Escova fast, identidade slow: por que alisamos o cabelo?

Depois do boom das farmácias, agora são os salões de beleza que tomaram conta da cidade. Tem um em cada esquina. Alisar virou quase regra. Mas só isso não basta. Tem que ser rápido. Escova fast. Resultado imediato.

Só na região onde eu moro, contei três deles.

Bem, eu nasci com cabelo liso. Tão liso que até o shampoo escorrega. Mas sempre tive uma queda pelos cacheados. Aquele cabelinho de anjo, sabe?

Quando eu tinha uns 12 anos, talvez influenciada pela minha mãe — que vivia fazendo permanente — fui ao salão pra enrolar o meu. E o cabeleireiro me enrolou. Durou um tempo.

Hoje, gosto de cabelo curto, chanel. Já faz anos que corto desse jeito. Não é modinha. Outro dia, até o meu cabeleireiro sugeriu uma escova definitiva: “Você acorda pronta, tudo no lugar”. Pode até ser. Mas eu gosto do jeito que meu cabelo acorda. Ou melhor: do jeito que eu acordo com ele.

Também já fui fã de frisar o cabelo, seguindo a vibe dos anos 90. Minha avó fazia trancinhas em tudo, depois soltava e… pronto, frisado perfeito.

Sempre fui fascinada por black power. Talvez por amar soul music. Ao mesmo tempo, cresci vendo o exagero do hair metal, de Bon Jovi e companhia, com aqueles cabelos enormes. Cada época com sua estética, suas referências, suas “regras”. E, de algum jeito, todo mundo convivia com isso.

Mas, olhando essa proliferação de escovas fast, eu comecei a me perguntar: de onde vem essa vontade de alisar o cabelo? De fazer uma progressiva e simplesmente não acordar com o cabelo que você tem?

A pergunta não é só estética. É também cultural, histórica e, muitas vezes, emocional.

Durante muito tempo, o cabelo liso foi vendido como sinônimo de praticidade, beleza e até “aceitação social”. Não à toa, a indústria da beleza cresceu em cima dessa promessa. Um levantamento da L’Oréal aponta que quem alisa o cabelo convive com uma rotina constante de manutenção, entre retoques, cuidados e expectativas de resultado. Quase como um compromisso permanente com uma versão ideal de si mesma.

Do ponto de vista psicológico, o ato de alisar pode ir além da praticidade. Em alguns casos, está ligado ao desejo de controle, de pertencimento ou até de adequação a padrões que foram naturalizados ao longo do tempo. Não é regra, mas é uma camada que existe.

E, quando a gente olha para mulheres que têm cabelos, digamos, mais volumosos e “rebeldes”, essa conversa ganha ainda mais profundidade. O alisamento, muitas vezes, atravessa questões de identidade, pressão social e história. Nos últimos anos, o movimento de valorização do cabelo natural trouxe à tona um resgate importante: o de reconhecer beleza onde antes só havia imposição.

Talvez por isso essa não seja uma discussão simples.

Eu mesma não sei dizer o que faria se tivesse nascido com outro tipo de cabelo. Se alisaria, se deixaria natural, se mudaria o tempo todo. A verdade é que a gente não decide só com base no gosto, mas com base em tudo o que viveu, viu e aprendeu.

Difícil mesmo é a gente se aceitar como é.

Mas também é curioso perceber quantas versões de nós mesmas cabem ao longo do tempo. Tipo a música do Jorge Ben Jor.

A questão vai muito além de “alisar ou não”. E, sim, sobre o quanto a gente consegue (ou não!) se reconhecer no espelho, do jeito que acorda. Deixar o cabelo enrolado, liso, branco acontecer naturalmente.

O Brasil que a gente não aprende na escola

Todo 22 de abril surge a voz de Renato Russo me convidando a celebrar a estupidez humana. E como a estupidez evolui a cada ano.

Mas, pra entender por que O Descobrimento do Brasil soa tão atual, vale lembrar rapidamente o momento em que ele nasceu.

O Brasil dos anos 90 ainda tentava se reorganizar depois da ditadura, em meio a crises e promessas frustradas. O governo de Fernando Collor de Mello e o confisco da poupança escancararam essa instabilidade, e ajudaram a moldar o sentimento de uma geração.

