show terminou, disse que tinha sido perfeito. Incrível! Um dos melhores! E para meus parâmetros tinha sido mesmo, considerando os shows do teatro Positivo.

Mas depois de conferir o setlist do show do Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, as dúvidas surgiram. Comecei a duvidar até da honestidade do vocalista em dizer que estavam num sonho (Bad dream?) aqui em cwb, que tínhamos feito uma recepção maravilhosa.

No quesito interação e extensão vocal, Tom Chaplin é mestre. Parecia surpreso que numa terra tão “desconhecida” como Curitiba, em plena terça-feira, havia 2.400 fãs cantando suas músicas.

O show começou atrasado para os padrões britânicos, porém matador como 007, com a tríplice “Can’t stop”, “Silenced by the night” (uhuuuuu) e “Bend and Break”. E seguiu delicioso, com a banda impecável. E Tom parecia não acreditar. “Olha, vocês ficaram de pé. Podem dançar à vontade!”

E a plateia não se reprimiu.

Muita gente, aliás, tinha vindo de longe, Argentina, Brasília, para assistir ao show naquele “terreno desconhecido”.

Mas depois do Rio, ahhh, depois do Rio, duas interações do Tom em Curitiba ficaram meio nebulosas para mim. A primeira foi: “não tive tempo de aprender português”. No Rio, ele falou português. Deve ter aprendido no avião. A segunda, “olha só, quantas happy faces”.  Teria sido irônico?

Senti um ligeiro desconforto nesse momento. Afinal, guerras rolando, eleições norte-americanas, povo morrendo de fome. E eu, ali, cantando feliz as músicas que me faziam lembrar meus 24 anos. 

Não, eu não chorei em “Somewhere only we know”. O rímel não era à prova d’água.

No final, a conta foi esta:

Curitiba, 21 músicas no setlist.

Rio, 26 músicas.

“Oh, simple thing, where have you gone?”

A minha teoria é que:

  1. O Viva Rio é uma casa de show onde cabem até 4 mil pessoas. É outra vibe.
  2. O show não foi numa terça-feira, logo, as crianças não precisavam voltar cedo para casa.
  3. O Rio tem a princesinha do mar, por isso teve “The Frog Prince” (além de ter sido um pedido de fã).
  4. “Under Pressure” talvez faça mais sentido tocar na cidade maravilhosa.
  5. Curitiba serviu de aquecimento para as cidades preferidas.
  6. Teriam que pagar uma fortuna por extrapolar o horário do aluguel do teatro.

Enfim, não vi o valor do ingresso dos pagantes, mas depois desse show do Rio, oh boy, fico me perguntando qual o critério dos artistas para adaptar o setlist. Animação da plateia, local, preço do ingresso. Todas as alternativas.

Existem, sim, alternâncias de setlist. Isso é bem comum. O show do RHCP foi um exemplo. Mas não deixaram de tocar cinco. Cinco. CINCO músicas. E olha que eu estou escrevendo no momento em que rola o show de São Paulo. Vai rolar um dilúvio no setlist. (E já vi que rolou Spiralling).

De qualquer forma, entra em cena a minha recente noção de lucro, contentamento e perfeição. Saí no lucro porque uma das minhas bandas favoritas veio tocar no meu quintal. Me contentei que vi o Keane no conforto de um teatro, com uma acústica adequada e um show mais intimista. Sim, foi perfeito, mesmo sem “Spiralling” e uma das covers que mais amo da vida. 

Por outra ótica e conhecendo o histórico da banda, todos nós saímos no lucro. Porque, se Tom tivesse embarcado de vez no sofrimento da sua alma, não teria pego o voo rumo à  cidade que serviu de inspiração para o novo filme de Francis Ford Coppola. Conhecem? 

Oh, simple thing.

O Zé de todo mundo*

Em 1999, o ex-maldito re-nascia para a juventude universitária ao pisar no palco do festival Abril Pro Rock, em Recife. Ano passado, no mesmo festival, saiu do show direto para o hospital com princípio de infarto.

Um fim de semana de abril de 2003. Abril Pro Rock em sua 11º edição e o baiano de Irará no palco da Sociedade Vasco da Gama, mais conhecido como o palco do Forró Calamengau, em Curitiba, apresentando seu mais novo manifesto: “Companheiro Bush”, título do CD a ser lançado pela Trama. A canção foi especialmente dedicada ao presidente dos Estados Unidos, em quem provavelmente deve faltar um parafuso, segundo Tom Zé, com seus quase 67 anos, dono de uma das poucas mentes lúcidas da música popular brasileira.

