Extreme prova que nem só de perfeição vive um grande show

Tem shows que a gente lembra pelo setlist. Outros, pela performance impecável da banda. E tem aqueles que se tornam memoráveis pelo que foge ao controle. Em Curitiba, o Extreme entregou esse terceiro tipo.

Quarta-feira, noite avançando, público menor do que o visto em outras cidades da turnê. No meio da pista, um “buraco” separando a premium da comum. No palco, nenhuma distância: a banda preencheu tudo, de vazios existenciais a imprevistos reais.

Antes deles, a banda da Pensilvânia, Halestorm, fez o que se espera de uma boa abertura: aqueceu o ambiente sem economizar energia. Liderada por Lzzy Hale (vocal e guitarra), ao lado de Joe Hottinger (guitarra), Josh Smith (baixo) e Arejay Hale (bateria), a banda entregou um show potente e direto. 

Lzzy segura o palco com naturalidade, voz firme, presença magnética. Já Arejay transforma qualquer solo em entretenimento, com direito às suas baquetas gigantes e um carisma que transborda. Teve distribuição de palhetas — tantas que algumas ficaram perdidas no chão (uma delas, felizmente, comigo).

Um dos pontos altos da apresentação aconteceu no trecho a capella de Like a Woman Can, que se encontrou com Crazy On You, do Heart. Nesse momento, Lzzy mostrou sua voz pura, sem efeito, sem artifício.

Sem contar que, como forma de homenagear Curitiba, os integrantes surgiram com capivaras de pelúcia. Josh tocou com o bichinho pendurado no baixo.  

Capivara no baixo.

Extreme com entrega total

Depois de passar pelo Monsters of Rock e por Porto Alegre, o Extreme escolheu Curitiba para encerrar a turnê brasileira. E entrou em cena com a confiança de quem sabe exatamente o que tem nas mãos.

Gary Cherone (vocal), Nuno Bettencourt (guitarra), Pat Badger (baixo) e Kevin Figueiredo (bateria) conduziram um repertório que atravessa gerações, incluindo clássicos do Pornograffitti (1990), responsável por eternizar More Than Words e Hole Hearted na memória de quem viveu os anos 90 da MTV. Ao vivo, essa memória ganhou corpo e coro em uníssono.

Nuno Bettencourt: técnica, carisma e perfeccionismo

Nuno Bettencourt é, ainda hoje, um dos grandes guitarristas em atividade. Virtuoso sem soar exibicionista, técnico sem perder emoção. Seus riffs e solos têm intenção e presença. Não à toa, aparece em listas dos melhores guitarristas de todos os tempos. E, mesmo tendo transitado por outros universos (sim, Rihanna incluída), é no palco com o Extreme que ele parece mais inteiro.

Dias antes dos shows no Brasil, Nuno chegou a preocupar fãs ao publicar um vídeo em que aparecia filtrando o sangue, o que remete imediatamente à “lenda” da transfusão sanguínea de Keith Richards. 

“Vampire life…the struggle is real”, disse ele.

E respondeu aos fãs afirmando: “eu não estou doente. É voluntário. Medicina preventiva”, tentando tranquilizar quem especulava sobre sua saúde. Em Curitiba, com os cabelos menos volumosos, mas com energia intacta, Nuno mostrou que a guitarra segue sendo uma extensão do próprio corpo.

Virtuosismo puro.

Os “technical bumps” que mudaram o roteiro

Perfeccionista, Nuno começou a se incomodar com as falhas técnicas que surgiam insistentes. Nada que derrubasse o show, mas o suficiente para tirá-lo do automático. E foi nesse espaço que a noite ganhou outra dinâmica.

Entre uma música e outra, ele sumia atrás das caixas de som com o técnico, ajustava, testava, voltava. Em alguns momentos, a microfonia arrancava um olhar mais sério. Mas bastava uma interação para reequilibrar o clima.