É num cenário pós-impeachment (uma especialidade nacional que dispensa apresentações), que a Legião Urbana lança um disco que não grita, mas expõe.

Acho curioso que o dia 22 de abril sempre vem logo depois de um respiro: o dia 21, Dia de Tiradentes. Primeiro o sacrifício, depois o tal “descobrimento”. Duas ideias pesadas demais pra caber em versões simples.

Por isso faz ainda mais sentido dizer, sem muito rodeio, que o Brasil não foi descoberto. Foi invadido. O resto é narrativa que a gente aprendeu a repetir.

Lembro como se fosse hoje: Perfeição tocando como fundo de um trabalho da disciplina de Rádio na faculdade. Desde então, essa música nunca mais me deixou. E todo santo dia 22 de abril ela volta a tocar, quase como um ritual.

Tem uma coisa curiosa nesse álbum: ele não narra um país, ele atravessa um. E sempre me pareceu que cada faixa é uma tentativa de entender onde a gente tá pisando, o que, pensando bem, tem tudo a ver com essa ideia meio torta de “descobrimento”.

Perfeição talvez seja uma das maiores ironias já escritas em forma de música. Uma celebração ácida de tudo que está errado: violência, hipocrisia, caos, corrupção. É quase como olhar pro país e dizer: “é isso aqui mesmo, sem filtro”. Se existe um “descobrimento” possível, ele passa por encarar o que incomoda, não por romantizar o que aconteceu lá atrás.

Mas o disco não fica só nisso.

Na faixa-título, O Descobrimento do Brasil, o tom muda. Fica mais íntimo, quase cotidiano. Sai do macro e entra nas pequenas descobertas: relações, afetos, deslocamentos. Como se dissesse que o Brasil não é só um problema estrutural a ser resolvido, mas também um espaço onde a vida acontece, com suas contradições, seus encontros e seus silêncios.

E o ponto mais honesto está em Giz.

Aquela sensação de que tudo pode ser apagado, reescrito, reimaginado. Uma espécie de fé meio frágil, meio teimosa. Bem brasileira, aliás.

Quando junto tudo isso, o álbum deixa de ser só trilha sonora e vira quase um mapa, não geográfico, mas afetivo. Um mapa cheio de rasuras, desvios e caminhos que não levam exatamente pra onde prometeram.

Então, todo 22 de abril, enquanto muita gente revisita a história oficial, eu acabo revisitando essas músicas.

Porque elas fazem uma coisa que a versão escolar nunca conseguiu: trocam a ideia de “descobrir” pela de “entender aos poucos”.

E isso é o que ainda estamos fazendo.

Tentando descobrir o Brasil, não como quem encontra algo novo, mas como quem finalmente começa a enxergar o que sempre esteve ali.

Meio escondido, meio óbvio.
Tipo refrão que só faz sentido anos depois.

Um copinho de pistache

Aquele sorvete italiano da esquina não é de San Gimignano, mas dá pro gasto. Parece até que cobram em euro. Mas costumam dizer que não é pra converter, vero?

Nesse caso, o gelato vale o quanto custa. Ainda mais se compararmos com o sorvete da concorrência. A consistência segura na concha, não escorre antes da primeira lambida. E o cappuccino… aquele adaptado brasileiro, com chocolate derretido e chantilly, que faria qualquer italiano revirar os olhos. Eu adoro. Pago sem discutir.

Ali já haviam tentado de tudo: bar, cervejaria, bar, bar, outro bar. Abria, fechava. Fechava, abria. Até que fazia sentido, já que fica na esquina de uma rua gastronômica, com botecos e afins.

Mas quando abriu a sorveteria, disse na primeira vez: “agora vai”.

Sorvete tem uma vantagem competitiva difícil de bater, porque atravessa gerações sem esforço. Meu filho gosta. Meu pai gosta. Eu gosto. Já cerveja… digamos que o público-alvo seja mais reduzido.

Minha mãe gostava de sorvete. Uma amiga minha também. As duas já não estão aqui pra ler essa história. 

Na última vez que saí com essa amiga, fomos tomar sorvete de chocolate numa sorveteria, onde comprei um pote do mesmo sorvete pra minha mãe. Ela estava internada num hospital a algumas quadras dali. Foi há um ano. Abril despedaçado.

