A primeira vez de Bryan Adams em Curitiba

Toda primeira vez carrega um tipo especial de memória. Há expectativa, um certo nervosismo no ar e aquela sensação quase elétrica de que algo importante está prestes a acontecer. Por isso tantas histórias de amor — e tantos grandes shows — começam exatamente assim.

Curitiba finalmente viveu a sua primeira vez com Bryan Adams.

Depois de mais de quatro décadas de carreira, o cantor canadense pisou na capital paranaense, no dia 09 de março (justamente quando o clássico Heaven batia um milhão de plays no Spotify), com a turnê Roll With The Punches, e encontrou uma Live Curitiba completamente lotada, reunindo fãs de diferentes gerações para ouvir seus hits memoráveis e algumas das baladas mais românticas do rock.

Nem tudo, porém, começou em tom de romance

A entrada no local foi marcada por certa desorganização: muita gente parecia não saber exatamente qual setor deveria acessar, e a comunicação na chegada deixou parte do público confusa (inclusive jornalistas). Soma-se a isso o valor dos ingressos — que na plateia VIP ultrapassavam os dois mil reais com taxas adicionais pouco discretas — e o contraste entre experiência musical e custo da noite inevitavelmente se impõe.

Cinco minutos antes do horário marcado, o B-stage (ou palco B) era montado às pressas justamente nessa área VIP. Enquanto isso, ao fundo da pista, uma multidão se espremia tentando garantir qualquer ângulo possível do espetáculo. É o tipo de contraste que os grandes shows inevitavelmente produzem: proximidade absoluta para alguns, esforço quase acrobático para outros.

Então Bryan Adams surgiu pela plateia.

Cercado por um rigoroso esquema de segurança, o cantor atravessou o público em direção ao palco improvisado, criando um daqueles momentos que percorrem a multidão como uma corrente elétrica. Em poucos segundos, a estreia de Curitiba já começava com um gesto de proximidade.

O que veio depois foi uma demonstração rara de consistência artística.

Em tempos de correções digitais, bases pré-gravadas e vozes filtradas por camadas de tecnologia, Adams segue apostando naquilo que sempre definiu sua carreira: voz, guitarra, muitos violões e canções.

A voz, aliás, permanece praticamente intacta.

Com impressionante controle vocal, ele atravessa o repertório com a mesma assinatura rouca e potente que marcou seus discos desde os anos 1980. Durante quase todo o show, mal se vê o cantor recorrer a um gole de água. As músicas se sucedem em sequência quase ininterrupta, emendadas com naturalidade por quem domina o próprio repertório como extensão da própria respiração.

Bastidores e improvisos

Ao seu lado, a banda funciona como uma engrenagem precisa — e com uma história curiosa digna de bastidores de turnê. O guitarrista Luke Doucet foi chamado às pressas para substituir Keith Scott e integrar a banda ao lado de Gary Breit (teclados) e Pat Steward (bateria) depois de receber uma mensagem direta e quase improvável:

“Hey… você consegue aprender 26 músicas em três dias?”

Levando em conta certas adaptações, o guitarrista conseguiu entregar à altura. 

O baterista Pat Steward também protagonizou um dos momentos mais divertidos da noite. Antes de Make Up Your Mind, Bryan prometeu ao público que ali viria “o melhor solo de bateria que vocês verão na vida”. 

A simpatia de Adams com o público também se revelou em pequenos gestos.

Em certo momento, antes de uma das músicas, pediu que a plateia não risse quando aparecesse no telão um clipe antigo em que ele surgia com aquele corte de cabelo rebelde do início de carreira.

Celulares e um pequeno “punch”

Logo na segunda música, Straight From the Heart, no B-stage, veio um pequeno episódio que resume bem a relação contemporânea entre público e palco. Uma fã empolgada aproximou o celular demais do rosto do cantor para registrar a cena. Adams respondeu com um gesto rápido, baixando o aparelho com um leve “punch” de mão — nada agressivo, apenas o suficiente para recuperar seu espaço.

O momento teve algo de simbólico.

