Escova fast, identidade slow: por que alisamos o cabelo?

Depois do boom das farmácias, agora são os salões de beleza que tomaram conta da cidade. Tem um em cada esquina. Alisar virou quase regra. Mas só isso não basta. Tem que ser rápido. Escova fast. Resultado imediato.

Só na região onde eu moro, contei três deles.

Bem, eu nasci com cabelo liso. Tão liso que até o shampoo escorrega. Mas sempre tive uma queda pelos cacheados. Aquele cabelinho de anjo, sabe?

Quando eu tinha uns 12 anos, talvez influenciada pela minha mãe — que vivia fazendo permanente — fui ao salão pra enrolar o meu. E o cabeleireiro me enrolou. Durou um tempo.

Hoje, gosto de cabelo curto, chanel. Já faz anos que corto desse jeito. Não é modinha. Outro dia, até o meu cabeleireiro sugeriu uma escova definitiva: “Você acorda pronta, tudo no lugar”. Pode até ser. Mas eu gosto do jeito que meu cabelo acorda. Ou melhor: do jeito que eu acordo com ele.

Também já fui fã de frisar o cabelo, seguindo a vibe dos anos 90. Minha avó fazia trancinhas em tudo, depois soltava e… pronto, frisado perfeito.

Sempre fui fascinada por black power. Talvez por amar soul music. Ao mesmo tempo, cresci vendo o exagero do hair metal, de Bon Jovi e companhia, com aqueles cabelos enormes. Cada época com sua estética, suas referências, suas “regras”. E, de algum jeito, todo mundo convivia com isso.

Mas, olhando essa proliferação de escovas fast, eu comecei a me perguntar: de onde vem essa vontade de alisar o cabelo? De fazer uma progressiva e simplesmente não acordar com o cabelo que você tem?

A pergunta não é só estética. É também cultural, histórica e, muitas vezes, emocional.

Durante muito tempo, o cabelo liso foi vendido como sinônimo de praticidade, beleza e até “aceitação social”. Não à toa, a indústria da beleza cresceu em cima dessa promessa. Um levantamento da L’Oréal aponta que quem alisa o cabelo convive com uma rotina constante de manutenção, entre retoques, cuidados e expectativas de resultado. Quase como um compromisso permanente com uma versão ideal de si mesma.

Do ponto de vista psicológico, o ato de alisar pode ir além da praticidade. Em alguns casos, está ligado ao desejo de controle, de pertencimento ou até de adequação a padrões que foram naturalizados ao longo do tempo. Não é regra, mas é uma camada que existe.

E, quando a gente olha para mulheres que têm cabelos, digamos, mais volumosos e “rebeldes”, essa conversa ganha ainda mais profundidade. O alisamento, muitas vezes, atravessa questões de identidade, pressão social e história. Nos últimos anos, o movimento de valorização do cabelo natural trouxe à tona um resgate importante: o de reconhecer beleza onde antes só havia imposição.

Talvez por isso essa não seja uma discussão simples.

Eu mesma não sei dizer o que faria se tivesse nascido com outro tipo de cabelo. Se alisaria, se deixaria natural, se mudaria o tempo todo. A verdade é que a gente não decide só com base no gosto, mas com base em tudo o que viveu, viu e aprendeu.

Difícil mesmo é a gente se aceitar como é.

Mas também é curioso perceber quantas versões de nós mesmas cabem ao longo do tempo. Tipo a música do Jorge Ben Jor.

A questão vai muito além de “alisar ou não”. E, sim, sobre o quanto a gente consegue (ou não!) se reconhecer no espelho, do jeito que acorda. Deixar o cabelo enrolado, liso, branco acontecer naturalmente.

O Brasil que a gente não aprende na escola

Todo 22 de abril surge a voz de Renato Russo me convidando a celebrar a estupidez humana. E como a estupidez evolui a cada ano.

Mas, pra entender por que O Descobrimento do Brasil soa tão atual, vale lembrar rapidamente o momento em que ele nasceu.

O Brasil dos anos 90 ainda tentava se reorganizar depois da ditadura, em meio a crises e promessas frustradas. O governo de Fernando Collor de Mello e o confisco da poupança escancararam essa instabilidade, e ajudaram a moldar o sentimento de uma geração.

É num cenário pós-impeachment (uma especialidade nacional que dispensa apresentações), que a Legião Urbana lança um disco que não grita, mas expõe.

Acho curioso que o dia 22 de abril sempre vem logo depois de um respiro: o dia 21, Dia de Tiradentes. Primeiro o sacrifício, depois o tal “descobrimento”. Duas ideias pesadas demais pra caber em versões simples.

Por isso faz ainda mais sentido dizer, sem muito rodeio, que o Brasil não foi descoberto. Foi invadido. O resto é narrativa que a gente aprendeu a repetir.

Lembro como se fosse hoje: Perfeição tocando como fundo de um trabalho da disciplina de Rádio na faculdade. Desde então, essa música nunca mais me deixou. E todo santo dia 22 de abril ela volta a tocar, quase como um ritual.

