O vírus e a corrida do álcool gel

Tempos de crise deveriam servir de ensinamento para evoluirmos enquanto pessoas, amigos, irmãos, enquanto seres humanos. Essas fases cíclicas pelas quais passamos deveriam provocar em cada um de nós um momento de reflexão. Pararmos um instante de olhar para o nosso umbigo e enxergarmos ao redor a fim de tentar, pelo menos, entender o motivo de tudo isso. 

Mas, por enquanto, não é o que ando percebendo por aí. Lembro que quando surgiu o temido H1N1, a personagem mais cobiçada da história era o álcool gel, produto que novamente está fazendo a fama com a chegada desse novo vírus, antes chamado de corona, agora de Covid-19. 

Teorias da conspiração à parte (será que foi criado em laboratório para a China, enfim, dominar o mundo?), a disseminação desse vírus mutante, que se espalha com mais rapidez do que o vírus da gripe comum e do H1N1, já provocou uma mudança radical no cotidiano da população mundial. Países em quarentena, pessoas isoladas, evitando contanto humano, trabalhando remotamente. Soa a mim um tanto metafórico. Se às vezes nos queixamos que as redes sociais nos repelem fisicamente, veio um vírus para nos separar de vez. Na Itália, pessoas pegam os ônibus sem abrir a boca com medo do contágio. Nesse mesmo país, moradores tentam passar o tempo cantando nas sacadas dos prédios.

Ao meu redor, porém, os hábitos continuam os mesmos. Pessoas reclamando que não conseguirão dar conta de trabalhar em casa e ao mesmo tempo cuidar do filho, impedido de ir à escola. 

Tomando o exemplo do restante do mundo e já vislumbrando o que poderia ocorrer conosco, imaginei que se fosse ao mercado dali uma semana não encontraria mais álcool gel, ou papel higiênico. PH ainda tem, mas o álcool, ah, esse só no mercado negro agora. Até armazéns que vendem produtos a granel estampam na vitrine: “temos álcool gel”. 

Hoje fui à farmácia para comprar o leite em pó do meu filho. Num intervalo de cinco minutos, duas pessoas perguntaram sobre o álcool. Uma mulher apavorada queria saber quando era a previsão de chegada.

Num mercado perto de casa acabou até o suco de laranja. Eu me pergunto: quem toma tanto suco de laranja em 15 dias? Será que quando saímos de férias parece que o mundo vai acabar também? 

Ora bolas, desde a pandemia de H1N1 deveríamos ter mantido esse hábito de usar álcool gel. E se não tem o tal álcool 70, use vinagre. Adapte-se. Crises são feitas para isso. Pare de reclamar e passe a meditar. Aproveite esse tempo, que sejam 40, 15 ou 7 dias, para refletir sobre seu estilo de vida, para ficar perto da família, para pensar na paranoia em que vivemos hoje. 

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Foto por Bruna Tovar Faro em Pexels.com

Portanto, acredito que a evolução do ser humano, no sentido de exercer a compaixão, a paciência, a empatia, mudar o foco para o outro, está longe de acontecer. O egoísmo, o desespero e o medo são tão contagiosos quanto um vírus. 

A desordenada mala da vida

A mala que guardou os macacões, as mantinhas, o cobertor, as fraldas, as luvinhas e sapatinhos de crochê – e acompanhou toda a espera do nascimento do primeiro e, talvez, único filho – agora vai e volta da segunda casa de Totônio. É um ir e vir com o qual ainda não me acostumei. 

A bolsa de fundo branco, riscas azuis e alça bege não se parece com malinha de bebê, que normalmente tem estampada uma coroa de príncipe. Nunca quis uma mala de príncipe. Acho kitsch demais. 

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Mascotinho do Totônio.

Como há quatro anos, a bolsa é novamente arrumada com capricho e cuidadosamente preparada para que nada falte, principalmente o coelhinho, o bichinho de pelúcia sem nome, que Totônio ganhou dos avós maternos na sua primeira Páscoa, aquela festa que representa a ressurreição de Jesus Cristo. A foto de Totônio com seis meses de vida, no bouncer de olhos arregalados, segurando o coelhinho, está pendurada num quadro na parede. O bichinho de pelúcia agora tem outro significado: transformou-se num objeto de transição, que leva o cheirinho do “lar oficial” de Totônio para sua outra casa.  

Quando a mala retorna, às vezes é difícil encontrar o mascotinho na bagunça: roupas limpas entrelaçadas com usadas, pijamas misturados com roupa de sair, cuecas embaralhadas com meias. Eu olho para o estado dessa confusão e me deprimo um pouco, porque me parece falta de cuidado, de atenção, de zelo, de carinho. Olhar para essa mala me passa uma sensação ruim, não só porque lembra união e separação, início e fim, mas, sobretudo, porque representa o estado de confusão que Totônio e eu estamos atravessando.

O modo como tudo é despejado e socado dentro da mala talvez seja a metáfora da pressa motivada por outro verbo com o qual também não me habituei: devolver. “Que horas posso devolvê-lo?”. Como se Totônio fosse uma coisa ou um carro ou um sei lá o quê. Nós devolvemos objetos dos quais não gostamos, devolvemos ainda o carro alugado, o vestido de festa emprestado, mas não crianças, filhos. 

