Aquele sorvete italiano da esquina não é de San Gimignano, mas dá pro gasto. Parece até que cobram em euro. Mas costumam dizer que não é pra converter, vero?
Nesse caso, o gelato vale o quanto custa. Ainda mais se compararmos com o sorvete da concorrência. A consistência segura na concha, não escorre antes da primeira lambida. E o cappuccino… aquele adaptado brasileiro, com chocolate derretido e chantilly, que faria qualquer italiano revirar os olhos. Eu adoro. Pago sem discutir.
Ali já haviam tentado de tudo: bar, cervejaria, bar, bar, outro bar. Abria, fechava. Fechava, abria. Até que fazia sentido, já que fica na esquina de uma rua gastronômica, com botecos e afins.
Mas quando abriu a sorveteria, disse na primeira vez: “agora vai”.
Sorvete tem uma vantagem competitiva difícil de bater, porque atravessa gerações sem esforço. Meu filho gosta. Meu pai gosta. Eu gosto. Já cerveja… digamos que o público-alvo seja mais reduzido.
Minha mãe gostava de sorvete. Uma amiga minha também. As duas já não estão aqui pra ler essa história.
Na última vez que saí com essa amiga, fomos tomar sorvete de chocolate numa sorveteria, onde comprei um pote do mesmo sorvete pra minha mãe. Ela estava internada num hospital a algumas quadras dali. Foi há um ano. Abril despedaçado.
Mamãe não conseguiu comer metade do pote. Respirar ocupava todos os seus esforços. Ainda assim, no fim da vida, certos desejos não se discutem.
Talvez por isso eu não tenha hesitado quando vi o homem na porta. Não que ele estivesse com seus dias contados. Mas seu dinheiro estava (e o meu também).
Ele não entrava. Ficava ali, como um vampiro esperando autorização. Pedia um sorvete para cada pessoa que entrava na fila. E ficava no repeat.
Entramos na sorveteria. Eu disse sim pra ele. Mas, antes, precisava saber se alguém já havia comprado sorvete. Vai que ele já tinha tomado uns 10 copinhos.
O casal na minha frente teve a mesma ideia, e foi além. Perguntou por que a sorveteria não dava um copinho pra ele.
A resposta veio pronta:
— Vai que ele passa mal. Depois sobra pra gente.
Mas a gente fez.
Chamamos o homem. Uns quarenta e poucos anos, talvez. Baixo, de chinelo, com a roupa pedindo pra ser lavada.
Dividimos o valor do copinho.
— Qual sabor?
— Pistache.
Confesso que me pegou.
— Você tem bom gosto.
Ele sorriu. Perguntei o nome. Ele perguntou o meu.
— É o nome da minha irmã.
Pronto. Já não éramos tão estranhos.
Ele tomou o sorvete ali mesmo, em pé, com calma. Como se aquilo fosse exatamente o que precisava ser naquele momento.
Depois foi embora.
A fila andou. Meu filho escolheu o dele. Eu pedi meu cappuccino. E ele veio do jeito que eu gosto. Fiquei olhando a xícara e pensando que cappuccino, em italiano, significa “pequeno capuz”, porque foi criado por um frade italiano. Marco d’Aviano. Beatificado pelo papa João Paulo II em 2003.
Engraçado como algumas coisas ficam: a imagem, o nome, o hábito. Na embalagem do chocolate em pó, são dois frades.
Na vida real, às vezes basta um gesto pequeno, quase silencioso, pra não deixar alguém do lado de fora.