Tem uma coisa curiosa nesse álbum: ele não narra um país, ele atravessa um. E sempre me pareceu que cada faixa é uma tentativa de entender onde a gente tá pisando, o que, pensando bem, tem tudo a ver com essa ideia meio torta de “descobrimento”.

Perfeição talvez seja uma das maiores ironias já escritas em forma de música. Uma celebração ácida de tudo que está errado: violência, hipocrisia, caos, corrupção. É quase como olhar pro país e dizer: “é isso aqui mesmo, sem filtro”. Se existe um “descobrimento” possível, ele passa por encarar o que incomoda, não por romantizar o que aconteceu lá atrás.

Mas o disco não fica só nisso.

Na faixa-título, O Descobrimento do Brasil, o tom muda. Fica mais íntimo, quase cotidiano. Sai do macro e entra nas pequenas descobertas: relações, afetos, deslocamentos. Como se dissesse que o Brasil não é só um problema estrutural a ser resolvido, mas também um espaço onde a vida acontece, com suas contradições, seus encontros e seus silêncios.

E o ponto mais honesto está em Giz.

Aquela sensação de que tudo pode ser apagado, reescrito, reimaginado. Uma espécie de fé meio frágil, meio teimosa. Bem brasileira, aliás.

Quando junto tudo isso, o álbum deixa de ser só trilha sonora e vira quase um mapa, não geográfico, mas afetivo. Um mapa cheio de rasuras, desvios e caminhos que não levam exatamente pra onde prometeram.

Então, todo 22 de abril, enquanto muita gente revisita a história oficial, eu acabo revisitando essas músicas.

Porque elas fazem uma coisa que a versão escolar nunca conseguiu: trocam a ideia de “descobrir” pela de “entender aos poucos”.

E isso é o que ainda estamos fazendo.

Tentando descobrir o Brasil, não como quem encontra algo novo, mas como quem finalmente começa a enxergar o que sempre esteve ali.

Meio escondido, meio óbvio.
Tipo refrão que só faz sentido anos depois.

Halestorm e Extreme: rock em grande estilo

Tem shows que a gente lembra pelo setlist. Outros, pela performance impecável da banda. E tem aqueles que se tornam memoráveis pelo que foge ao controle. Em Curitiba, o Extreme entregou esse terceiro tipo.

Quarta-feira, noite avançando, público menor do que o visto em outras cidades da turnê. No meio da pista, um “buraco” separando a premium da comum. No palco, nenhuma distância: a banda preencheu tudo, de vazios existenciais a imprevistos reais.

Antes deles, a banda da Pensilvânia, Halestorm, fez o que se espera de uma boa abertura: aqueceu o ambiente sem economizar energia. Liderada por Lzzy Hale (vocal e guitarra), ao lado de Joe Hottinger (guitarra), Josh Smith (baixo) e Arejay Hale (bateria), a banda entregou um show potente e direto. 

Lzzy segura o palco com naturalidade, voz firme, presença magnética. Já Arejay transforma qualquer solo em entretenimento, com direito às suas baquetas gigantes e um carisma que transborda. Teve distribuição de palhetas — tantas que algumas ficaram perdidas no chão (uma delas, felizmente, comigo).

Um dos pontos altos da apresentação aconteceu no trecho a capella de Like a Woman Can, que se encontrou com Crazy On You, do Heart. Nesse momento, Lzzy mostrou sua voz pura, sem efeito, sem artifício.

Sem contar que, como forma de homenagear Curitiba, os integrantes surgiram com capivaras de pelúcia. Josh tocou com o bichinho pendurado no baixo.  

Capivara no baixo.

Extreme com entrega total

Depois de passar pelo Monsters of Rock e por Porto Alegre, o Extreme escolheu Curitiba para encerrar a turnê brasileira. E entrou em cena com a confiança de quem sabe exatamente o que tem nas mãos.

Gary Cherone (vocal), Nuno Bettencourt (guitarra), Pat Badger (baixo) e Kevin Figueiredo (bateria) conduziram um repertório que atravessa gerações, incluindo clássicos do Pornograffitti (1990), responsável por eternizar More Than Words e Hole Hearted na memória de quem viveu os anos 90 da MTV. Ao vivo, essa memória ganhou corpo e coro em uníssono.

Nuno Bettencourt: técnica, carisma e perfeccionismo

Nuno Bettencourt é, ainda hoje, um dos grandes guitarristas em atividade. Virtuoso sem soar exibicionista, técnico sem perder emoção. Seus riffs e solos têm intenção e presença. Não à toa, aparece em listas dos melhores guitarristas de todos os tempos. E, mesmo tendo transitado por outros universos (sim, Rihanna incluída), é no palco com o Extreme que ele parece mais inteiro.

Dias antes dos shows no Brasil, Nuno chegou a preocupar fãs ao publicar um vídeo em que aparecia filtrando o sangue, o que remete imediatamente à “lenda” da transfusão sanguínea de Keith Richards. 

“Vampire life…the struggle is real”, disse ele.

E respondeu aos fãs afirmando: “eu não estou doente. É voluntário. Medicina preventiva”, tentando tranquilizar quem especulava sobre sua saúde. Em Curitiba, com os cabelos menos volumosos, mas com energia intacta, Nuno mostrou que a guitarra segue sendo uma extensão do próprio corpo.