O show começa com vaias.

Vaias à introdução com o hino dos EUA. A platéia seleta formada por músicos, atores, artistas plásticos, jornalistas, professores e muitos, muitos universitáios era convocada a repetir, uma, duas, três, quatro… quantas vezes fosse preciso: “Se você já sabe/ quem vendeu/ aquela bomba pro Iraque/desembuche/ Eu desconfio que foi o Bush/Foi o Bush/Foi o Bush”.

O protesto contra o presidente rendeu versão em inglês de Christopher Dunn, professor da Universidade de New Orleans, e foi incluída na seleção musical da Protest-Records, gravadora virtual fundada por Thurston Moore, guitarrista da banda nova-iorquina Sonic Youth, em parceria com o designer Chris Habib.

É protesto sim. É protesto, é opinião, irônica, engajada. Tom Zé acumula funções: poeta, político, jornalista, sobretudo artista, com um diferencial primordial: a inexistência do ego inflado que a maioria dos artistas exalta.

Hipocrisia parece não ser verbete de seu dicionário prático de vivência. Simples no nome, prático no palco (“não, vamos começar essa música de novo”).

Rápido e imediato num discurso complexamente construído com cri-atividade no uso de suas figuras de linguagem e sonoridade musical inclassificável. Le Monde, Le Nouvel Observateur, L´Express, Le Vif, todos os Les saúdam as ideias de Tom Zé.

Um dia antes do show, o Zé dizia numa estação de rádio que ele como músico é muito sensível aos fatos do mundo, portanto não pode ficar calado. Dessa forma justifica que não é música de protesto o que faz, mas simplesmente o retrato do mundo que o circunda.

Mas Tom Zé… cantar “Meta sua grandeza/No Banco da esquina/Vá tomar no Verbo/Seu filho da letra”, em “Politicar” (o defeito número três do disco “Com Defeito de Fabricação”) é um baita de um protesto metafórico… nem tão metafórico assim, ele pede para a plateia exorcizar em uníssono vários “puta que pariu”, até que cada um atingisse o grau mais profundo de revolta interior.

Em frente ao cantor, muitos sabiam de cor suas canções, do disco “Jogos de armar – faça você mesmo”, lançado pela Trama em 2000, e do “Com defeito de fabricação”, de 1999. Outros estavam ali por curiosidade.

Havia os mais exaltados que urravam nos ouvidos do vizinho de plateia como se quisessem mostrar: “olha aqui, eu sei cantar”. Além daqueles que pensavam (pode ter certeza): bom seria se o Tom Zé fosse o meu avô e aprender com ele política crítica com uma didática muito mais atrativa e eficiente do que a aplicada nos ambientes acadêmicos. Isso com o auxílio de uma participativa banda de operários da música, vestindo cada um seu macacão: Cristina Carneiro, Sérgio Caetano, Marco Prado, Jarbas Mariz, Lauro Lélis e Gilberto Assis que embalaram logo de início “2001”, de Tom Zé e Rita Lee, gravada pelos Mutantes.

A passeata contra o imperialismo americano seguia: o músico pede para o Jimi Hendrix se render numa maracapoeira (“Bob Dica, diga/Jimi renda-se! /Cai cigano, cai, camóni bói/Jarrangil century fox/Galve me a cigarrete/Billy Halley Roleiflex”) e comenta: “vocês viram como eu consegui juntar vários cantores numa só música!”. Diz que logo o Brasil vai ficar rico quando o diabo do petróleo acabar: “O dólar é moeda falsa/O americano já não segura as calças/A Alemanha quase pedindo esmola/A inglesa não usa mais calçola”. E define a ONU como marca mortal numa parceria de deixar o pai do André Abujamra com orgulho.

Brincalhão, seu cinto vira gravata, e a gravata enrijece. Então ele simula como as brasileiras chegam ao tal do clímax e a banda toda em “Passagem de som”, um chamegá-exaltação, segundo ele: “Ai! Joãojacksonjoãogonzagá/ Gonzá Gonzá/ Ai ai Gonzá Gonzá/Ai Gonzá ai Gonzá … …  Gonzá Gonzá Gonzá/ Ó ó ó ó ó”.