Mamãe não conseguiu comer metade do pote. Respirar ocupava todos os seus esforços. Ainda assim, no fim da vida, certos desejos não se discutem.

Talvez por isso eu não tenha hesitado quando vi o homem na porta. Não que ele estivesse com seus dias contados. Mas seu dinheiro estava (e o meu também).

Ele não entrava. Ficava ali, como um vampiro esperando autorização. Pedia um sorvete para cada pessoa que entrava na fila. E ficava no repeat.

Entramos na sorveteria. Eu disse sim pra ele. Mas, antes, precisava saber se alguém já havia comprado sorvete. Vai que ele já tinha tomado uns 10 copinhos. 

O casal na minha frente teve a mesma ideia, e foi além. Perguntou por que a sorveteria não dava um copinho pra ele.

A resposta veio pronta:

— Vai que ele passa mal. Depois sobra pra gente.

Mas a gente fez.

Chamamos o homem. Uns quarenta e poucos anos, talvez. Baixo, de chinelo, com a roupa pedindo pra ser lavada. 

Dividimos o valor do copinho.

— Qual sabor?

— Pistache.

Confesso que me pegou.

— Você tem bom gosto.

Ele sorriu. Perguntei o nome. Ele perguntou o meu.

— É o nome da minha irmã.

Pronto. Já não éramos tão estranhos.

Ele tomou o sorvete ali mesmo, em pé, com calma. Como se aquilo fosse exatamente o que precisava ser naquele momento. 

Depois foi embora.

A fila andou. Meu filho escolheu o dele. Eu pedi meu cappuccino. E ele veio do jeito que eu gosto. Fiquei olhando a xícara e pensando que cappuccino, em italiano, significa “pequeno capuz”, porque foi criado por um frade italiano. Marco d’Aviano. Beatificado pelo papa João Paulo II em 2003.

Engraçado como algumas coisas ficam: a imagem, o nome, o hábito. Na embalagem do chocolate em pó, são dois frades.

Na vida real, às vezes basta um gesto pequeno, quase silencioso, pra não deixar alguém do lado de fora.

Da sofrência à autobahn: um trajeto em dois atos.

Peguei um Uber rumo a uma pré-estreia no cinema com aquela expectativa básica de quem só quer chegar inteira, emocional e auditivamente.

Entrei, dei “boa noite”, ajeitei o cinto e, antes mesmo de fechar a porta, fui oficialmente sequestrada por um ritmo musical que, por motivos de autopreservação de reputação, não posso nomear aqui.

Mas pense num negócio insistente.

Não era música, era um looping existencial. Uma espécie de universo paralelo onde todas as letras falam sobre beber, sofrer e alguém que claramente alugou um triplex na cabeça de outro alguém. Meu olho é água de sal. Meu fígado, solidário. E eu ali, no banco de trás, tentando decidir se ria da situação ou se começava a chorar junto com a playlist.

Quando o motorista aumentou o volume, tive que abrir a janela.

Foi instintivo.

Primeiro, porque o vento podia me ajudar a respirar e dissipar a intensidade da experiência sonora. Segundo, porque eu normalmente enjoo no banco de trás — o que, diga-se de passagem, só aumenta minha admiração por astronautas. Imagina passar dias flutuando no espaço sem poder pedir pra trocar de lugar ou abrir a janela?

Isso não é ChatGPT. É a rádio 98 km/h.

O motorista? Feliz da vida. Espiava meu sofrimento pelo retrovisor. Só faltava cantar. Vivendo o melhor momento da vida dele. Sem cantadas, por favor!

Eu? Toda de preto, tendo que lutar internamente para não enojar, ops, enjoar (com o perdão do anagrama). Contemplava minhas escolhas até aquele instante: será que pedir um Uber foi um erro? Será que isso é algum tipo de prova de caráter? Será que existe um botão de “silêncio emocional”?

Não existe.

Cheguei ao evento com a sensação de ter sobrevivido a uma experiência imersiva. Tipo cinema 4D, só que o tema era “sofrência sem consentimento”.

Aí veio a volta.

Outro carro. Outro motorista. Outro plano astral.

Entrei e… silêncio. A barra tá limpa. Eu inverti o código, em vez de final 2, disse 5.