Virtuosismo puro.

Os “technical bumps” que mudaram o roteiro

Perfeccionista, Nuno começou a se incomodar com as falhas técnicas que surgiam insistentes. Nada que derrubasse o show, mas o suficiente para tirá-lo do automático. E foi nesse espaço que a noite ganhou outra dinâmica.

Entre uma música e outra, ele sumia atrás das caixas de som com o técnico, ajustava, testava, voltava. Em alguns momentos, a microfonia arrancava um olhar mais sério. Mas bastava uma interação para reequilibrar o clima.

Numa das pausas mais longas, Gary segurou a frente com leveza, puxando o público, repetindo perguntas e brincando: “Quem já viu a banda? Quem está vendo pela primeira vez?”. E, ao ouvir as respostas, soltava um “então você é velho, velho, velho”, arrancando risadas.

Enquanto o guitarrista tentava resolver os ajustes, a plateia também entrava no jogo. Um fã, ao meu lado, começou a gritar aleatoriamente “Capão da Imbuia”, que é um bairro de Curitiba. Gary olhou, claramente sem entender, e seguiu. Mais um momento que só faria sentido ali.

Em outro ponto, uma fã gritou para Nuno “open your eyes”. Ele respondeu em seu português açoriano: “Poxa, você tem uma única chance na vida de me perguntar algo, e pergunta isso?”. Ela, sem saber muito o que fazer, respondeu com um coração tímido com as mãos. Ele riu, soltou um “tô brincando” e fez um gesto abrindo os olhos com os dedos.

Até que, em meio a mais um ajuste no violão, veio a frase que mudou o tom da noite: 

“40 anos de carreira… e esta é a primeira vez que passo por isso.” 

Não soou como reclamação. Soou como surpresa genuína. E, de certa forma, foi ali que o show se definiu.

Quando a conexão fala mais alto

Extreme não precisava provar nada para ninguém. Já não importava mais a perfeição técnica. O que estava em jogo era outra coisa: presença, entrega, conexão.

More than Words em Curitiba.

Conexão que atingiu seu extremo quando as duas cadeiras foram colocadas no centro do palco, uma ao lado da outra. Numa tentativa de “enganar” o público, os dois começaram a tocar Stairway to Heaven. Mas, metaforicamente, soou com uma perfeita intro para levar os fãs ao paraíso. E, então, emendaram na introdução de More Than Words. Gary deu voz ao público e seguiu cantando a balada, com direito a um sorrisinho maroto para Nuno, depois do primeiro verso. 

Ao longo de quase duas horas, clássicos como Decadence Dance, Play With Me (com intro de We Will Rock You), Hole Hearted (com Crazy Little Thing Called Love) e Get the Funk Out tomaram conta da noite.

Depois da pausa por causa de “a few technical bumps” (como se referiu Nuno no seu instagram), veio o potencial novo hit OTHER SIDE OF THE RAINBOW, do disco mais recente, com seu refrão delicioso, sobre “dar mais uma chance ao amor”. 

No fim, Curitiba pode não ter sido a noite mais redonda da turnê, mas foi uma das mais honestas. E, no hard rock, isso pesa mais do que puro virtuosismo.

Um copinho de pistache

Aquele sorvete italiano da esquina não é de San Gimignano, mas dá pro gasto. Parece até que cobram em euro. Mas costumam dizer que não é pra converter, vero?

Nesse caso, o gelato vale o quanto custa. Ainda mais se compararmos com o sorvete da concorrência. A consistência segura na concha, não escorre antes da primeira lambida. E o cappuccino… aquele adaptado brasileiro, com chocolate derretido e chantilly, que faria qualquer italiano revirar os olhos. Eu adoro. Pago sem discutir.

Ali já haviam tentado de tudo: bar, cervejaria, bar, bar, outro bar. Abria, fechava. Fechava, abria. Até que fazia sentido, já que fica na esquina de uma rua gastronômica, com botecos e afins.

Mas quando abriu a sorveteria, disse na primeira vez: “agora vai”.

Sorvete tem uma vantagem competitiva difícil de bater, porque atravessa gerações sem esforço. Meu filho gosta. Meu pai gosta. Eu gosto. Já cerveja… digamos que o público-alvo seja mais reduzido.

Minha mãe gostava de sorvete. Uma amiga minha também. As duas já não estão aqui pra ler essa história. 

Na última vez que saí com essa amiga, fomos tomar sorvete de chocolate numa sorveteria, onde comprei um pote do mesmo sorvete pra minha mãe. Ela estava internada num hospital a algumas quadras dali. Foi há um ano. Abril despedaçado.

Mamãe não conseguiu comer metade do pote. Respirar ocupava todos os seus esforços. Ainda assim, no fim da vida, certos desejos não se discutem.

Talvez por isso eu não tenha hesitado quando vi o homem na porta. Não que ele estivesse com seus dias contados. Mas seu dinheiro estava (e o meu também).

Ele não entrava. Ficava ali, como um vampiro esperando autorização. Pedia um sorvete para cada pessoa que entrava na fila. E ficava no repeat.

