Chadwick Boseman

Mondo Bacana

Oito filmes da breve porém marcante carreira do ator que interpretou no cinema o cantor James Brown e o super-herói Pantera Negra

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Getty Images/Jeff Kravitz/Reprodução (Oscar 2019), Disney/Divulgação (Pantera Negra) e Universal Pictures/Divulgação (Get On Up: A História de James Brown)

Se existe um ator que conseguiu transcender suas personagens, o nome dele é Chadwick Boseman. Um super-herói real, de carne e osso, que não esmoreceu diante de uma notícia devastadora que lhe custaria a vida e lutou até o fim contra seu arqui-inimigo mais poderoso: o câncer no cólon diagnosticado em 2016. Nem mesmo o Pantera Negra dos filmes da Marvel poderia derrotar um tumor potencialmente maligno, de estágio 3. Se pouco dava para ser feito no combate à doença, Boseman não se deixou abater pelo sofrimento e evocou o poder sobrenatural de todos os guerreiros interpretados por ele ao longo da carreira para…

Ver o post original 781 mais palavras

Pulsão

Mondo Bacana

Documentário procura evidenciar a influência e o poder das redes sociais na política brasileira dos últimos anos

Texto por Janaina Monteiro

Foto: Reprodução

Quando Guy Debord escreveuA Sociedade do Espetáculo, que serviu de base para os acontecimentos de maio de 1968, não poderia imaginar que a internet, seus algoritmos e o mar defake newsdivulgados via WhatsApp potencializariam, algumas décadas depois, sua teoria sobre a submissão alienante proporcionada pela mídia. O livro é leitura fundamental para tentar compreender o mundo moderno do pós-guerra, quando a sociedade se viu dominada pela mercantilização das relações, sejam elas sociais, políticas e econômicas.

Seguindo ideias marxistas que flertavam com o pensamento freudiano, Debord acreditava que o espetáculo é uma forma de dominação da burguesia sobre o proletariado. Alguns desses conceitos podem ser claramente percebidos no documentárioPulsão, dirigido, produzido e escrito por Diego “Di” Florentino em parceria com Sabrina Demozzi. A…

Ver o post original 872 mais palavras

Realizei um sonho de infância

Sinto uma enorme satisfação em ter realizado um sonho de infância. Quando eu era criança, não queria ser executiva de multinacional ou presidente da república. Eu simplesmente queria ser jornalista. De jornal impresso mesmo. Uma espécie em extinção.

E essa paixão eu devo a meu pai. Sempre cercado de jornais e revistas. E livros. Guardou vários deles desde a época da faculdade de direito com a esperança que eu seguisse o mesmo caminho. Ele se formou advogado, porém pouco exerceu a profissão. O que lhe dava prazer era ser cronista esportivo.

Além dos jornais, tinha muito contato com gravadores e fitas K7. Mas era do papel que eu gostava. Nunca me esqueço que contava os dias da semana para ler o suplemento infantil do jornal que ele assinava. E lembro do primeiro jornalzinho que fiz para minhas bonecas lerem. Minhas Barbies eram mais informadas que muita gente!

Quando terminei o terceirão, aos 16 anos, fiquei em dúvida: letras ou jornalismo? Minha timidez talvez seria um impedimento para cursar comunicação social, mas esse curso foi minha primeira opção. Durante a faculdade, fiz estágio no Caderno G, da Gazeta do Povo, e descobri minha vocação. Nunca me esqueço do dia em que o escritor e roteirista Valêncio Xavier se aproximou de mim e disse: “Você tecla como se estivesse tocando piano”.

No entanto, não me formei empregada (por conta da minha cabeça dura e alguns mal-entendidos). E demorou quase quatros anos para eu realizar meu sonho. Por causa de uma vizinha, conheci a Ana, que era repórter do extinto Diário Popular (e depois virou editora-chefe). Graças a elas, eu consegui uma vaga de repórter. A proposta era escrever para a editoria de Cultura. Minha empolgação era enorme. Só que….me chamaram pra conversar e…”você topa fazer policial?”. Hmm…como é que é? Repórter policial? Eu entendi bem?