Numa das pausas mais longas, Gary segurou a frente com leveza, puxando o público, repetindo perguntas e brincando: “Quem já viu a banda? Quem está vendo pela primeira vez?”. E, ao ouvir as respostas, soltava um “então você é velho, velho, velho”, arrancando risadas.

Enquanto o guitarrista tentava resolver os ajustes, a plateia também entrava no jogo. Um fã, ao meu lado, começou a gritar aleatoriamente “Capão da Imbuia”, que é um bairro de Curitiba. Gary olhou, claramente sem entender, e seguiu. Mais um momento que só faria sentido ali.

Em outro ponto, uma fã gritou para Nuno “open your eyes”. Ele respondeu em seu português açoriano: “Poxa, você tem uma única chance na vida de me perguntar algo, e pergunta isso?”. Ela, sem saber muito o que fazer, respondeu com um coração tímido com as mãos. Ele riu, soltou um “tô brincando” e fez um gesto abrindo os olhos com os dedos.

Até que, em meio a mais um ajuste no violão, veio a frase que mudou o tom da noite: 

“40 anos de carreira… e esta é a primeira vez que passo por isso.” 

Não soou como reclamação. Soou como surpresa genuína. E, de certa forma, foi ali que o show se definiu.

Quando a conexão fala mais alto

Extreme não precisava provar nada para ninguém. Já não importava mais a perfeição técnica. O que estava em jogo era outra coisa: presença, entrega, conexão.

More than Words em Curitiba.

Conexão que atingiu seu extremo quando as duas cadeiras foram colocadas no centro do palco, uma ao lado da outra. Numa tentativa de “enganar” o público, os dois começaram a tocar Stairway to Heaven. Mas, metaforicamente, soou com uma perfeita intro para levar os fãs ao paraíso. E, então, emendaram na introdução de More Than Words. Gary deu voz ao público e seguiu cantando a balada, com direito a um sorrisinho maroto para Nuno, depois do primeiro verso. 

Ao longo de quase duas horas, clássicos como Decadence Dance, Play With Me (com intro de We Will Rock You), Hole Hearted (com Crazy Little Thing Called Love) e Get the Funk Out tomaram conta da noite.

Depois da pausa por causa de “a few technical bumps” (como se referiu Nuno no seu instagram), veio o potencial novo hit OTHER SIDE OF THE RAINBOW, do disco mais recente, com seu refrão delicioso, sobre “dar mais uma chance ao amor”. 

No fim, Curitiba pode não ter sido a noite mais redonda da turnê, mas foi uma das mais honestas. E, no hard rock, isso pesa mais do que puro virtuosismo.

A primeira vez de Bryan Adams em Curitiba

Toda primeira vez carrega um tipo especial de memória. Há expectativa, um certo nervosismo no ar e aquela sensação quase elétrica de que algo importante está prestes a acontecer. Por isso tantas histórias de amor — e tantos grandes shows — começam exatamente assim.

Curitiba finalmente viveu a sua primeira vez com Bryan Adams.

Depois de mais de quatro décadas de carreira, o cantor canadense pisou na capital paranaense, no dia 09 de março (justamente quando o clássico Heaven batia um milhão de plays no Spotify), com a turnê Roll With The Punches, e encontrou uma Live Curitiba completamente lotada, reunindo fãs de diferentes gerações para ouvir seus hits memoráveis e algumas das baladas mais românticas do rock.

Nem tudo, porém, começou em tom de romance

A entrada no local foi marcada por certa desorganização: muita gente parecia não saber exatamente qual setor deveria acessar, e a comunicação na chegada deixou parte do público confusa (inclusive jornalistas). Soma-se a isso o valor dos ingressos — que na plateia VIP ultrapassavam os dois mil reais com taxas adicionais pouco discretas — e o contraste entre experiência musical e custo da noite inevitavelmente se impõe.