Entramos na sorveteria. Eu disse sim pra ele. Mas, antes, precisava saber se alguém já havia comprado sorvete. Vai que ele já tinha tomado uns 10 copinhos. 

O casal na minha frente teve a mesma ideia, e foi além. Perguntou por que a sorveteria não dava um copinho pra ele.

A resposta veio pronta:

— Vai que ele passa mal. Depois sobra pra gente.

Mas a gente fez.

Chamamos o homem. Uns quarenta e poucos anos, talvez. Baixo, de chinelo, com a roupa pedindo pra ser lavada. 

Dividimos o valor do copinho.

— Qual sabor?

— Pistache.

Confesso que me pegou.

— Você tem bom gosto.

Ele sorriu. Perguntei o nome. Ele perguntou o meu.

— É o nome da minha irmã.

Pronto. Já não éramos tão estranhos.

Ele tomou o sorvete ali mesmo, em pé, com calma. Como se aquilo fosse exatamente o que precisava ser naquele momento. 

Depois foi embora.

A fila andou. Meu filho escolheu o dele. Eu pedi meu cappuccino. E ele veio do jeito que eu gosto. Fiquei olhando a xícara e pensando que cappuccino, em italiano, significa “pequeno capuz”, porque foi criado por um frade italiano. Marco d’Aviano. Beatificado pelo papa João Paulo II em 2003.

Engraçado como algumas coisas ficam: a imagem, o nome, o hábito. Na embalagem do chocolate em pó, são dois frades.

Na vida real, às vezes basta um gesto pequeno, quase silencioso, pra não deixar alguém do lado de fora.

Da sofrência à autobahn: um trajeto em dois atos.

Peguei um Uber rumo a uma pré-estreia no cinema com aquela expectativa básica de quem só quer chegar inteira, emocional e auditivamente.

Entrei, dei “boa noite”, ajeitei o cinto e, antes mesmo de fechar a porta, fui oficialmente sequestrada por um ritmo musical que, por motivos de autopreservação de reputação, não posso nomear aqui.

Mas pense num negócio insistente.

Não era música, era um looping existencial. Uma espécie de universo paralelo onde todas as letras falam sobre beber, sofrer e alguém que claramente alugou um triplex na cabeça de outro alguém. Meu olho é água de sal. Meu fígado, solidário. E eu ali, no banco de trás, tentando decidir se ria da situação ou se começava a chorar junto com a playlist.

Quando o motorista aumentou o volume, tive que abrir a janela.

Foi instintivo.

Primeiro, porque o vento podia me ajudar a respirar e dissipar a intensidade da experiência sonora. Segundo, porque eu normalmente enjoo no banco de trás — o que, diga-se de passagem, só aumenta minha admiração por astronautas. Imagina passar dias flutuando no espaço sem poder pedir pra trocar de lugar ou abrir a janela?

Isso não é ChatGPT. É a rádio 98 km/h.

O motorista? Feliz da vida. Espiava meu sofrimento pelo retrovisor. Só faltava cantar. Vivendo o melhor momento da vida dele. Sem cantadas, por favor!

Eu? Toda de preto, tendo que lutar internamente para não enojar, ops, enjoar (com o perdão do anagrama). Contemplava minhas escolhas até aquele instante: será que pedir um Uber foi um erro? Será que isso é algum tipo de prova de caráter? Será que existe um botão de “silêncio emocional”?

Não existe.

Cheguei ao evento com a sensação de ter sobrevivido a uma experiência imersiva. Tipo cinema 4D, só que o tema era “sofrência sem consentimento”.

Aí veio a volta.

Outro carro. Outro motorista. Outro plano astral.

Entrei e… silêncio. A barra tá limpa. Eu inverti o código, em vez de final 2, disse 5.

Será que estou vendo através do espelho?

Logo depois, começam os primeiros acordes. Radiohead. Fake plastic trees. Pela primeira vez, não tive vontade de chorar ao ouvir essa canção.

Depois, uma transição elegante pra Kraftwerk, como se o carro estivesse deslizando por uma Autobahn onde a música faz sentido.

Segui a trilha e, antes de descer do carro, tinha uma decisão importante a tomar: fingir normalidade ou reconhecer o que estava acontecendo ali.

Escolhi a maturidade emocional.

“Boa a trilha, hein.”

Ele respondeu com um sorriso discreto, desses de quem sabe exatamente o que está fazendo.

E eu segui meu caminho. Sem triplex, sem água de sal, sem dilemas internos.

Só indo pra casa, finalmente em liberdade sonora.

Entre o agora e o que já passou

Ella costuma dizer a ela mesma para viver no presente. Era quase um mantra que a gente repete mais como tentativa do que como certeza.

Mas depois de descobrir que o tal “presente” talvez não exista como imaginava (essa linha reta, estática, em que a vida supostamente acontece), Ella travou.

O que escorre entre os dedos não é o presente. É o agora. E o agora… minha nossa, acabou de passar.

