Chico Buarque para poucos

Numa sexta-feira dessas, fui ver um trio tocar Chico Buarque. Era na Sociedade Operária Beneficente 13 de maio, fundada na metade do século XIX. A noite estava quente, perfeita pra sair, mas o lugar estava vazio. Quem dera tivesse um par pra rodopiar pelo salão. Enfim, não importa. Eu só queria cantar “Apesar de Você” em alto e bom som. Como disse minha amiga, era o grito que estava preso na garganta. Era outro contexto da canção, mas o verso “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia” me fazia todo sentido.

Então eu me dei conta que o ano estava terminando e passei longos meses sem escrever sobre o show do Chico. Agora, é como fazer uma retrospectiva. A turnê passou por Curitiba em agosto. Inverno. Comprei os ingressos logo no primeiro dia de venda e para o primeiro dia, pois sabia que iriam esgotar logo (três noites com o teatro lotado). Pra mim e minha mãe. Porque o combinado era sentar perto do palco. Sem brigas dessa vez, lá fomos nós duas de Uber para o teatro Guaíra. Sentamos na quinta fila. Ou seria na oitava? Enfim, perto o suficiente para ver aquele sorriso encantador!!!!

Me vesti discretamente. Meia calça, saia, blusa, brincos compridos. Tudo preto e branco. Apenas meu esmalte era vermelho e destoava do visual. Parecia uma jovem senhora. No saguão do teatro, percebi que muita, mas muita gente estava de vermelho. Me senti enturmada por causa do esmalte. Muita gente vestida como se tivesse ido direto do trabalho, de moletom, calça jeans. Muita gente vestida pra protestar mesmo. Todos democraticamente vestidos para assistir ao show do Chico, que no dia anterior foi visitar o amigo ex-presidente da República que ainda está preso na sede da PF aqui em Curitiba.

Fui lá para o meu lugar. Alguns rostos conhecidos, que não me reconheceram, ou fizeram de conta que não era eu. Ótimo! Prefiro assim (às vezes). Lá nas primeiras filas, tinha um guri que vestiu a camisa do time de futebol do Chico, o Politheama, por cima de outra.

O show começa (recorrendo ao set list no Google, porque a memória já era) com a homenagem a Assis Valente, “Minha embaixada chegou”. E eu me dei conta, logo de cara, que Chico estava mais leve do que o primeiro show que vi. Sorrindo. Começa com a voz trêmula, se aquecendo para as demais 30 canções do repertório. Perfeito.

Na quarta música, quase entrei em pânico. “Iolanda”. Nome da minha vó que está com Alzheimer. Virei pra minha mãe e intimei: “Não vai chorar, hein!”. Ela olhou, sorriu e eu segurei o choro. Perto da metade do show, Chico cantou “A volta do Malandro” e “Homenagem ao Malandro”. Cantei alto e dei risada mais alto ainda! Ironia.

Depois de vinte e duas músicas, chegou o momento em que a plateia se posicionou. “Sabiá”: “Vou voltar/Sei que ainda vou voltar…”, parceria com Tom Jobim. Chico cantou a música em pleno ano de 68, durante o III Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, Rio de Janeiro. E venceu a competição.

E praticamente o teatro inteiro começou a gritar “Lula, livre”. Algumas vaias, mas meus ouvidos entenderam que os do contra eram minoria ali. Bem, eu preferi me abster. Ficar na minha. Chico também ficou na dele. Não fez discurso. Não precisa.

Eu seguia radiante e com “Geni e o Zepelim” no bis (que eu cantei de cor) e “Paratodos” podia ir para casa com a alma lavada.

Porém, assim que o show terminou, algumas pessoas ainda protestavam do seu modo. “Esse bando de burguês…blá, blá, blá”, dizia uma senhora. Bem, fiquei pensando…. será que ela ganhou o ingresso? Por que mesmo a meia entrada na plateia custando R$ 245, o show do Chico era Parapoucos!

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