Cinco minutos antes do horário marcado, o B-stage (ou palco B) era montado às pressas justamente nessa área VIP. Enquanto isso, ao fundo da pista, uma multidão se espremia tentando garantir qualquer ângulo possível do espetáculo. É o tipo de contraste que os grandes shows inevitavelmente produzem: proximidade absoluta para alguns, esforço quase acrobático para outros.

Então Bryan Adams surgiu pela plateia.

Cercado por um rigoroso esquema de segurança, o cantor atravessou o público em direção ao palco improvisado, criando um daqueles momentos que percorrem a multidão como uma corrente elétrica. Em poucos segundos, a estreia de Curitiba já começava com um gesto de proximidade.

O que veio depois foi uma demonstração rara de consistência artística.

Em tempos de correções digitais, bases pré-gravadas e vozes filtradas por camadas de tecnologia, Adams segue apostando naquilo que sempre definiu sua carreira: voz, guitarra, muitos violões e canções.

A voz, aliás, permanece praticamente intacta.

Com impressionante controle vocal, ele atravessa o repertório com a mesma assinatura rouca e potente que marcou seus discos desde os anos 1980. Durante quase todo o show, mal se vê o cantor recorrer a um gole de água. As músicas se sucedem em sequência quase ininterrupta, emendadas com naturalidade por quem domina o próprio repertório como extensão da própria respiração.

Bastidores e improvisos

Ao seu lado, a banda funciona como uma engrenagem precisa — e com uma história curiosa digna de bastidores de turnê. O guitarrista Luke Doucet foi chamado às pressas para substituir Keith Scott e integrar a banda ao lado de Gary Breit (teclados) e Pat Steward (bateria) depois de receber uma mensagem direta e quase improvável:

“Hey… você consegue aprender 26 músicas em três dias?”

Levando em conta certas adaptações, o guitarrista conseguiu entregar à altura. 

O baterista Pat Steward também protagonizou um dos momentos mais divertidos da noite. Antes de Make Up Your Mind, Bryan prometeu ao público que ali viria “o melhor solo de bateria que vocês verão na vida”. 

A simpatia de Adams com o público também se revelou em pequenos gestos.

Em certo momento, antes de uma das músicas, pediu que a plateia não risse quando aparecesse no telão um clipe antigo em que ele surgia com aquele corte de cabelo rebelde do início de carreira.

Celulares e um pequeno “punch”

Logo na segunda música, Straight From the Heart, no B-stage, veio um pequeno episódio que resume bem a relação contemporânea entre público e palco. Uma fã empolgada aproximou o celular demais do rosto do cantor para registrar a cena. Adams respondeu com um gesto rápido, baixando o aparelho com um leve “punch” de mão — nada agressivo, apenas o suficiente para recuperar seu espaço.

O momento teve algo de simbólico.

As canções de Bryan Adams nasceram em um mundo muito diferente do atual: a era das fitas K7, dos LPs, das fichas de orelhão, das dedicatórias gravadas em mixtapes. Um tempo em que as pessoas iam aos shows para viver a experiência, não para filmá-la.

Um repertório que atravessa gerações

Clássicos como When You’re Gone, Back to you, Run to You, Please Forgive Me e 18 Til I Die foram cantados em coro por uma plateia que parecia saber cada verso de memória. Heaven, em um arranjo mais ritmado para violão, ganhou uma nova textura ao vivo, surpreendentemente fresca para uma música que já atravessou gerações, embora alguns fãs tenham sentido falta do piano da versão original.

Um dos momentos mais hipnotizantes da noite aconteceu quando Adams assumiu o violão para interpretar Everything I Do (I Do It for You), do filme  Robin Hood: o Príncipe dos Ladrões, de 1991. Diferente de outras apresentações da turnê, ele permaneceu praticamente imóvel no palco. 

Foi um daqueles raros momentos de epifania coletiva em que milhares de pessoas parecem compartilhar a mesma emoção ao mesmo tempo. 