Será que estou vendo através do espelho?

Logo depois, começam os primeiros acordes. Radiohead. Fake plastic trees. Pela primeira vez, não tive vontade de chorar ao ouvir essa canção.

Depois, uma transição elegante pra Kraftwerk, como se o carro estivesse deslizando por uma Autobahn onde a música faz sentido.

Segui a trilha e, antes de descer do carro, tinha uma decisão importante a tomar: fingir normalidade ou reconhecer o que estava acontecendo ali.

Escolhi a maturidade emocional.

“Boa a trilha, hein.”

Ele respondeu com um sorriso discreto, desses de quem sabe exatamente o que está fazendo.

E eu segui meu caminho. Sem triplex, sem água de sal, sem dilemas internos.

Só indo pra casa, finalmente em liberdade sonora.

Entre o agora e o que já passou

Ella costuma dizer a ela mesma para viver no presente. Era quase um mantra que a gente repete mais como tentativa do que como certeza.

Mas depois de descobrir que o tal “presente” talvez não exista como imaginava (essa linha reta, estática, em que a vida supostamente acontece), Ella travou.

O que escorre entre os dedos não é o presente. É o agora. E o agora… minha nossa, acabou de passar.

Se tivesse a oportunidade de trocar uma ideia com Bergson, ah, ele provavelmente sorriria delicadamente. Afinal, pra ele, o tempo não é essa coisa que a gente mede no relógio pendurado na sala de jantar, dividido em pedaços iguais de pizza, organizadinhos como os talheres na gaveta, quase obedientes como nossos filhos.

O tempo vivido, o tempo real, é duração. É fluxo. É algo que se alonga, se mistura, se infiltra. Não dá pra cortar em fatias sem perder o que ele tem de mais essencial.

Ou seja, esse “presente” que Ella tenta segurar talvez seja só uma abstração confortável, ou até mesmo um jeito de organizar o caos da vida diária.

Daí, em suas pesquisas, Ella se deparou com Santo Agostinho que, muito antes, já tinha se angustiado com a mesma questão. O filósofo dizia que se ninguém me pergunta o que é o tempo, eu sei. Mas se me pedem para explicar… eu já não sei mais.

Porque o passado só existe como memória. O futuro, como expectativa. E o presente? Esse mesmo que a gente insiste em nomear? Ele seria apenas um ponto tão breve que quase não tem duração.

Quase nada.

Quase um intervalo entre dois vazios.

Então quando Ella descobre que só existe o “agora”, ela não encontra alívio. Encontra vertigem. Porque o agora não é um lugar onde se fica. É um lugar onde se cai.

E é nesse ponto que a tal da mindfulness entra, não como solução, mas como convite.

O que o filho do Berg acharia disso tudo? Talvez dissesse que há algo de bonito nessa tentativa contemporânea de voltar ao instante vivido, de prestar atenção no fluxo em vez de só medi-lo.

Mas também poderia levantar uma sobrancelha: porque transformar o agora em técnica, em método, em checklist de respiração consciente… talvez seja só mais uma forma de tentar controlar aquilo que, por natureza, escapa.

Talvez mindfulness funcione não quando promete nos fixar no presente, mas quando nos lembra que não há nada fixo para segurar.

E aí Ella começa a desconfiar que “viver o presente” nunca foi sobre parar o tempo, mas sobre sentir que ele passa. Sem ser engolida pelo que já passou. Sem tanta pressa de organizar. Sem tanta ansiedade de entender.

Só… acompanhar.

Como quem senta à beira de um rio sabendo que não dá pra entrar duas vezes na mesma água, mas, ainda assim, molha os pés.

Manifesto pelo fim do “Dito Isso”

(e quem já foi usado demais)

Eu sou o “dito isso”.

Sim, eu mesmo.

A pausa estratégica.

O respiro que parece inteligente.

A dobradiça entre uma ideia e outra que, quase sempre, nem precisava existir.

E eu estou cansado.

Cansado de entrar em frases que já sabiam onde queriam chegar.

De ser chamado pra dar importância ao que não tem. De servir como maquiagem pra pensamento raso.

Você talvez não saiba, mas eu nunca pedi esse papel.

No começo, eu até fazia sentido.