Hahaha

No bis, aquela que faltava: “Made in Brazil”, de uma época tropicalista. Caetano Veloso diz que a Tropicália é de Tom Zé.

“São São Paulo” não estava no set list, mas a homenagem à cidade (que é também esculhambada na música) surge com o “Trem das Onze” e a lembrança de Adoniran e Demônios da Garoa. No fim, repetia entusiasmado: É Curitiba, É Curitiba. É…mas ninguém deu bola pra homenagem.

Diante daquilo que poderia se concretizar como uma verdadeira demonstração de nacionalismo (exacerbado?) e todo seu discurso sócio-político-filosófico, Tom Zé deixou escapar um detalhe: o que era aquela calça da Nike? Bonito, hein? E o boicote? Tudo bem…não vamos levar tão a sério assim. Tom Zé pode agora descansar em paz com sua juventude.

 

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*Texto publicado originalmente no Central da Música em 29/04/2003

 

O amor, o Roberto e a flor*

O show estava previsto para as sete da noite, mas se majestade é brasileira, não há motivos para respeitar o horário britânico, nem seus súditos. Atrás das grades, numa fila do gargarejo estavam senhoras, boa parte mães de família, e crianças que chegaram ao parque Barigui, em Curitiba, às duas da tarde. Aflitas e cansadas, gritavam exaustivamente o nome do Rei, segurando capas de discos, cartazes, até que a indignação suscita um alto coro de vaias. Surge, enfim, a banda e o Rei: Roberto Carlos sobe ao gigantesco palco importado da Alemanha, uma hora e meia atrasado.

O megaespetáculo foi o presente que a Prefeitura de Curitiba e o Grupo Pão e Açúcar ofertaram aos moradores no aniversário de 310 anos da cidade, ocasião escolhida para abrir a temporada musical do Projeto Pão Music para um público órfão de shows ao ar livre na capital paranaense. Foram gastos, no total, mais de 700 mil reais (só o cachê do Rei por volta dos 350 mil). O prefeito Cássio Taniguchi avisa: “Estamos preparando mais shows como esse”, porém, antes, deixa a entender que a prioridade é educação, saúde…. “Acabei de inaugurar duas creches semana passada e ninguém fala….”…Ah…OK  Sr. Prefeito. Vou ouvir o que o presidente da Fundação Cultural, Cássio Chamecki, tem a dizer. “O Pão Music queria fazer uma ação em Curitiba. Como o Roberto já havia tocado em outras ocasiões no projeto do Pão de Açúcar, houve uma conjunção positiva”.

Conjunção positiva às 20h25 do dia 29 de março, uma noite estrelada, pequenas nuvens no céu. Petiscos e refrigerantes de lado, as atenções se voltam para o rei, com um semblante cansado, abatido. Todo de branco: roupa, cabelos, pele…

Rei: “Quando eu estou aqui/ eu vivo esse momento lindo”.

Pará parará pará parará.

Ou seria um pastor? Anda até trocando o maniqueísmo da letra: “Se o bem e o bem existem você pode escolher/ É preciso saber viver”.

Todo mundo:

“Essa luz, só pode ser Jesus”.

Roxas, azuis, laranjas. O espetáculo de cores energiza e deixa a platéia ainda mais atenta: “Quanto pancake que ele usou, você viu fulana?”, diz uma fã para outra. Para fazer um comentário como esse, as duas só poderiam estar na verdadeira fila do gargarejo, ou seja, a dos convidados. Sentadinhos na frente do palco, os sortudos funcionários da rede de supermercado e da prefeitura, políticos, apresentadores de tevê…espera….o que o Tuba está fazendo aqui?

– Ah, você acha que eu iria perder um show do Roberto Carlos? Pô, a gente também canta músicas dele.

A gente quer dizer os Faichecleres, a banda de rock’n’roll do Tuba.

– A gurizada tá toda lá no meio. Só eu que consegui ficar aqui! – explica Tuba tri entusiasmado.

– Mas, bicho, você não trabalha no Pão de Açúcar, nem na prefeitura e ainda não virou apresentador da MTV, então: como conseguiu esse crachazinho? …..hahaha….entendi…. me diz ainda: você vai dar aqueles gritos fenomenais pro Roberto?