Se tivesse a oportunidade de trocar uma ideia com Bergson, ah, ele provavelmente sorriria delicadamente. Afinal, pra ele, o tempo não é essa coisa que a gente mede no relógio pendurado na sala de jantar, dividido em pedaços iguais de pizza, organizadinhos como os talheres na gaveta, quase obedientes como nossos filhos.

O tempo vivido, o tempo real, é duração. É fluxo. É algo que se alonga, se mistura, se infiltra. Não dá pra cortar em fatias sem perder o que ele tem de mais essencial.

Ou seja, esse “presente” que Ella tenta segurar talvez seja só uma abstração confortável, ou até mesmo um jeito de organizar o caos da vida diária.

Daí, em suas pesquisas, Ella se deparou com Santo Agostinho que, muito antes, já tinha se angustiado com a mesma questão. O filósofo dizia que se ninguém me pergunta o que é o tempo, eu sei. Mas se me pedem para explicar… eu já não sei mais.

Porque o passado só existe como memória. O futuro, como expectativa. E o presente? Esse mesmo que a gente insiste em nomear? Ele seria apenas um ponto tão breve que quase não tem duração.

Quase nada.

Quase um intervalo entre dois vazios.

Então quando Ella descobre que só existe o “agora”, ela não encontra alívio. Encontra vertigem. Porque o agora não é um lugar onde se fica. É um lugar onde se cai.

E é nesse ponto que a tal da mindfulness entra, não como solução, mas como convite.

O que o filho do Berg acharia disso tudo? Talvez dissesse que há algo de bonito nessa tentativa contemporânea de voltar ao instante vivido, de prestar atenção no fluxo em vez de só medi-lo.

Mas também poderia levantar uma sobrancelha: porque transformar o agora em técnica, em método, em checklist de respiração consciente… talvez seja só mais uma forma de tentar controlar aquilo que, por natureza, escapa.

Talvez mindfulness funcione não quando promete nos fixar no presente, mas quando nos lembra que não há nada fixo para segurar.

E aí Ella começa a desconfiar que “viver o presente” nunca foi sobre parar o tempo, mas sobre sentir que ele passa. Sem ser engolida pelo que já passou. Sem tanta pressa de organizar. Sem tanta ansiedade de entender.

Só… acompanhar.

Como quem senta à beira de um rio sabendo que não dá pra entrar duas vezes na mesma água, mas, ainda assim, molha os pés.

Manifesto pelo fim do “Dito Isso”

(e quem já foi usado demais)

Eu sou o “dito isso”.

Sim, eu mesmo.

A pausa estratégica.

O respiro que parece inteligente.

A dobradiça entre uma ideia e outra que, quase sempre, nem precisava existir.

E eu estou cansado.

Cansado de entrar em frases que já sabiam onde queriam chegar.

De ser chamado pra dar importância ao que não tem. De servir como maquiagem pra pensamento raso.

Você talvez não saiba, mas eu nunca pedi esse papel.

No começo, eu até fazia sentido.

Eu ajudava a organizar. Conectava ideias com alguma elegância, ou pelo menos com intenção.

Mas aí vocês exageraram e me colocaram em todo lugar.

Me transformaram em vício e me usaram como atalho pra parecer seguro quando, na verdade, estavam só inseguros demais pra dizer “é isso”.

Daí eu fui ficando, assim, gasto.

Hoje, quando eu apareço, quase ninguém me escuta. Só reconhece.

Eu entro e as pessoas pensam: “lá vem o dito isso”.

E não porque eu trago algo novo, mas porque eu anuncio o mesmo de sempre, com um pouco mais de pose.

O fato é que eu virei um aviso de formalidade.

Um alarme de que a conversa vai perder um pouco de vida.

E olha… eu não aguento mais ser isso.

Não aguento mais interromper o fluxo de quem estava quase sendo verdadeiro.

Não aguento mais segurar frases que queriam ser simples.

Não aguento mais esse papel de dar peso artificial às coisas.

Eu não quero mais organizar o que podia ser só dito.

Quero me aposentar das reuniões longas, dos textos que têm medo de respirar, das falas que precisam parecer mais do que são.

Quero deixar vocês sem mim, sem essa transição ensaiada ou a necessidade de provar que existe lógica em tudo.

Sem esse pequeno teatro no meio da frase.

Vocês conseguem, sabia?

Conseguem falar direto e pensar em voz alta.

Conseguem até errar o caminho, e, ainda assim, chegar em algum lugar mais honesto.

Sem mim.

Então, da próxima vez que a frase pedir minha presença, que a língua quase me chame, que o hábito bata na porta, resista.

Me deixe de fora.

Não por mim.

Mas por você.

No fundo, eu só existo quando falta coragem de continuar sem apoio. E acho que já tenha passado da hora de vocês descobrirem como é falar sem precisar de mim.

Dito isso…

A reunião para alinhar o alinhamento

Se existe um esporte olímpico moderno, ele não é o breakdance.

É a reunião corporativa.

E foi numa dessas modalidades de alta performance que três criaturas do mundo empresarial se encontraram, numa terça-feira cinzenta o suficiente para justificar qualquer falta de entusiasmo.