Eu ajudava a organizar. Conectava ideias com alguma elegância, ou pelo menos com intenção.

Mas aí vocês exageraram e me colocaram em todo lugar.

Me transformaram em vício e me usaram como atalho pra parecer seguro quando, na verdade, estavam só inseguros demais pra dizer “é isso”.

Daí eu fui ficando, assim, gasto.

Hoje, quando eu apareço, quase ninguém me escuta. Só reconhece.

Eu entro e as pessoas pensam: “lá vem o dito isso”.

E não porque eu trago algo novo, mas porque eu anuncio o mesmo de sempre, com um pouco mais de pose.

O fato é que eu virei um aviso de formalidade.

Um alarme de que a conversa vai perder um pouco de vida.

E olha… eu não aguento mais ser isso.

Não aguento mais interromper o fluxo de quem estava quase sendo verdadeiro.

Não aguento mais segurar frases que queriam ser simples.

Não aguento mais esse papel de dar peso artificial às coisas.

Eu não quero mais organizar o que podia ser só dito.

Quero me aposentar das reuniões longas, dos textos que têm medo de respirar, das falas que precisam parecer mais do que são.

Quero deixar vocês sem mim, sem essa transição ensaiada ou a necessidade de provar que existe lógica em tudo.

Sem esse pequeno teatro no meio da frase.

Vocês conseguem, sabia?

Conseguem falar direto e pensar em voz alta.

Conseguem até errar o caminho, e, ainda assim, chegar em algum lugar mais honesto.

Sem mim.

Então, da próxima vez que a frase pedir minha presença, que a língua quase me chame, que o hábito bata na porta, resista.

Me deixe de fora.

Não por mim.

Mas por você.

No fundo, eu só existo quando falta coragem de continuar sem apoio. E acho que já tenha passado da hora de vocês descobrirem como é falar sem precisar de mim.

Dito isso…

A reunião para alinhar o alinhamento

Se existe um esporte olímpico moderno, ele não é o breakdance.

É a reunião corporativa.

E foi numa dessas modalidades de alta performance que três criaturas do mundo empresarial se encontraram, numa terça-feira cinzenta o suficiente para justificar qualquer falta de entusiasmo.

Carla, a líder que fala com a tranquilidade de quem não vai executar nada, inicia a chamada:

— Gente, obrigada por sincronizarem as agendas. Acho importante a gente alinhar a visão macro antes de seguir com o roadmap.

Rafa, o analista já emocionalmente vencido, suspira tão alto que a câmera treme:

— Claro, Carla. Só acho que precisamos mapear os pontos abertos. Porque, com todo respeito, o escopo virou um Pokémon: toda hora evolui sem aviso.

Bruno, o estagiário que descobriu ontem que almoço não é opcional, tenta contribuir:

— Então… dito isso… talvez seja bom trazer pra mesa o que é prioridade. Porque, sinceramente, tudo parece prioridade. Inclusive beber água.

Carla sorri como quem acabou de ver um KPI nascer:

— Excelente, Bruno. Essa sua visão é muito madura. Mas percebi um pequeno gap de performance no último sprint, tá? Nada grave. Só que precisamos ajustar expectativas.

Rafa fecha os olhos como quem reza:

— O gap surgiu porque o escopo mudou três vezes desde o último kick off, Carla.

— Então, Rafa — responde Carla, com aquele tom zen artificial — é por isso que precisamos elevar a régua. Mudança é constante. A gente se adapta. É o nosso DNA.

Bruno anota “comprar vitaminas” no bloco de notas.

Carla prossegue:

— Aliás, vamos fazer um novo kick off amanhã. O de ontem não entregou o que eu esperava.

Rafa ergue uma sobrancelha com a energia de quem já desistiu:

— Mais um? A gente vai dar início ao início do início até quando?— Até estarmos todos alinhados, Rafa! — diz Carla, empolgada demais para quem acabou de destruir a alma de dois funcionários.

— Amanhã às 7h, então? — pergunta Bruno, com esperança de que seja brincadeira.

— Claro! Quanto mais cedo, mais produtivo o dia.

E antes que eu esqueça… vou marcar outra reunião para aprofundar o que ficou pendente hoje.

A reunião termina.

Ninguém está mais sábio.

Mas todos estão, agora, oficialmente alinhados.