A vontade de ser repórter era tanta que aceitei o desafio antes de pensar se daria conta. Para isso, porém, era preciso passar no teste. Teste prático para ver se eu aguentaria o tranco. O combinado era que o Adilson, o fotógrafo, me avisaria pelo celular sobre um “C4” (código da polícia para “morte violenta” – hoje eu dirijo um C4 e nunca me esqueço do código).

Nessa época, eu trabalhava de revisora numa agência de publicidade. Lembro que o Adilson passou na agência com o carro da reportagem. Então fui lá para o Bairro Alto (acho que era esse o bairro). Um acidente de moto. Com criança envolvida. Isso foi em 2005. A criança foi socorrida e o pai dela estava lá: estatelado no asfalto.

Quando cheguei ao local do acidente, tentei não prestar muita atenção aos detalhes. Entrevistei quem eu tinha que entrevistar e voltei para o trabalho. Precisava escrever a matéria, que foi publicada. Talvez eu tenha ainda o recorte do jornal guardado numa pasta qualquer.

Enfim, consegui o emprego e me tornei repórter policial, função que assumiria por quase nove anos ininterruptos. E até hoje eu me pergunto como suportei ver tanta dor.

 

 

 

O inglês de carne e osso

Preciso entregar um texto sobre o Coldplay desde o ano passado, quando assisti ao documentário a “Head Full of Dreams” sobre os 20 anos de estrada da banda inglesa. Estou adiando devido ao turbilhão de acontecimentos que transformaram minha rotina nos últimos três meses. Mas agora, talvez, eu consiga. E quem sabe começando por aqui.

Tenho uma história com Coldplay. Eu e milhões de fãs ao redor do mundo, claro. Mas toda vez que eu ouço Coldplay, volto no tempo em que a MTV transmitia os clipes da banda. Volto no tempo quando minha mãe descobriu que tinha câncer. E aí minha história começa.

É claro que eu já conhecia “Yellow”. Quem não conhecia? Aliás, o primeiro álbum é espetacular. Redondinho. E o documentário mostra bem como Chris Martin tinha certeza que chegaria ao topo. Predestinado.

“Nobody said it was easy”. “The Scientist”. Segundo álbum do Coldplay. A Rush of Blood to the Head. 2002. Se não me engano, foi por causa do clipe dessa música na MTV (saudosos Top 10, Top 20) que minha mãe conheceu a banda. É triste e inesquecível. Sobre um acidente de carro filmado de trás pra frente. “I’m going back to the start”. A letra termina assim.

“Clocks”. Lembro da minha mãe vendo o clipe dessa música todo santo dia. Menos triste. “Confusion that never stops/The closing walls and the ticking clocks”.

2007. Show do X&Y (terceiro da banda) no Via Funchal, em São Paulo. Comprei meus ingressos pela internet. Tinha um PC 486 com dial-up. A primeira tentativa não deu certo. Entrei no site novamente e lá se foram meus assentos. Consegui comprar na quarta fila (se não me engano). R$ 400 na VIP. Duas inteiras. Uma fortuuuuna hoje, imagine na época. Paguei com meu salário de editora.

Perto dos shows do Coldplay que lotam estádios hoje em dia, os de 2007 foram superintimistas. No Via Funchal, cabiam 2.700 sortudos. E foi simplesmente inacreditável. Sentei do lado de uma menina de Manaus. E mais para o final do show, nós saímos da fileira e fomos para a frente do palco. De cara com a banda. Tocamos na mão do Chris.

Só me arrependo de não ter levado máquina fotográfica. Total absurdo. E minha tia, que morava em SP, ainda conseguiu assistir ao final do show de graça e registrou umas fotos pelo celular dela (que não era um BlackBerry, top na época).