Talvez fosse mais fácil superar determinadas fases da vida se conseguíssemos devolver sentimentos. “Meu amor por você se desgastou. Quero devolvê-lo. Toma aí”. E assim como numa prateleira vazia, um espaço desmemoriado em nosso ser estivesse pronto para receber uma nova dose de amor. Só que na vida real, dos plebeus, não funciona desse jeito.

Totônio, na verdade, não dava muita bola pro coelhinho, mas os dois foram obrigados a criar laços fortes e seguir lado a lado, da Páscoa ao Natal, essa festa que representa o nascimento de Jesus Cristo. Essa festa que costuma reunir as famílias em torno de uma mesa gigante com comida farta, amor farto, bebida farta e, por vezes, confusão farta. A confusão da mala. Na vida de Totônio, tudo é em dobro agora: casa, Natal, presente; talvez um dia, família. Meu desejo maior é que o amor, esse sentimento irreversível, venha sempre em dobro para Totônio nessa mala desordenada que é a vida.

Um acidente a caminho da escola

De carro ou a pé? – perguntei ao Totônio.

_ Pelo caminho, por aqui – respondeu o menininho cabeludo. Dois anos ele tem, e agora entra na escola no meio da manhã (pra ver se come melhor, sabe). Estamos atrasados e está prestes a chover. Por mim, colocaria Totônio na cadeirinha do carro e vrummmm. Mas não, o garotinho prefere ver as abelhinhas, as borboletas, o cachorro Jango. Prefere constatar que recolheram os galhos cortados que haviam sido deixados no meio da calçada.

Hoje, porém, estava incrivelmente chovendo. Chuva fina, mas pelo céu escuro, o toró cairia a qualquer instante. _ Vamos colocar o capuz, Totônio.

Peguei o guarda-chuva no carro e fomos nós, empurrando a mala de rodinhas de super-herói. _ Ih, mamãe, não, tem abelhinha…, resmungou Totônio. _ Elas não trabalham na chuva, xuxu.

Quando saímos do prédio, a chuva parou. Vamos tirar esse capuz e dar bom dia para as pessoas. Quem sabe encontramos alguma borboleta.

Ao virar a esquina da rua onde fica a escola, o cenário estava diferente, meio conturbado. Calor. Tiramos o agasalho. O guarda-chuva pendurado na mala. Totônio insiste em se desvencilhar da minha mão. Ele se solta pra correr atrás de um joão-de-barro. A mulher do passarinho está rente ao asfalto. Adiante, uma borboleta. Totônio quer sair atrás dela também. Pego firme na mão do meu filho. Explico a ele pela enésima vez que os carros descem a rua muito rápido e podem “passar por cima” do Totônio. Ele aceita e continuamos o trajeto.

_  Vixi, estão cortando a grama da casa do Jango. O cão está guardado, os portões abertos. Temos que desviar. Do outro lado da rua, lavam a calçada em frente ao casarão. Pego o menininho no colo, na marra, junto com a mala, guarda-chuva e agasalho para atravessar naquele trecho. Retornamos ao nosso caminho e nos deparamos com uma van estacionada ali, na calçada. Mais alguns passos e a quadra acabou. Totônio não quer colo. Quer atravessar sozinho. _ Só quando a mamãe disser já, ok?

Ufa, conseguimos!!! Só mais uma subidinha e chegamos à escola. Totônio dá tchau e entra contente. Eu saio de lá e noto que o zelador olha em direção à esquina de cima. E, realmente, percebo um grupo reunido e….um carro capotado. _ Parece que a criança estava na cadeirinha, disse o zelador.

Apesar de evitar ler/ver qualquer relato sobre tragédia desde que Totônio nasceu, precisava saber se estava tudo bem. Você pode largar a profissão, mas a notícia insiste em te perseguir.

Quando olhei para o carro, fiquei paralisada com os brinquedos caídos no asfalto: o trator, o bichinho de pelúcia. Quase chorei. Essa cena me lembrava tantas outras que tive de presenciar quando trabalhava no jornal.

Ao meu lado, um pai, em choque: olhos claros, arregalados, desesperados, segurando no colo o filho de chupeta. E uma mulher, com a mochilinha da criança de uns 4 anos de idade no braço; provavelmente a mãe. Todos usavam cinto de segurança no momento do acidente.

Pergunto se eles precisam de ajuda. _ Está tudo bem. Ninguém se machucou. Também vim aqui ajudar, disse uma moça que estava ao celular e conversando com testemunhas.

Então, percebo um carro, um Subaru vermelho, antigo. E acho que entendi tudo. Provavelmente cruzou a preferencial, como seeeempre acontece aqui no bairro. O pai, vinha descendo a rua, e deve ter jogado o carro no meio-fio e capotado. Como notou um cortador de grama, não deu tempo nem de ele frear: _ Olha, não tem marcas no chão, apontou para o asfalto.

Os pais e a criança foram gentilmente recolhidos a uma clínica médica que fica bem na esquina do acidente. O menino estava apavorado, mas não chorava.

Contei o que tinha acontecido para o zelador que não podia sair de frente da escola. E voltei pra casa, debaixo de chuva forte e aliviada, por chegar a um local de acidente e simplesmente oferecer ajuda e não ser mais obrigada a escrever sobre isso.

 

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Carro capotado. Menino estava na cadeirinha.