Outro instante curioso e inesperadamente fofo aconteceu durante Have You Ever Really Loved a Woman, gravada para o filme Don Juan DeMarco, de 1995. No meio de um verso, Adams simplesmente deu um espirro e continuou cantando na maior naturalidade, sem perder o ritmo da música.

Já o clímax veio com Summer of ‘69, com a plateia indo ao delírio (e os telões mostravam tudo).

O que faltou em Curitiba

Alguns elementos visuais da turnê não apareceram em Curitiba.
Em outras cidades, enormes infláveis — uma luva de boxe gigante em Roll With the Punches e um carro em So Happy It Hurts — voam sobre o público. Na Live, provavelmente pelas dimensões da casa, esses momentos ficaram de fora.

O que apenas reforça uma impressão que muitos fãs compartilharam ao sair do show: Curitiba ainda carece de uma casa de espetáculos realmente à altura de produções internacionais desse porte.

Também ficaram de fora do repertório duas músicas que costumam aparecer em outras datas da turnê: o cover de Twist and Shout e Let’s Make a Night to Remember, normalmente cantada no B-stage.

Ainda assim, foi uma noite memorável.

Para sempre jovem

Bryan Adams sempre foi, antes de qualquer rótulo, um contador de histórias sobre amor, juventude e memória. Parte dessa sensibilidade vem de sua própria trajetória. Filho de diplomata, passou parte da juventude em Portugal — anos que ele próprio descreve como alguns dos mais felizes de sua vida.

Por isso, existe algo de familiar quando ele volta a países de língua portuguesa. No Brasil, a proximidade da língua cria uma ponte natural entre palco e plateia.

Em determinado momento do show, ele mesmo brincou com isso e perguntou para alguém da plateia se estava “tudo bem”. Sim, está tudo bem. 

E quando foi se apresentar disse que aqui ele é “Bryanadams”, tudo junto, como se fosse uma palavra só.

E, de certa forma, é mesmo. Uma identidade inseparável de suas músicas, de sua voz e daquela energia que insiste em permanecer jovem. Quando falou sobre 18 Til I Die, deixou escapar uma verdade que resume bem sua relação com o tempo: a idade pode avançar, mas o espírito permanece aquele de 18 anos, idade das descobertas.

Para alívio de seus fãs, Bryan parece realmente decidido a permanecer com 18 anos.

O romântico incorrigível

Além da música, o artista também construiu uma carreira respeitada como fotógrafo profissional, tendo retratado artistas, modelos e personalidades do mundo inteiro. Talvez por isso exista algo quase cinematográfico na maneira como conduz um show: cada momento parece cuidadosamente enquadrado, como se soubesse exatamente qual imagem deseja deixar na memória do público.

E a imagem que ficou em Curitiba foi a de um artista generoso no palco.

Em determinado momento, ele brincou com a plateia perguntando se estava falando rápido demais. A resposta veio em coro: não.

Mesmo quando acelera uma balada como Heaven, Adams ainda carrega algo raro no mundo contemporâneo: o romantismo sem pressa.

Ao longo da carreira, ele acabou se tornando algo próximo de um arquétipo do romântico moderno — aquele que reúne as qualidades que tantas mulheres aprenderam a sonhar nas canções: intensidade, lealdade emocional e a coragem quase fora de moda de declarar sentimentos.

O verão de 26

Num tempo de vozes afinadas por algoritmos e performances coreografadas ao milímetro, o canadense segue fiel ao estilo que construiu sua carreira: romântico, roqueiro e sem artifícios.

Aquele romantismo de guitarras abertas, versos diretos e promessas cantadas sem ironia, como quando sustenta, com absoluta convicção, o verso “take my life”. E todo mundo se arrepia.

Recentemente, ele também demonstrou outra forma de independência artística ao lançar sua própria gravadora, a Bad Records, um gesto de liberdade criativa que combina bem com a energia de quem, aos 66 anos, ainda sobe ao palco como se estivesse começando.