As canções de Bryan Adams nasceram em um mundo muito diferente do atual: a era das fitas K7, dos LPs, das fichas de orelhão, das dedicatórias gravadas em mixtapes. Um tempo em que as pessoas iam aos shows para viver a experiência, não para filmá-la.

Um repertório que atravessa gerações

Clássicos como When You’re Gone, Back to you, Run to You, Please Forgive Me e 18 Til I Die foram cantados em coro por uma plateia que parecia saber cada verso de memória. Heaven, em um arranjo mais ritmado para violão, ganhou uma nova textura ao vivo, surpreendentemente fresca para uma música que já atravessou gerações, embora alguns fãs tenham sentido falta do piano da versão original.

Um dos momentos mais hipnotizantes da noite aconteceu quando Adams assumiu o violão para interpretar Everything I Do (I Do It for You), do filme  Robin Hood: o Príncipe dos Ladrões, de 1991. Diferente de outras apresentações da turnê, ele permaneceu praticamente imóvel no palco. 

Foi um daqueles raros momentos de epifania coletiva em que milhares de pessoas parecem compartilhar a mesma emoção ao mesmo tempo. 

Outro instante curioso e inesperadamente fofo aconteceu durante Have You Ever Really Loved a Woman, gravada para o filme Don Juan DeMarco, de 1995. No meio de um verso, Adams simplesmente deu um espirro e continuou cantando na maior naturalidade, sem perder o ritmo da música.

Já o clímax veio com Summer of ‘69, com a plateia indo ao delírio (e os telões mostravam tudo).

O que faltou em Curitiba

Alguns elementos visuais da turnê não apareceram em Curitiba.
Em outras cidades, enormes infláveis — uma luva de boxe gigante em Roll With the Punches e um carro em So Happy It Hurts — voam sobre o público. Na Live, provavelmente pelas dimensões da casa, esses momentos ficaram de fora.

O que apenas reforça uma impressão que muitos fãs compartilharam ao sair do show: Curitiba ainda carece de uma casa de espetáculos realmente à altura de produções internacionais desse porte.

Também ficaram de fora do repertório duas músicas que costumam aparecer em outras datas da turnê: o cover de Twist and Shout e Let’s Make a Night to Remember, normalmente cantada no B-stage.

Ainda assim, foi uma noite memorável.

Para sempre jovem

Bryan Adams sempre foi, antes de qualquer rótulo, um contador de histórias sobre amor, juventude e memória. Parte dessa sensibilidade vem de sua própria trajetória. Filho de diplomata, passou parte da juventude em Portugal — anos que ele próprio descreve como alguns dos mais felizes de sua vida.

Por isso, existe algo de familiar quando ele volta a países de língua portuguesa. No Brasil, a proximidade da língua cria uma ponte natural entre palco e plateia.

Em determinado momento do show, ele mesmo brincou com isso e perguntou para alguém da plateia se estava “tudo bem”. Sim, está tudo bem. 

E quando foi se apresentar disse que aqui ele é “Bryanadams”, tudo junto, como se fosse uma palavra só.

E, de certa forma, é mesmo. Uma identidade inseparável de suas músicas, de sua voz e daquela energia que insiste em permanecer jovem. Quando falou sobre 18 Til I Die, deixou escapar uma verdade que resume bem sua relação com o tempo: a idade pode avançar, mas o espírito permanece aquele de 18 anos, idade das descobertas.

Para alívio de seus fãs, Bryan parece realmente decidido a permanecer com 18 anos.

O romântico incorrigível

Além da música, o artista também construiu uma carreira respeitada como fotógrafo profissional, tendo retratado artistas, modelos e personalidades do mundo inteiro. Talvez por isso exista algo quase cinematográfico na maneira como conduz um show: cada momento parece cuidadosamente enquadrado, como se soubesse exatamente qual imagem deseja deixar na memória do público.

E a imagem que ficou em Curitiba foi a de um artista generoso no palco.

Em determinado momento, ele brincou com a plateia perguntando se estava falando rápido demais. A resposta veio em coro: não.

Mesmo quando acelera uma balada como Heaven, Adams ainda carrega algo raro no mundo contemporâneo: o romantismo sem pressa.

