Peguei um Uber rumo a uma pré-estreia no cinema com aquela expectativa básica de quem só quer chegar inteira, emocional e auditivamente.
Entrei, dei “boa noite”, ajeitei o cinto e, antes mesmo de fechar a porta, fui oficialmente sequestrada por um ritmo musical que, por motivos de autopreservação de reputação, não posso nomear aqui.
Mas pense num negócio insistente.
Não era música, era um looping existencial. Uma espécie de universo paralelo onde todas as letras falam sobre beber, sofrer e alguém que claramente alugou um triplex na cabeça de outro alguém. Meu olho é água de sal. Meu fígado, solidário. E eu ali, no banco de trás, tentando decidir se ria da situação ou se começava a chorar junto com a playlist.
Quando o motorista aumentou o volume, tive que abrir a janela.
Foi instintivo.
Primeiro, porque o vento podia me ajudar a respirar e dissipar a intensidade da experiência sonora. Segundo, porque eu normalmente enjoo no banco de trás — o que, diga-se de passagem, só aumenta minha admiração por astronautas. Imagina passar dias flutuando no espaço sem poder pedir pra trocar de lugar ou abrir a janela?
Isso não é ChatGPT. É a rádio 98 km/h.
O motorista? Feliz da vida. Espiava meu sofrimento pelo retrovisor. Só faltava cantar. Vivendo o melhor momento da vida dele. Sem cantadas, por favor!
Eu? Toda de preto, tendo que lutar internamente para não enojar, ops, enjoar (com o perdão do anagrama). Contemplava minhas escolhas até aquele instante: será que pedir um Uber foi um erro? Será que isso é algum tipo de prova de caráter? Será que existe um botão de “silêncio emocional”?
Não existe.
Cheguei ao evento com a sensação de ter sobrevivido a uma experiência imersiva. Tipo cinema 4D, só que o tema era “sofrência sem consentimento”.
Aí veio a volta.
Outro carro. Outro motorista. Outro plano astral.
Entrei e… silêncio. A barra tá limpa. Eu inverti o código, em vez de final 2, disse 5.
Será que estou vendo através do espelho?
Logo depois, começam os primeiros acordes. Radiohead. Fake plastic trees. Pela primeira vez, não tive vontade de chorar ao ouvir essa canção.
Depois, uma transição elegante pra Kraftwerk, como se o carro estivesse deslizando por uma Autobahn onde a música faz sentido.
Segui a trilha e, antes de descer do carro, tinha uma decisão importante a tomar: fingir normalidade ou reconhecer o que estava acontecendo ali.
Escolhi a maturidade emocional.
“Boa a trilha, hein.”
Ele respondeu com um sorriso discreto, desses de quem sabe exatamente o que está fazendo.
E eu segui meu caminho. Sem triplex, sem água de sal, sem dilemas internos.
Só indo pra casa, finalmente em liberdade sonora.