No último show no Brasil, apareceu inclusive com os cabelos soltos. Talvez um detalhe trivial, ou um pequeno símbolo dessa mesma liberdade.

Se Summer of ’69 eternizou um verão de juventude, Curitiba agora pode reivindicar o seu próprio capítulo nessa história.

O verão de 26.

PS: Agora só falta inventar uma nova posição.🤭

SETLIST

1. Can’t Stop This Thing We Started (acústica, B-stage)

2. Straight From the Heart (acústica, B-stage)

4. Kick Ass

5. Run to You

6. Somebody

7. Roll With the Punches

8. Do I Have to Say the Words?

9. 18 til I Die

10. Please Forgive Me

11. It’s Only Love

12. Shine a Light

13. Heaven

14. Never Ever Let You Go (parcial)

15. This Time

16. Heat of the Night

17. Make Up Your Mind

18. You Belong to Me 

20. Have You Ever Really Loved a Woman?

21. When You Love Someone

22. So Happy It Hurts

23. Here I Am (acústica, com Gary Breit no piano)

24. When You’re Gone (acústica, com Bryan sozinho)

25. The Only Thing That Looks Good on Me Is You

26. (Everything I Do) I Do It for You

27. Back to You

28. Summer of ’69

29. Cuts Like a Knife

30. All for Love (acústica solo)

Quanto vale aquecer os corações? Sixpence None the Richer

Dona de hits que embalaram os anos 90, banda se apresentou no Tork.

Foi como entrar numa máquina do tempo com destino marcado: os anos 90. Em pleno 13 de junho, noite fria de Curitiba, logo após o Dia dos Namorados e bem no dia de Santo Antônio (que dispensa apresentações), a trilha sonora parecia pensada sob medida para o calendário e para os corações. 

Kiss Me, o maior hit da banda americana Sixpence None the Richer, soou como uma prece suave no Tork n’ Roll, local que abrigou o show após a mudança do Teatro Bom Jesus. A troca, curiosamente, não soou deslocada: embora o teatro fizesse eco com as origens gospel do grupo (afinal, o nome da banda vem de um trecho do autor irlandês C. S. Lewis), o novo local trouxe a proximidade crua e quente de um palco pequeno, onde a acústica abraça e a plateia se torna quase cúmplice.

O público, infelizmente, foi pequeno. E isso doeu um pouco no coração. Porque ali, diante de uma banda tão afinada e generosa, a sensação era de estar diante de um daqueles momentos que mereciam plateia cheia, aplausos longos, coros afinados. Ainda assim, quem foi, foi por amor. E bastava olhar ao redor: camisetas da banda, olhares marejados, vozes que sabiam cada verso de cor, como se cada pessoa ali tivesse feito um pacto com a própria adolescência.

Leigh Nash entrou toda de branco, como se fosse uma noiva alternativa (com sua bota dourada). Sua voz delicada e presença cativante conduziu o show com graça. Sorriu, agradeceu, conversou com a plateia, lembrou que estavam em turnê pelo Brasil e parecia feliz de verdade por estar ali. A acústica do Tork favoreceu o clima intimista do show.

Além dos próprios sucessos, o Sixpence é conhecido por transformar covers em verdadeiros clássicos E não é exagero dizer que, muitas vezes, suas versões soam até melhores que as originais. Em Curitiba, presentearam o público com interpretações sensíveis de Don’t Dream It’s Over (Crowded House) e mágicas como There She Goes (The La’s), que foi tema do comercial do shampoo Organics, da Unilever. Alguém aí se lembra? 

Ah, é claro, a composição mais famosa da banda, Kiss Me, escrita por Matt Slocum (guitarrista e principal compositor da banda) deixou a plateia nas nuvens. A canção foi lançada em 1998 e se tornou o maior sucesso comercial do grupo, eternizada por sua inclusão em filmes e séries como Ela é Demais (She’s All That) e Dawson’s Creek. Logo na introdução, era possível ver os emojis imaginários de coração disparando das cabeças dos presentes. 