Ao longo da carreira, ele acabou se tornando algo próximo de um arquétipo do romântico moderno — aquele que reúne as qualidades que tantas mulheres aprenderam a sonhar nas canções: intensidade, lealdade emocional e a coragem quase fora de moda de declarar sentimentos.

O verão de 26

Num tempo de vozes afinadas por algoritmos e performances coreografadas ao milímetro, o canadense segue fiel ao estilo que construiu sua carreira: romântico, roqueiro e sem artifícios.

Aquele romantismo de guitarras abertas, versos diretos e promessas cantadas sem ironia, como quando sustenta, com absoluta convicção, o verso “take my life”. E todo mundo se arrepia.

Recentemente, ele também demonstrou outra forma de independência artística ao lançar sua própria gravadora, a Bad Records, um gesto de liberdade criativa que combina bem com a energia de quem, aos 66 anos, ainda sobe ao palco como se estivesse começando.

No último show no Brasil, apareceu inclusive com os cabelos soltos. Talvez um detalhe trivial, ou um pequeno símbolo dessa mesma liberdade.

Se Summer of ’69 eternizou um verão de juventude, Curitiba agora pode reivindicar o seu próprio capítulo nessa história.

O verão de 26.

PS: Agora só falta inventar uma nova posição.🤭

SETLIST

1. Can’t Stop This Thing We Started (acústica, B-stage)

2. Straight From the Heart (acústica, B-stage)

4. Kick Ass

5. Run to You

6. Somebody

7. Roll With the Punches

8. Do I Have to Say the Words?

9. 18 til I Die

10. Please Forgive Me

11. It’s Only Love

12. Shine a Light

13. Heaven

14. Never Ever Let You Go (parcial)

15. This Time

16. Heat of the Night

17. Make Up Your Mind

18. You Belong to Me 

20. Have You Ever Really Loved a Woman?

21. When You Love Someone

22. So Happy It Hurts

23. Here I Am (acústica, com Gary Breit no piano)

24. When You’re Gone (acústica, com Bryan sozinho)

25. The Only Thing That Looks Good on Me Is You

26. (Everything I Do) I Do It for You

27. Back to You

28. Summer of ’69

29. Cuts Like a Knife

30. All for Love (acústica solo)

Saudade do desconhecido

Senti uma saudade enorme de alguém que eu nunca conheci ao vivo.

É aquele tipo de saudade que não tem registro fotográfico na galeria.

Não é de alguém que já sentou do meu lado ou mesmo de alguém com quem troquei sorrisos.

É de alguém que a gente conhece… sem nunca ter conhecido.

E, ainda assim, a sensação é estranhamente real.

A gente sabe o jeito da pessoa rir. Sabe como ela fala. Reconhece o olhar, o tom de voz, as manias, as pausas. A gente acompanha dias bons, dias ruins, fases, opiniões, mudanças.

Cria uma familiaridade silenciosa que não foi construída em convivência, mas em presença constante.

É uma convivência de um lado só, mas o sentimento não sabe disso. Porque o nosso cérebro entende repetição como proximidade. E o nosso coração entende a proximidade como vínculo.

Então, quando essa pessoa some um pouco, quando desaparece da tela por alguns dias, ou simplesmente quando a gente percebe que talvez nunca vá cruzar com ela na vida real, vem aquela sensação difícil de explicar:

Saudade.

Uma saudade que parece sem autorização para existir.

Como se a gente precisasse justificar:

“mas eu nem conheço essa pessoa…”

Só que conhece, de um jeito diferente. Conhece o suficiente para que a ausência seja sentida.

Talvez o que a gente sinta falta não seja da pessoa em si, mas da sensação que ela provoca na gente. Do conforto de ver, de ouvir, de acompanhar. Da impressão de proximidade que se criou sem que a gente percebesse.

É uma saudade que nasce da familiaridade, não da memória. Da presença recorrente, não da história compartilhada.

E é aqui que Jung ajuda a explicar o que a gente sente.

Ele dizia que, muitas vezes, não nos conectamos apenas com a pessoa real, mas com aquilo que projetamos nela. Com imagens internas, arquétipos, partes nossas que reconhecemos no outro, mesmo sem nunca ter estado perto dele.