– Vou…vou ficar gritando o show inteiro…

Tuba pode ter ensaiado alguns gritos, mas ele parecia muito emocionado diante da figura do Rei.

O sucesso “Todos estão surdos ficou de fora”, do disco de 1971 (que tem “Detalhes” e “Debaixo dos Caracóis”), e que recebeu versão de Chico Science (também… sem os gritos do Tuba), como as “Curvas da Estrada de Santos”. Restou “Parei na contramão” pra relembrar os anos 60.

Chacon Júnior, o sósia do Roberto Carlos, era outro convidado que só não acertou na cor da camisa, azul. Numa breve, porém franca conversa pouco antes do início do show, o radialista de 62 anos contou que Roberto Carlos vem perdendo esse tipo de superstição. Chacon acompanha o Rei desde “a época da tevê em preto e branco”, vai aonde RC se apresenta e consegue manter uma conversa com ele nas suas visitas aos hotéis onde o astro se hospeda.

– O Roberto Carlos te recebe bem?

– Sim. Ele é muito simpático. O Roberto está muito religioso. Quem tem Deus no coração, aos poucos vai consertando os erros – disse Chacon.

E por falar em erros, depois de algumas músicas conhecidas, a maiorida delas do último CD Roberto Carlos e do Acústico, o rei canta uma recente parceria, um quase rap com Erasmo Carlos. No prefácio da canção “Seres Humanos”, que não estava presente no roteiro, o rei prega: “eu sempre ouvi que o ser humano é frágil. Mas hoje eu penso diferente. O ser humano não é terrível, é maravilhoso. Se a gente não tivesse inventado o avião, pra chegar de Curitiba ao Rio de Janeiro levaria duas semanas” (será que foi isso o que eu ouvi?). Menos, Roberto. Menos. Menos o Hitler, o Bush….

E continuou falando sobre os benefícios do gás de cozinha, combustíveis, ou seja, hoje o mundo é bem melhor do que tempos atrás.

“Que negócio é esse de que somos culpados
De tudo que há de errado sobre a face da terra
Que negócio é esse de que nós não temos
Os devidos cuidados com o mundo em que vivemos
Fazemos quase tudo por necessidade
Vivemos em busca da felicidade

Somos Seres Humanos
Só queremos a vida mais linda
Não somos perfeitos
Ainda”

Bom, se não somos – seres humanos – culpados, gostaria de saber quem é. E o rei-pastor-professor-artista da Globo segue propagando o amor aos seus súditos (ou ovelhinhas?). 100 mil pessoas previstas. 45 mil presentes, segundo um policial. 80 mil pessoas de acordo com outro. No final, 110 mil. Gente suficiente pra cantar junto com ele: eu te amo, eu te amo, eu te amo. E responder histericamente: eu também, eu também. Arranhando o violão na melosa “Detalhes”: “Imediatamente você vai lembrar de mim de mim”….e o público: toda hora, toda hora. Um espectador estende o celular pro alto, dedicando a música pra alguém querido. Eu te amo tanto. “Esta música foi a mais forte que eu já fiz em toda a minha vida”, diz Roberto se dirigindo ao piano. No telão de fundo, surge a foto do casal e duas estrelinhas uma do lado da outra. “Esse show foi dedicado à Maria Rita”. Aplausos, aplausos. Roberto explica a diferença entre paixão-amor: o amor é a união de duas almas, não de dois corpos. Por isso é eterno. Mas apesar de todo seu sofrimento, ele continua: é a “Força Estranha” que leva a cantar.

E no final, uma integração pela paz, comoção e correria pra ganhar a flor do Roberto. Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui…e como eu também sou filha de Deus, uma flor vermelha caiu na minha mão. Infelizmente, as rosas não são para as fãs cansadas na multidão.

E assim Roberto Carlos deixa o palco: nenhum discurso sobre guerra, aqueles mesmos gestos, aquela mesma batida no peito, aquele mesmo dedo apontado pro céu, aquele mesmo “obrigado”. Só faltou uma nave espacial azul pairar sobre o palco alemão.

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Adivinha de quem é aquela mão? (Foto de Ricardo Almeida/SMCS)

* Texto publicado na coluna Outro Olhar do portal Central da Música em 6/4/2003. A flor, ou o que sobrou dela, ainda está guardada.