Extasiadas, pegamos um táxi para voltar pra casa dela. Só que não. Fomos nós para o bar do hotel na Oscar Freire (acho que era o Fasano) onde a banda estava hospedada. Mas, calma, eu não queria tietar. Afinal, estava sem máquina fotográfica. Eu tinha um propósito.

O bar estava vazio. E sinceramente, achava impossível chegar perto dos caras. O máximo que podia acontecer era jantarmos e pronto. Lembro que eu pedi um Cosmopolitan a lá Sex And The City e que havia um trio tocando bossa nova.

Até que…de repente… Chris Martin, ele mesmo, aparece em carne e osso. Eu não sabia o que fazer. Disfarcei. Ficou lá curtindo uma musiquinha e….foi embora. Eu fui atrás. Precisava falar o verso de “Clocks” adaptado.

E o mais incrível foi que um rapaz que trabalhava no hotel me ajudou. Me lembro perfeitamente do Chris, com quase 1,90 de altura, cabelos encaracolados, olhos azuis. olhando pra baixo, em minha direção. Eu mal conseguia falar português, imagina inglês. Mas ele captou a mensagem (o rapaz do hotel me ajudou de novo). “Am I part of the cure, or am I part of the desease”, diz o verso de Clocks. E eu consegui falar pro Chris, em inglês, que ele foi parte da cura da minha mãe. Ele deu um sorrisão. I got it!

E assistindo ao documentário, dia 14 de novembro de 2018, eu me lembrei de tudo. E soube que o X&Y foi o álbum de uma fase difícil da banda, depois do estrondoso sucesso que foi o segundo disco. E tudo fez mais sentido. Até o fato de eles se apresentarem de preto. E quando tocou “Yellow” eu chorei. E no cinema, nos letreiros, eu chorei ouvindo “The Scientist” ao lado da minha mãe.

E graças à minha tia, tenho uma recordação com poucos pixels, mas com uma resolução de vida incrível!

 

 

O painel que traduz o meu vazio

Tenho nas paredes da sala e corredor quatro painéis de fotografias pendurados. Três deles com fotos bonitas, de viagens, da barrigona de grávida, sorrisos, Totônio recém-nascido, uma família aparentemente feliz. O outro está vazio. Sem foto alguma. Atrás do sofá. Parece um quadro pós-modernista. Que traduz o vazio.

Esse quadro me perturba. Todo santo dia eu olho pra ele e me incomodo com o fato de que ainda está vazio. Talvez ainda não tenha escolhido as fotos não por falta de tempo. Mas por causa de um vazio existencial. O meu vazio. De anos.

Eu já senti um vazio imenso quando tinha uns 20 e poucos anos. Durou alguns meses. Era como se eu tivesse um buraco negro dentro de mim, sugando todas as minhas energias. Vivia na horizontal de dia, e na vertical de noite. Durou poucos meses até que conheci pessoas fantásticas que me livraram desse pesadelo. O buraco negro evaporou.

Converti a massa negra dentro de mim em energia luminosa. E explodi pra realidade. Esqueci quem me fazia mal, fui trabalhar com jornalismo policial. Vi centenas de buracos negros na minha frente. Mas sobrevivi. Até que outros buracos negros vieram me sugar novamente. Mas eles sempre evaporam de novo.

Agora mesmo parece que estou sendo tragada por um. Que também já dura meses. Mas eu sei que esse também vai evaporar. Porque a vida é assim.

Não é por falta de fotos que o quadro não está preenchido. Tenho fotos de aniversários do Totônio. Na verdade, agora só me restam fotos do Totônio. Preciso de 20 delas. Quero fazer um quadro só dele. Porque, por enquanto, ele preenche esse meu vazio. É nele que penso quando minha energia está acabando. É Totônio que me mantém na vertical.