A gente não se apega só ao indivíduo, mas se apega ao significado que ele ganha dentro da nossa psique.Talvez essa pessoa tenha virado, sem saber, um espelho simbólico de algo que é muito íntimo nosso. Um arquétipo de acolhimento, de admiração, de identificação, de companhia.

E é por isso que a ausência dela pesa: porque não é só a pessoa que some da tela; é também essa sensação interna que perde um ponto de apoio.

É como se a gente sentisse falta de uma parte nossa que estava, silenciosamente, ancorada ali.

E isso fala muito sobre o tempo em que a gente vive. Um tempo em que vínculos também se constroem através de telas, em que a gente aprende a se sentir próximo de pessoas que nunca tocaram a nossa vida fisicamente, mas tocaram emocionalmente.

Talvez essa saudade seja só a prova de que o afeto não depende, obrigatoriamente, de presença física.

Às vezes, ele depende só de presença sentida.

Valor Sentimental

Perder a mãe é como perder a fundação da própria vida. Algo se desloca silenciosamente, como se a nossa casa interior (aquela que sustenta quem somos) deixasse de estar completamente apoiada no chão. Não se trata apenas de luto, mas de reorganização: o mundo continua de pé, mas já não repousa sobre as mesmas bases. Valor sentimental, do diretor norueguês Joachim Trier, parte exatamente desse ponto instável, em que a ausência não encerra uma história, apenas a torna impossível de ignorar.

Na trama, duas irmãs, Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) reencontram o pai, o cineasta Gustav Borg (Stellan Skarsgård), na antiga casa da família após a morte da mãe, uma psicóloga cuja presença permanece justamente pela ausência. 

O reencontro com o pai, emocionalmente distante, faz emergir memórias, ressentimentos e afetos interrompidos. A casa deixa de ser abrigo para se tornar confronto, um espaço onde passado e presente passam a coexistir de forma desconfortável.

Esse ponto de partida poderia estar em um filme do sueco Ingmar Bergman. A família como núcleo trágico, a casa como organismo psíquico, o retorno como gesto de enfrentamento. Trier se inscreve nessa tradição do cinema escandinavo que entende o drama familiar como um campo moral, onde o afeto nunca é simples, e a culpa raramente encontra resolução.

A morte da mãe não pode ser lida isoladamente. Antes dela, houve a separação. O rompimento entre os pais de Nora e Agnes já havia deslocado as estruturas dessa família, criando uma casa dividida muito antes de ela se tornar vazia. A mãe ocupava o lugar da escuta e da mediação; o pai, cada vez mais distante, acumulava silêncios. Com a separação, o equilíbrio frágil se rompe. Com a morte, desaparece de vez. E o que resta são filhas tentando entender como habitar um espaço emocional sem alicerces claros.

Renate, que além de protagonizar o filme atua como produtora executiva, volta a interpretar uma mulher em busca de seu lugar na narrativa da vida. Assim como em A Pior Pessoa do Mundo, do mesmo diretor, sua personagem não se constrói por grandes viradas narrativas, mas por deslocamentos internos. Não se trata de superação, mas de reconhecimento: entender em que ponto da própria história se está.

A mãe psicóloga adiciona uma camada silenciosamente irônica ao filme. Profissional da escuta, ela não consegue impedir que os traumas se acumulem dentro da própria casa. Sua ausência escancara um paradoxo recorrente no cinema de Trier, e já presente em Bergman: saber nomear a dor não é o mesmo que atravessá-la.

A casa funciona, então, como metáfora central. Não apenas cenário, mas organismo vivo, impregnado de memória, ressentimento e culpa. Cada cômodo guarda silêncios herdados, lembranças reprimidas, afetos mal resolvidos. Como em Cenas de um Casamento ou Gritos e Sussurros, o espaço doméstico não acolhe, ele expõe.

É nesse contexto que o pai se torna o eixo trágico da narrativa. Incapaz de se aproximar da filha pelo campo da vida, ele escreve um roteiro pensado especificamente para ela, oferecendo-lhe o papel principal como uma tentativa de reconciliação. A arte surge como linguagem alternativa, como se a ficção pudesse dizer o que o afeto direto não conseguiu sustentar.