Ou pelo menos fingindo.

Prelúdio dos tempos

A primeira desce lenta, convocada pelo piano. Começa como um sussurro líquido, hesitante, mas inevitável.

Há um tremor quase imperceptível no rosto moldado pelo tempo. Uma resposta muda ao toque invisível da melodia.

O silêncio entre as notas se mistura à luz tênue, desenhando sombras sobre sulcos finos.

Rastros de um passado impresso na pele , a partitura secreta dos anos. Infinitas memórias ecoam no compasso de cada gota que desliza. No instante em que toca o ácido, a sinfonia e a química duelam.

Noturna.

O sal se dissolve na promessa de juventude, mas, ao invés de frescor, vem o fogo.

Primeiro como um aviso, depois como um castigo.

O ardor corta a melancolia, mas não silencia o que pulsa dentro dela.

A melodia, ainda suspensa no ar, parece se fundir à queima. Um embate entre a arte e a vaidade, entre a emoção e a ciência.

Ela fecha os olhos, deixando a dor se misturar ao som, ao piano que ressoa dentro dela como ecos de um tempo que já foi. Ainda assim, outra lágrima nasce. E outra. Nenhuma hesita.

Cada uma carrega o peso das notas que caminham no ar. Cada uma desafia o ácido que tenta apagá-las.

Mas nada pode conter a música que a faz sentir. Mesmo que sentir signifique arder.

Novatos no pedaço

Quando se é pré-adolescente e fã de boybands, tudo o que importa é aprender as letras das músicas.

Nos anos 90, eu era uma aluna de inglês razoável. Sem internet e com recursos limitados, o jeito era recorrer às revistas e encartes de LPs e CDs para cantar junto com nossos ídolos.

No meu caso, as Carícias e Caprichos eram a salvação. O problema? Nunca dava para saber quais músicas viriam traduzidas. Cada nova edição era uma surpresa.

Hoje, olhando para trás, me vejo fascinada com a mágica do Spotify e outros apps. As letras estão lá, sincronizadas, prontas para acompanhar cada verso. E o melhor: no celular!

Quer um exemplo? Totônio, no banco de trás do carro, assume o papel de DJ, escolhe a música e dispara:


_ É pra cantar junto ou não, mamãe?
_ Sim, é pra cantar junto!

Por isso o guri é mil anos luz à frente de mim no inglês. Não que eu fosse 100% tonga. Lembro de devorar as letras dos Beatles dos LPs que meu pai comprava nas lojas de discos. Nostalgia pura.

Ontem, essa nostalgia me pegou em cheio enquanto assistia ao documentário Larger than Life, que traça a trajetória das boybands de maneira breve, mas consistente, desde grupos pioneiros como The Beatles e Jackson 5 até o fenômeno global dos grupos de K-pop, que beberam na fonte de Backstreet Boys e New Kids on the Block.

O doc também fala sobre o N’Sync, que, sejamos sinceros, sempre achei uma cópia fajuta dos BSB. 

E toda vez que eu vejo e ouço NKOTB, retorno àquele caderno de perguntas clássico que circulava na sala de aula. Ele era o caminho para descobrir segredos do crush. Foi por causa dele que paguei um dos maiores micos da minha história ao escrever New Kids on the Box. Barbaridade.

Obviamente, o guri mais bonzão da turma abriu o caderno, leu aquilo em voz alta e soltou uma risada que até a madre superiora deve ter ouvido.

Pois aquele mico sem sentido viajou comigo até este exato momento. Afinal, alguns traumas são difíceis de esquecer. Mas hoje é engraçado pensar como erros assim eram quase inevitáveis. Agora, com os oráculos online na palma da mão, fica muito mais fácil remediar esses vexames.

Mas curtir boyband jamais pode ser considerado motivo de chacota. Eu tinha a minha fitinha do NKOTB onde ouvia no meu primeiro gradiente, um rádio portátil vermelho e azul que vinha com um microfone embutido. Era só colocar a K7 nele e cantar junto. Sério! Era muito bom. Andava com meu rádio pra cima e pra baixo no prédio. Meu primeiro gradiente, assim como meu primeiro walkman – ou walkgirl – era a sensação do momento (e aposto que foi muito caro na época. Coitado do meu pai).