Por isso, quando soube que a banda viria para o Brasil, foi inevitável pensar: “eu vou”. E fui. E me senti transportada para uma época em que tudo era mais simples, ou pelo menos parecia ser. Talvez o maior poder da música esteja aí: em nos permitir visitar o passado sem precisar sair do lugar. 

O setlist foi praticamente impecável, embora um ou outro fã concordasse que I Can’t Catch You poderia muito bem ter substituído a natalina River, de Joni Mitchell, uma das faixas do álbum The Dawn of Grace, de 2024. Mas são detalhes pequenos, incapazes de comprometer o que foi, no todo, um reencontro precioso. Sim, porque teve doçura e introspecção em Melody of You e Julia. E o gran finale com a irresistível Breathe your name. 

No fim das contas, a cidade pode até não ter comparecido em peso, mas quem esteve lá saiu com o coração mais cheio. Assim que a banda se despediu e as luzes do palco se apagaram, o som do Tork emendou a delicada God Only Knows, dos Beach Boys; uma homenagem a Brian Wilson, que havia falecido dois dias antes. 

E assim, aos poucos, a gente foi se despedindo dos anos 90. Enquanto uma fila tímida se formava com fãs esperando a chance de entrar no camarim, outra crescia na frente do Tork com uma galera ansiosa para curtir uma festa geek.

Antes disso, os músicos do Sixpence voltaram ao palco discretamente para desmontar seus instrumentos, como se aquele fosse apenas mais um dia comum de turnê. Mas, para quem esteve ali, não foi só isso: foi memória viva, feita de som e sentimento. 

Setlist:

Angeltread

Within a Room Somewhere

Thread the Needle

Don’t Dream It’s Over (Crowded House cover)

The Tide

Rosemary Hill

Midnight Sun (The Choir cover)

Don’t Let Me Die in Dallas (Leigh Nash song)

River (Joni Mitchell cover)

Melody of You

Homeland

Down and Out of Time

Julia

There She Goes (The La’s cover)

Kiss Me

We Are Love

Encore:

A Million Parachutes

Breathe Your Name

* Em breve, esta resenha será publicada no blog Mondo Bacana.

Nem a pandemia ensinou empatia

A gente achava (ou queria acreditar) que, depois de uma pandemia global, alguma coisa mudaria nas pessoas. 

Que o medo da perda, do isolamento, da finitude, nos deixaria mais atentos uns aos outros. Que a dor compartilhada amoleceria corações, abriria ouvidos, ensinaria a cuidar.

Mas não. Passou o caos, e muita gente continuou exatamente igual. Ou pior.

Há quase dois meses, cada dia começa com incerteza e termina com cansaço. E, mesmo assim, tem gente ao meu redor que parece viver em outra frequência. Uma frequência em que a empatia é luxo, e tudo o que importa é o que você entrega.

Gente que mal pergunta se está tudo bem (é claro que não está!), mas cobra. Cobra prazos, respostas, disposição. Cobra como se nada estivesse acontecendo.

Vivemos num mundo ansioso, acelerado, onde sentir virou quase um atraso. Não há tempo pra pausas, pra escutar, pra acolher. Só importa o desempenho, o resultado, o “segue o baile”. E se você para ou diminui o ritmo (ainda que por um motivo profundamente humano) é tratado como um obstáculo, um problema, um ruído.

E aí a gente se pergunta: de que adiantou tudo aquilo? O medo, a saudade, os boletins médicos, as orações em rede, o “vai passar” colado na janela? Parece que passou, mas junto passou também qualquer rastro de sensibilidade que podia ter nascido dali.

Algumas pessoas simplesmente não querem saber. E talvez nunca queiram. Só querem que você entregue, entregue e entregue.

Mas aqui, pelo caminho, sigo acreditando que sentir ainda é resistência. E que se há algo a ser feito, é continuar sendo humano, mesmo quando o mundo insiste em deixar de ser.