A tentativa falha. A filha recusa o papel. No lugar dela, entra outra mulher: a personagem interpretada por Elle Fanning. O deslocamento é revelador. Na arte, personagens podem ser substituídos. Na vida real, não. O cinema permite trocar o corpo, a voz, o rosto. O vínculo afetivo, não.

O gesto ecoa Persona, de Ingmar Bergman, em que identidades se confundem e se sobrepõem. Em Trier, porém, a substituição permanece restrita ao campo da representação. O filme acontece, a história avança, mas a fratura permanece.

Há, nesse gesto do pai — transformar a culpa em narrativa — uma linhagem filosófica que atravessa Bergman e chega a Trier. Schopenhauer via na arte um raro intervalo de suspensão do sofrimento, um momento em que a vontade se cala. Nietzsche, reagindo ao filósofo pessimista, rompe com a ideia de suspensão: para ele, a arte não silencia a dor, não é uma fuga, mas a afirmação da vida. É preciso criar não para escapar do sofrimento, mas para atravessá-lo. Freud entenderia esse mesmo movimento como sublimação — a tentativa de dar forma simbólica ao trauma — enquanto Jung enxergaria na repetição dos conflitos familiares a atuação de arquétipos que se perpetuam. 

Bergman filmou essas tensões como ninguém. Trier herda essas tensões e as atualiza: a arte não resolve nem redime, mas “apenas” organiza o caos o suficiente para que possamos encará-lo.

O amor entre as irmãs surge, então, como contraponto silencioso a esse fracasso. Após a morte da mãe, é nesse vínculo horizontal que se constrói algum tipo de sustentação emocional. Não há idealização, apenas presença. Um gesto pequeno, mas vital.

Ao embaralhar realidade e ficção, Valor sentimental lembra que a memória nunca é neutra. Ela é sempre narrativa, sempre tentativa. O filme não fala de reconciliações plenas, mas de negociações possíveis com a dor.

Valor sentimental é, afinal, um filme sobre herança emocional, culpa e tentativas imperfeitas de aproximação. Mas é também um filme que reafirma a arte não como salvação, e sim como um espaço de negociação com a dor. Bergman já sabia: o cinema não oferece respostas; apenas confrontos.

E talvez seja justamente nesse confronto, incômodo, imperfeito e profundamente humano, que a arte ainda encontre sua forma mais honesta de libertação.

Quando a roupa encontra outro corpo

Abri o armário achando que encontraria apenas lembranças, mas encontrei um pequeno acervo de camisas e blusas brancas, quase todas iguais, quase todas com aquele mesmo jeito dela de tentar parecer simples mesmo quando carregava mundos inteiros por dentro.

Eu não fazia ideia de que ela guardava tantas. Guardava tudo dentro do seu armário interior. Era tanta roupa que ficar muda a consumiu por dentro.

Fui tirando peça a peça. Com e sem cabide. Dobrava, ensacava. Como é difícil. Aprendi com ela a não usar amaciante.

Cada peça parecia conter um gesto, um riso curto, um costume antigo. E eu ali, entre as pilhas, tentando entender se aquilo era excesso ou permanência.

Fiquei com algumas. As que, por algum motivo, pareciam falar comigo. Não sei se é apego, necessidade ou só um jeito de manter por perto algo que ainda não sei deixar ir.

Seu par de tênis caminha comigo agora. Visto de memória uma ou outra camisa.

O restante… doeu. Parte doei. Parte vendi em brechós. Não havia espaço para tudo e, talvez, também não houvesse espaço em mim para guardar tanto.

E então me dei conta de algo estranho e bonito: por aí, em alguma esquina ou corredor de mercado, talvez exista alguém vestindo uma das blusas da minha mãe.

Um corpo desconhecido, continuando um pedaço da história que ela deixou. Um fio de vida que segue, mesmo quando não é mais nosso.

Gosto de pensar que o que foi dela ainda respira no mundo. Que há roupas caminhando, tocando o vento, sendo lavadas, secas ao sol, amassadas, escolhidas, esquecidas e lembradas… como qualquer vida.