Carla, a líder que fala com a tranquilidade de quem não vai executar nada, inicia a chamada:

— Gente, obrigada por sincronizarem as agendas. Acho importante a gente alinhar a visão macro antes de seguir com o roadmap.

Rafa, o analista já emocionalmente vencido, suspira tão alto que a câmera treme:

— Claro, Carla. Só acho que precisamos mapear os pontos abertos. Porque, com todo respeito, o escopo virou um Pokémon: toda hora evolui sem aviso.

Bruno, o estagiário que descobriu ontem que almoço não é opcional, tenta contribuir:

— Então… dito isso… talvez seja bom trazer pra mesa o que é prioridade. Porque, sinceramente, tudo parece prioridade. Inclusive beber água.

Carla sorri como quem acabou de ver um KPI nascer:

— Excelente, Bruno. Essa sua visão é muito madura. Mas percebi um pequeno gap de performance no último sprint, tá? Nada grave. Só que precisamos ajustar expectativas.

Rafa fecha os olhos como quem reza:

— O gap surgiu porque o escopo mudou três vezes desde o último kick off, Carla.

— Então, Rafa — responde Carla, com aquele tom zen artificial — é por isso que precisamos elevar a régua. Mudança é constante. A gente se adapta. É o nosso DNA.

Bruno anota “comprar vitaminas” no bloco de notas.

Carla prossegue:

— Aliás, vamos fazer um novo kick off amanhã. O de ontem não entregou o que eu esperava.

Rafa ergue uma sobrancelha com a energia de quem já desistiu:

— Mais um? A gente vai dar início ao início do início até quando?— Até estarmos todos alinhados, Rafa! — diz Carla, empolgada demais para quem acabou de destruir a alma de dois funcionários.

— Amanhã às 7h, então? — pergunta Bruno, com esperança de que seja brincadeira.

— Claro! Quanto mais cedo, mais produtivo o dia.

E antes que eu esqueça… vou marcar outra reunião para aprofundar o que ficou pendente hoje.

A reunião termina.

Ninguém está mais sábio.

Mas todos estão, agora, oficialmente alinhados.

Ou pelo menos fingindo.

A primeira vez de Bryan Adams em Curitiba

Toda primeira vez carrega um tipo especial de memória. Há expectativa, um certo nervosismo no ar e aquela sensação quase elétrica de que algo importante está prestes a acontecer. Por isso tantas histórias de amor — e tantos grandes shows — começam exatamente assim.

Curitiba finalmente viveu a sua primeira vez com Bryan Adams.

Depois de mais de quatro décadas de carreira, o cantor canadense pisou na capital paranaense, no dia 09 de março (justamente quando o clássico Heaven batia um milhão de plays no Spotify), com a turnê Roll With The Punches, e encontrou uma Live Curitiba completamente lotada, reunindo fãs de diferentes gerações para ouvir seus hits memoráveis e algumas das baladas mais românticas do rock.

Nem tudo, porém, começou em tom de romance

A entrada no local foi marcada por certa desorganização: muita gente parecia não saber exatamente qual setor deveria acessar, e a comunicação na chegada deixou parte do público confusa (inclusive jornalistas). Soma-se a isso o valor dos ingressos — que na plateia VIP ultrapassavam os dois mil reais com taxas adicionais pouco discretas — e o contraste entre experiência musical e custo da noite inevitavelmente se impõe.

Cinco minutos antes do horário marcado, o B-stage (ou palco B) era montado às pressas justamente nessa área VIP. Enquanto isso, ao fundo da pista, uma multidão se espremia tentando garantir qualquer ângulo possível do espetáculo. É o tipo de contraste que os grandes shows inevitavelmente produzem: proximidade absoluta para alguns, esforço quase acrobático para outros.

Então Bryan Adams surgiu pela plateia.

Cercado por um rigoroso esquema de segurança, o cantor atravessou o público em direção ao palco improvisado, criando um daqueles momentos que percorrem a multidão como uma corrente elétrica. Em poucos segundos, a estreia de Curitiba já começava com um gesto de proximidade.

O que veio depois foi uma demonstração rara de consistência artística.

Em tempos de correções digitais, bases pré-gravadas e vozes filtradas por camadas de tecnologia, Adams segue apostando naquilo que sempre definiu sua carreira: voz, guitarra, muitos violões e canções.

A voz, aliás, permanece praticamente intacta.

Com impressionante controle vocal, ele atravessa o repertório com a mesma assinatura rouca e potente que marcou seus discos desde os anos 1980. Durante quase todo o show, mal se vê o cantor recorrer a um gole de água. As músicas se sucedem em sequência quase ininterrupta, emendadas com naturalidade por quem domina o próprio repertório como extensão da própria respiração.

Bastidores e improvisos

Ao seu lado, a banda funciona como uma engrenagem precisa — e com uma história curiosa digna de bastidores de turnê. O guitarrista Luke Doucet foi chamado às pressas para substituir Keith Scott e integrar a banda ao lado de Gary Breit (teclados) e Pat Steward (bateria) depois de receber uma mensagem direta e quase improvável:

“Hey… você consegue aprender 26 músicas em três dias?”

Levando em conta certas adaptações, o guitarrista conseguiu entregar à altura. 

