Meu peito esquerdo

Quando passei a questionar o sentido da minha vida – mesmo que esse sentido estivesse dormindo no quarto ao lado – as luzes começaram a piscar como se quisessem alertar: hey, tem algo errado aí!

Esses sinais, acredite ou não, foram o caminho para a descoberta do propósito de minha existência: permanecer viva. As piscadelas conduziram minha mão até o lugar onde habitava aquilo que me comia por dentro.

Espera aí. Eu tô sentido direito? 

Fui apalpando e encontrando, e apalpando e encontrando e… por mais que procurassem me tranquilizar, me acalmar, dizendo “já passei por isso”, eu tinha plena convicção da natureza epistemológica daquele tumor invasor. Assim como sempre soube que meu filho seria do sexo masculino. Conheço meu corpo. 

No primeiro dia, a culpa veio me assombrar. Culpei a fritura. Culpei ter fritado meu cérebro. No segundo dia, a raiva. E todo dia, o medo constante de morrer. Por que eu? Ora, bolas… por que minha mãe também? Por que a prima de uma amiga que é mãe de trigêmeos? Por que as mães de outras amigas? Por que 60 mil mulheres por ano no Brasil em 2020? Mamma mia!

Aprendi na marra que me vitimizar é feio. Aprendi na marra que o sentido da vida é continuar viva para poder abraçar meu filho o dobro de vezes, já que a pandemia ainda me impede de abraçar o mundo inteiro.

No fim, me senti abraçada por todos os gestos carinhosos de pessoas queridas da família, amigos ou até mesmo estranhos que se preocupam mais contigo do que seu vizinho de porta.

Pensei que demoraria dias pra me encarar no espelho. Agora entendo as vantagens de ter seio pequeno. Esse peito esquerdo de bico invertido que jorrava leite e foi mordido pela cria. Assim é bem mais fácil enfrentar a trombada que levei. Que me mutilou. O importante é que o recheio pode ser substituído. Graças à técnica, à tecnologia. Graças a quem veste branco.

O mesmo bico invertido está lá. A diferença é que eu não sinto nada. Socorro!

Espera… isso não é nada. E ao mesmo tempo tudo. Esse recheio também invasor que parece uma armadura, uma concha de feijão, expande a pele, eleva a mente e revela a verdade sobre a minha natureza. Em breve, estarei pronta para peitar todo mundo!

O invasor

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