No fim, percebi que não dei embora as roupas. Dei caminhos.

Quanto vale aquecer os corações? Sixpence None the Richer

Dona de hits que embalaram os anos 90, banda se apresentou no Tork.

Foi como entrar numa máquina do tempo com destino marcado: os anos 90. Em pleno 13 de junho, noite fria de Curitiba, logo após o Dia dos Namorados e bem no dia de Santo Antônio (que dispensa apresentações), a trilha sonora parecia pensada sob medida para o calendário e para os corações. 

Kiss Me, o maior hit da banda americana Sixpence None the Richer, soou como uma prece suave no Tork n’ Roll, local que abrigou o show após a mudança do Teatro Bom Jesus. A troca, curiosamente, não soou deslocada: embora o teatro fizesse eco com as origens gospel do grupo (afinal, o nome da banda vem de um trecho do autor irlandês C. S. Lewis), o novo local trouxe a proximidade crua e quente de um palco pequeno, onde a acústica abraça e a plateia se torna quase cúmplice.

O público, infelizmente, foi pequeno. E isso doeu um pouco no coração. Porque ali, diante de uma banda tão afinada e generosa, a sensação era de estar diante de um daqueles momentos que mereciam plateia cheia, aplausos longos, coros afinados. Ainda assim, quem foi, foi por amor. E bastava olhar ao redor: camisetas da banda, olhares marejados, vozes que sabiam cada verso de cor, como se cada pessoa ali tivesse feito um pacto com a própria adolescência.

Leigh Nash entrou toda de branco, como se fosse uma noiva alternativa (com sua bota dourada). Sua voz delicada e presença cativante conduziu o show com graça. Sorriu, agradeceu, conversou com a plateia, lembrou que estavam em turnê pelo Brasil e parecia feliz de verdade por estar ali. A acústica do Tork favoreceu o clima intimista do show.

Além dos próprios sucessos, o Sixpence é conhecido por transformar covers em verdadeiros clássicos E não é exagero dizer que, muitas vezes, suas versões soam até melhores que as originais. Em Curitiba, presentearam o público com interpretações sensíveis de Don’t Dream It’s Over (Crowded House) e mágicas como There She Goes (The La’s), que foi tema do comercial do shampoo Organics, da Unilever. Alguém aí se lembra? 

Ah, é claro, a composição mais famosa da banda, Kiss Me, escrita por Matt Slocum (guitarrista e principal compositor da banda) deixou a plateia nas nuvens. A canção foi lançada em 1998 e se tornou o maior sucesso comercial do grupo, eternizada por sua inclusão em filmes e séries como Ela é Demais (She’s All That) e Dawson’s Creek. Logo na introdução, era possível ver os emojis imaginários de coração disparando das cabeças dos presentes. 

Por isso, quando soube que a banda viria para o Brasil, foi inevitável pensar: “eu vou”. E fui. E me senti transportada para uma época em que tudo era mais simples, ou pelo menos parecia ser. Talvez o maior poder da música esteja aí: em nos permitir visitar o passado sem precisar sair do lugar. 

O setlist foi praticamente impecável, embora um ou outro fã concordasse que I Can’t Catch You poderia muito bem ter substituído a natalina River, de Joni Mitchell, uma das faixas do álbum The Dawn of Grace, de 2024. Mas são detalhes pequenos, incapazes de comprometer o que foi, no todo, um reencontro precioso. Sim, porque teve doçura e introspecção em Melody of You e Julia. E o gran finale com a irresistível Breathe your name. 

No fim das contas, a cidade pode até não ter comparecido em peso, mas quem esteve lá saiu com o coração mais cheio. Assim que a banda se despediu e as luzes do palco se apagaram, o som do Tork emendou a delicada God Only Knows, dos Beach Boys; uma homenagem a Brian Wilson, que havia falecido dois dias antes. 

E assim, aos poucos, a gente foi se despedindo dos anos 90. Enquanto uma fila tímida se formava com fãs esperando a chance de entrar no camarim, outra crescia na frente do Tork com uma galera ansiosa para curtir uma festa geek.