O baterista Pat Steward também protagonizou um dos momentos mais divertidos da noite. Antes de Make Up Your Mind, Bryan prometeu ao público que ali viria “o melhor solo de bateria que vocês verão na vida”. 

A simpatia de Adams com o público também se revelou em pequenos gestos.

Em certo momento, antes de uma das músicas, pediu que a plateia não risse quando aparecesse no telão um clipe antigo em que ele surgia com aquele corte de cabelo rebelde do início de carreira.

Celulares e um pequeno “punch”

Logo na segunda música, Straight From the Heart, no B-stage, veio um pequeno episódio que resume bem a relação contemporânea entre público e palco. Uma fã empolgada aproximou o celular demais do rosto do cantor para registrar a cena. Adams respondeu com um gesto rápido, baixando o aparelho com um leve “punch” de mão — nada agressivo, apenas o suficiente para recuperar seu espaço.

O momento teve algo de simbólico.

As canções de Bryan Adams nasceram em um mundo muito diferente do atual: a era das fitas K7, dos LPs, das fichas de orelhão, das dedicatórias gravadas em mixtapes. Um tempo em que as pessoas iam aos shows para viver a experiência, não para filmá-la.

Um repertório que atravessa gerações

Clássicos como When You’re Gone, Back to you, Run to You, Please Forgive Me e 18 Til I Die foram cantados em coro por uma plateia que parecia saber cada verso de memória. Heaven, em um arranjo mais ritmado para violão, ganhou uma nova textura ao vivo, surpreendentemente fresca para uma música que já atravessou gerações, embora alguns fãs tenham sentido falta do piano da versão original.

Um dos momentos mais hipnotizantes da noite aconteceu quando Adams assumiu o violão para interpretar Everything I Do (I Do It for You), do filme  Robin Hood: o Príncipe dos Ladrões, de 1991. Diferente de outras apresentações da turnê, ele permaneceu praticamente imóvel no palco. 

Foi um daqueles raros momentos de epifania coletiva em que milhares de pessoas parecem compartilhar a mesma emoção ao mesmo tempo. 

Outro instante curioso e inesperadamente fofo aconteceu durante Have You Ever Really Loved a Woman, gravada para o filme Don Juan DeMarco, de 1995. No meio de um verso, Adams simplesmente deu um espirro e continuou cantando na maior naturalidade, sem perder o ritmo da música.

Já o clímax veio com Summer of ‘69, com a plateia indo ao delírio (e os telões mostravam tudo).

O que faltou em Curitiba

Alguns elementos visuais da turnê não apareceram em Curitiba.
Em outras cidades, enormes infláveis — uma luva de boxe gigante em Roll With the Punches e um carro em So Happy It Hurts — voam sobre o público. Na Live, provavelmente pelas dimensões da casa, esses momentos ficaram de fora.

O que apenas reforça uma impressão que muitos fãs compartilharam ao sair do show: Curitiba ainda carece de uma casa de espetáculos realmente à altura de produções internacionais desse porte.

Também ficaram de fora do repertório duas músicas que costumam aparecer em outras datas da turnê: o cover de Twist and Shout e Let’s Make a Night to Remember, normalmente cantada no B-stage.

Ainda assim, foi uma noite memorável.

Para sempre jovem

Bryan Adams sempre foi, antes de qualquer rótulo, um contador de histórias sobre amor, juventude e memória. Parte dessa sensibilidade vem de sua própria trajetória. Filho de diplomata, passou parte da juventude em Portugal — anos que ele próprio descreve como alguns dos mais felizes de sua vida.

Por isso, existe algo de familiar quando ele volta a países de língua portuguesa. No Brasil, a proximidade da língua cria uma ponte natural entre palco e plateia.

Em determinado momento do show, ele mesmo brincou com isso e perguntou para alguém da plateia se estava “tudo bem”. Sim, está tudo bem. 

E quando foi se apresentar disse que aqui ele é “Bryanadams”, tudo junto, como se fosse uma palavra só.

E, de certa forma, é mesmo. Uma identidade inseparável de suas músicas, de sua voz e daquela energia que insiste em permanecer jovem. Quando falou sobre 18 Til I Die, deixou escapar uma verdade que resume bem sua relação com o tempo: a idade pode avançar, mas o espírito permanece aquele de 18 anos, idade das descobertas.

Para alívio de seus fãs, Bryan parece realmente decidido a permanecer com 18 anos.

O romântico incorrigível

Além da música, o artista também construiu uma carreira respeitada como fotógrafo profissional, tendo retratado artistas, modelos e personalidades do mundo inteiro. Talvez por isso exista algo quase cinematográfico na maneira como conduz um show: cada momento parece cuidadosamente enquadrado, como se soubesse exatamente qual imagem deseja deixar na memória do público.

E a imagem que ficou em Curitiba foi a de um artista generoso no palco.

Em determinado momento, ele brincou com a plateia perguntando se estava falando rápido demais. A resposta veio em coro: não.

Mesmo quando acelera uma balada como Heaven, Adams ainda carrega algo raro no mundo contemporâneo: o romantismo sem pressa.