Agora que o NKOTB se reuniu, sonho em vê-los ao vivo, assim como vi os Backstreet Boys em 2023. Foi, sem dúvida, um dos shows mais divertidos da minha vida, uma viagem no tempo que me fez sentir adolescente de novo.

O doc, aliás, aborda logo de cara o preconceito em torno das boybands: “garotos que não tocam instrumentos, mas sabem cantar e dançar”. Só que, sejamos francos, hits como I Want It That Way e As Long As You Love Me — assinados pelo gênio sueco Max Martin — são atemporais.

Portanto, assumo que o meu forte não era o inglês na época, mas não tenho vergonha de assumir minha paixão eterna pelas boybands (isso sem contar as brasileiras Dominó, Polegar e, é claro, Menudo).

BSB em CWB: larger than life.

A Fábula dos Ladrões de Ideias

Em uma terra chamada Marketônia, perto de uma estrada onde havia muitas capivaras, os criatônios viviam criando ideias brilhantes que iluminavam o mundo dos negócios. Cada ideia, fosse um produto inovador, um serviço criativo ou uma campanha genial, tinha o potencial de transformar Marketônia em um lugar próspero.

Porém, um problema surgiu: ideias estavam sendo roubadas. Um grupo conhecido como Ladrões de Ideias havia começado a agir, pegando criações alheias e dizendo que eram suas. Isso desanimou muitos criatônios, que preferiram guardar suas ideias em segredo, temendo que fossem roubadas.

Certo dia, uma jovem chamada Lúmina conversava com seu amigo Cléon em uma cafeteria.


— Cléon, você já reparou que ninguém mais quer apresentar ideias nas reuniões? — perguntou Lúmina.


— Como não perceber? — respondeu Cléon. — Na última vez que apresentei meu conceito de “Campanha Solar”, o Sombril o roubou e ainda levou os méritos. Até promoção ele ganhou!

Lúmina franziu a testa.


— Sombril é o chefe dos Ladrões de Ideias. Isso não pode continuar. Precisamos fazer algo!

Cléon suspirou, desanimado.


— Fazer o quê? Se falarmos algo, vão nos chamar de invejosos. Eles sempre conseguem se safar.

Mas Lúmina tinha um plano. Durante semanas, ela trabalhou em segredo, criando uma ferramenta revolucionária: a Luz da Verdade, um dispositivo mágico que brilhava somente nas mãos do verdadeiro criador de uma ideia.

Na próxima reunião geral de Marketônia, Lúmina subiu ao palco e apresentou sua invenção.


— Amigos, apresento a Luz da Verdade! A partir de agora, nenhuma ideia poderá ser roubada sem que a verdade venha à tona.

Sombril, sentado na primeira fila, deu uma gargalhada.


— Que bobagem, Lúmina! Ideias não têm dono. O importante é quem sabe usá-las melhor.

Lúmina o encarou, mantendo a calma.


— Então, Sombril, por que você não segura a Luz da Verdade? Vamos ver se ela reconhece você como criador de alguma ideia.

Desafiado, Sombril não teve escolha. Pegou a Luz da Verdade, que imediatamente apagou em suas mãos. Um murmúrio de espanto se espalhou pela sala.

— O que é isso? — exclamou Sombril, tentando fazer o dispositivo brilhar.


— É a verdade, Sombril — disse Lúmina, firme. — A Luz só brilha para aqueles que realmente criaram algo.

Cléon, que estava presente, levantou-se e apontou:


— E quanto à “Campanha Solar”, Sombril? Foi você quem criou?

Sombril tentou responder, mas a Luz nas mãos de Lúmina começou a brilhar intensamente, confirmando que Cléon era o verdadeiro criador. O embuste de Sombril havia sido desmascarado.

Os outros Ladrões de Ideias, temendo serem expostos, começaram a fugir da sala. Lúmina virou-se para a equipe:


— Marketônia só pode prosperar quando as ideias forem respeitadas. A ética é o alicerce de toda inovação. Sem ela, não somos nada.

Os criatônios aplaudiram, e a partir daquele dia, Marketônia tornou-se um lugar onde as ideias eram valorizadas e quem as criava levava devido crédito. E, assim, a ética voltou a iluminar os caminhos da criatividade.