Antes disso, os músicos do Sixpence voltaram ao palco discretamente para desmontar seus instrumentos, como se aquele fosse apenas mais um dia comum de turnê. Mas, para quem esteve ali, não foi só isso: foi memória viva, feita de som e sentimento. 

Setlist:

Angeltread

Within a Room Somewhere

Thread the Needle

Don’t Dream It’s Over (Crowded House cover)

The Tide

Rosemary Hill

Midnight Sun (The Choir cover)

Don’t Let Me Die in Dallas (Leigh Nash song)

River (Joni Mitchell cover)

Melody of You

Homeland

Down and Out of Time

Julia

There She Goes (The La’s cover)

Kiss Me

We Are Love

Encore:

A Million Parachutes

Breathe Your Name

* Em breve, esta resenha será publicada no blog Mondo Bacana.

Salvando o mundo com um GIF por vez

Vivemos na era em que um meme vale mais que mil palavras e menos que meia ação. A geração meme (também conhecida como geração “kkk”, “slc”, “morto”, “eu todinho”) tem o superpoder de transformar qualquer tragédia, escândalo político ou crise existencial em uma imagem de baixa resolução com legenda em Impact font. Engajamento? Altíssimo. Solução de problemas? Deixa pra depois do repost.

Essa é a galera que chora com o fim do Wi-Fi, mas não com o fim da Amazônia. Que compartilha frases do tipo “fé no pai que o inimigo cai”, mas só se o vídeo carregar sem travar. Que vive num eterno estado de ironia, como se a realidade fosse apenas um grande episódio de The Office, e a vida, um meme ambulante narrado por um áudio do TikTok.

A geração meme acredita piamente que está mudando o mundo… uma figurinha do Zap por vez. Protesto? Só se for em thread no Twitter, ops, X. Mobilização? Se tiver filtro do Instagram, talvez. A luta é real, mas o meme é prioridade.

Enquanto isso, os adultos da geração passada, conhecidos (carinhosamente como “boomer raiz”) observam de longe, sem entender se esse pessoal está rindo ou pedindo socorro. Spoiler: muitas vezes é os dois.

Mas sejamos justos. A geração meme sabe rir de si mesma, e talvez isso seja seu maior trunfo. Porque quando tudo está pegando fogo, eles não correm… eles abrem o Canva, colocam uma frase sarcástica sobre a vida, jogam um emoji e postam: “quando a vida te dá limões, faz um meme e viraliza”.

Daí vem aquela famosa pergunta: e quem somos nós para julgar? Pelo menos no caos, eles ainda sabem fazer piada.

Vai ter velório?

Essa foi uma das primeiras perguntas que ouvi. E entendo. Quando alguém morre, espera-se um ritual. Um lugar, uma hora, um momento em que se possa dizer adeus. Mas a verdade é que minha família é pequena. Temos poucos amigos. E, pra ser sincera, nunca gostei de velórios.

Não consigo me acostumar com a ideia de se despedir em uma sala fria, com cadeiras de plástico e café ralo. Aquela atmosfera de constrangimento onde ninguém sabe exatamente o que dizer. Me soa mais como uma formalidade do que um consolo. Por isso, optamos pelo silêncio. Pela intimidade.

Somos low profile até na morte.

Não, eu não postei nenhum comunicado.

Não senti vontade, nem necessidade.

Mas entendo quem faz. E, hoje em dia, a maioria faz. Não por vaidade ou por espetáculo, como às vezes se julga rápido demais… mas porque existem pessoas com muitos conhecidos mesmo. Colegas de trabalho, vizinhos, parentes distantes, amigos do grupo de natação da tia… E como avisar todo mundo sem enlouquecer? As redes viraram esse grande megafone. Uma forma prática (e muitas vezes inevitável) de comunicar que a vida mudou.

Publicar a morte de alguém no Instagram ou no Facebook pode parecer estranho à primeira vista. Mas virou, pra muita gente, um novo tipo de velório. Não aquele cheio de flores e cadeiras, mas um espaço virtual onde se compartilha a perda — e, com sorte, se recebe algum consolo. Um comentário, um emoji, uma palavra simples que diga: vi sua dor, estou aqui.