Ao longo da carreira, ele acabou se tornando algo próximo de um arquétipo do romântico moderno — aquele que reúne as qualidades que tantas mulheres aprenderam a sonhar nas canções: intensidade, lealdade emocional e a coragem quase fora de moda de declarar sentimentos.

O verão de 26

Num tempo de vozes afinadas por algoritmos e performances coreografadas ao milímetro, o canadense segue fiel ao estilo que construiu sua carreira: romântico, roqueiro e sem artifícios.

Aquele romantismo de guitarras abertas, versos diretos e promessas cantadas sem ironia, como quando sustenta, com absoluta convicção, o verso “take my life”. E todo mundo se arrepia.

Recentemente, ele também demonstrou outra forma de independência artística ao lançar sua própria gravadora, a Bad Records, um gesto de liberdade criativa que combina bem com a energia de quem, aos 66 anos, ainda sobe ao palco como se estivesse começando.

No último show no Brasil, apareceu inclusive com os cabelos soltos. Talvez um detalhe trivial, ou um pequeno símbolo dessa mesma liberdade.

Se Summer of ’69 eternizou um verão de juventude, Curitiba agora pode reivindicar o seu próprio capítulo nessa história.

O verão de 26.

PS: Agora só falta inventar uma nova posição.🤭

SETLIST

1. Can’t Stop This Thing We Started (acústica, B-stage)

2. Straight From the Heart (acústica, B-stage)

4. Kick Ass

5. Run to You

6. Somebody

7. Roll With the Punches

8. Do I Have to Say the Words?

9. 18 til I Die

10. Please Forgive Me

11. It’s Only Love

12. Shine a Light

13. Heaven

14. Never Ever Let You Go (parcial)

15. This Time

16. Heat of the Night

17. Make Up Your Mind

18. You Belong to Me 

20. Have You Ever Really Loved a Woman?

21. When You Love Someone

22. So Happy It Hurts

23. Here I Am (acústica, com Gary Breit no piano)

24. When You’re Gone (acústica, com Bryan sozinho)

25. The Only Thing That Looks Good on Me Is You

26. (Everything I Do) I Do It for You

27. Back to You

28. Summer of ’69

29. Cuts Like a Knife

30. All for Love (acústica solo)

Saudade do desconhecido

Senti uma saudade enorme de alguém que eu nunca conheci ao vivo.

É aquele tipo de saudade que não tem registro fotográfico na galeria.

Não é de alguém que já sentou do meu lado ou mesmo de alguém com quem troquei sorrisos.

É de alguém que a gente conhece… sem nunca ter conhecido.

E, ainda assim, a sensação é estranhamente real.

A gente sabe o jeito da pessoa rir. Sabe como ela fala. Reconhece o olhar, o tom de voz, as manias, as pausas. A gente acompanha dias bons, dias ruins, fases, opiniões, mudanças.

Cria uma familiaridade silenciosa que não foi construída em convivência, mas em presença constante.

É uma convivência de um lado só, mas o sentimento não sabe disso. Porque o nosso cérebro entende repetição como proximidade. E o nosso coração entende a proximidade como vínculo.

Então, quando essa pessoa some um pouco, quando desaparece da tela por alguns dias, ou simplesmente quando a gente percebe que talvez nunca vá cruzar com ela na vida real, vem aquela sensação difícil de explicar:

Saudade.

Uma saudade que parece sem autorização para existir.

Como se a gente precisasse justificar:

“mas eu nem conheço essa pessoa…”

Só que conhece, de um jeito diferente. Conhece o suficiente para que a ausência seja sentida.

Talvez o que a gente sinta falta não seja da pessoa em si, mas da sensação que ela provoca na gente. Do conforto de ver, de ouvir, de acompanhar. Da impressão de proximidade que se criou sem que a gente percebesse.

É uma saudade que nasce da familiaridade, não da memória. Da presença recorrente, não da história compartilhada.

E é aqui que Jung ajuda a explicar o que a gente sente.

Ele dizia que, muitas vezes, não nos conectamos apenas com a pessoa real, mas com aquilo que projetamos nela. Com imagens internas, arquétipos, partes nossas que reconhecemos no outro, mesmo sem nunca ter estado perto dele.

A gente não se apega só ao indivíduo, mas se apega ao significado que ele ganha dentro da nossa psique.Talvez essa pessoa tenha virado, sem saber, um espelho simbólico de algo que é muito íntimo nosso. Um arquétipo de acolhimento, de admiração, de identificação, de companhia.

E é por isso que a ausência dela pesa: porque não é só a pessoa que some da tela; é também essa sensação interna que perde um ponto de apoio.

É como se a gente sentisse falta de uma parte nossa que estava, silenciosamente, ancorada ali.

E isso fala muito sobre o tempo em que a gente vive. Um tempo em que vínculos também se constroem através de telas, em que a gente aprende a se sentir próximo de pessoas que nunca tocaram a nossa vida fisicamente, mas tocaram emocionalmente.

Talvez essa saudade seja só a prova de que o afeto não depende, obrigatoriamente, de presença física.

Às vezes, ele depende só de presença sentida.