Velórios existem desde sempre por isso. É cultural. Porque o luto precisa ser reconhecido. Precisa sair do peito e encontrar abrigo em outros olhos. A diferença é que agora, em vez de um salão, muitos têm encontrado esse abrigo no feed.

Eu sigo não gostando de velórios. Mas entendo o valor dos rituais. E às vezes, nesse mundo corrido e digital, até um story serve como despedida. Mesmo que silenciosa. Mesmo que breve. Mesmo que entre um meme e uma receita.

O importante, talvez, seja não calar a dor, e permitir que ela, de algum jeito, seja vista. Nem que seja só por alguns segundos, entre um scroll e outro.

Última visualização

Mandar WhatsApp pra minha mãe era automático. Era tipo respirar.

Até quando bati o carro, eu avisei de supetão. Ela só tinha perguntado “tá tudo bem?”, e eu já soltei: “bati o carro”.

Queria ter te poupado de tanta informação desnecessária… de tanta coisa que não te fez bem.

Mas essa era a nossa relação. De mãe e filha.

Transparente, sem freio (às vezes literalmente), cheia de amor e susto.

Hoje, quase mandei mensagem de novo.

Fui contar do filme novo, do sofá que precisa ser higienizado, de uma notícia besta que ia te fazer rir.

Cliquei no seu nome e pensei:

“A foto do Totônio continua lá no seu perfil…”

A melhor avó do mundo.

Você virou uma daquelas conversas que a gente não tem coragem de apagar.

Tem dias em que eu esqueço. Esqueço que você se foi. Aí te escrevo mentalmente, como sempre fiz. E na minha cabeça você ainda responde.

Ainda pergunta:

“Quer que eu vá aí na sua casa pra te ajudar?”

Você sempre quis resolver tudo com presença. E agora o que sobra é essa ausência que pesa.

Mas é engraçado como você ainda tá aqui.

No tom de voz que eu ouço na cabeça.

No “não esquece de avisar o Lima!” (o motorista da van)

No “manda beijo pro Marco”.

Não sei se dá pra superar.

Mas acho que dá pra continuar.

Te mandando WhatsApp.

Mesmo que você não visualize mais.

(PS: Se aí tiver internet, ignora o áudio de 8 minutos reclamando da vida. Ouve só a parte em que eu digo que te amo.)

Nem a pandemia ensinou empatia

A gente achava (ou queria acreditar) que, depois de uma pandemia global, alguma coisa mudaria nas pessoas. 

Que o medo da perda, do isolamento, da finitude, nos deixaria mais atentos uns aos outros. Que a dor compartilhada amoleceria corações, abriria ouvidos, ensinaria a cuidar.

Mas não. Passou o caos, e muita gente continuou exatamente igual. Ou pior.

Há quase dois meses, cada dia começa com incerteza e termina com cansaço. E, mesmo assim, tem gente ao meu redor que parece viver em outra frequência. Uma frequência em que a empatia é luxo, e tudo o que importa é o que você entrega.

Gente que mal pergunta se está tudo bem (é claro que não está!), mas cobra. Cobra prazos, respostas, disposição. Cobra como se nada estivesse acontecendo.

Vivemos num mundo ansioso, acelerado, onde sentir virou quase um atraso. Não há tempo pra pausas, pra escutar, pra acolher. Só importa o desempenho, o resultado, o “segue o baile”. E se você para ou diminui o ritmo (ainda que por um motivo profundamente humano) é tratado como um obstáculo, um problema, um ruído.

E aí a gente se pergunta: de que adiantou tudo aquilo? O medo, a saudade, os boletins médicos, as orações em rede, o “vai passar” colado na janela? Parece que passou, mas junto passou também qualquer rastro de sensibilidade que podia ter nascido dali.

Algumas pessoas simplesmente não querem saber. E talvez nunca queiram. Só querem que você entregue, entregue e entregue.

Mas aqui, pelo caminho, sigo acreditando que sentir ainda é resistência. E que se há algo a ser feito, é continuar sendo humano, mesmo quando o mundo insiste em deixar de ser.