 

img_8712-1

Procurando a dona do maltês

Eu aprendi com a vida a não criar expectativas. Isso vale em relação a amigos, parentes, desconhecidos, quem quer que seja. Não espere nada de ninguém. É uma das frases que mais me faz sentido hoje em dia. Porque percebo que é a melhor forma de evitar decepções e encarar a vida de forma mais leve.

Eu aprendi com a vida a cultivar o altruísmo. E isso vale em relação a amigos, parentes, desconhecidos, quem quer que seja. Até animais de estimação. Não fazia ideia que o termo foi criado pelo filósofo francês Auguste Comte. Ser solidária e generosa com as pessoas é uma atitude que decidi adotar e que venho colocando em prática. É o oposto de quem decide ficar preso em seu casulo, alimentando o egoísmo, fazendo vistas-grossas, mesmo sabendo que alguém precisa de ajuda.

Eu quero ajudar e, às vezes, consigo. No ano passado, eu saía do laboratório onde fui fazer um hemograma e outras dezenas de exames quando um cachorrinho branquinho fofinho cruzou a esquina em minha direção. Meu carro estava estacionado no mercado, a algumas quadras dali, e eu voltava a pé quando a bolinha de pelo apareceu.

Latindo bravo, ele parou em frente a uma casa e começou a “discutir” com outro cachorro, como se estivesse implorando ajuda: “Estou perdido. Me deixa entrar, por favor!”. Parei por um segundo. Do outro lado da rua, um rapaz que trabalhava numa loja de aparelhos hospitalares saiu na porta para observar a cena. Ele dava risada, então, eu gritei: “Você já viu esse cachorro por aqui?”. Ele acenou negativamente com a cabeça.

O dog estava nervoso. Quando eu chegava perto, avançava em mim. Sem condições de pega-lo no colo. Levaria uma mordida feia.

Eis que surge uma pedestre, que percebeu o drama do animal. “Nossa, ele está perdido”. Então, eu negociei com ela e pedi gentilmente para que a moça ficasse tomando conta do cachorro, enquanto eu procuraria a dona dele pelas redondezas.

Trato feito. Perguntei para uma faxineira, que limpava o prédio da esquina, se ela conhecia o cachorro branquinho. Mais um não. Virei a rua à direita, e percebi que ali havia um petshop. Então, desconfiei que o cachorro teria fugido de lá. Uma hipótese bem plausível. Toquei a campainha e nada. Continuei andando pela rua, quando uma mulher desesperada, de camiseta laranja, veio correndo em minha direção.

“Só pode ser ela”, pensei. E era. Ou quase.

_A senhora perdeu um cachorro branquinho?

_É da minha filha. Onde ele está? Minha filha vai me matar. Meu marido saiu de casa e deixou a porta da garagem aberta. Esse cachorro é um maltês, custou R$ 2.000, contou a mulher.

Fomos nós duas atrás do floquinho. Quando viramos a esquina novamente, a mulher desconhecida ainda cuidava dele. A avó do maltês o agarrou e agradeceu: “Muito obrigada. Deus abençoe”. Só deu tempo de perguntar o nome dele, mas já faz tanto tempo que nem me lembro mais. Era um nome diferente. Depois, ela foi embora. Todos fomos embora. Antes do resgate, pensei por um instante se deveria ir embora. Mas não tinha como deixar o cachorrinho ali. E agradeci a mulher que me ajudou. Ainda existem pessoas como nós neste mundo.

Eu também aprendi com a vida a agradecer. Isso vale em relação a amigos, parentes, desconhecidos, quem quer que seja. Não crie expectativas, seja altruísta e grata. Porque percebo que é a melhor forma de evitar decepções e encarar a vida de forma mais leve.

Chico Buarque para poucos

Numa sexta-feira dessas, fui ver um trio tocar Chico Buarque. Era na Sociedade Operária Beneficente 13 de maio, fundada na metade do século XIX. A noite estava quente, perfeita pra sair, mas o lugar estava vazio. Quem dera tivesse um par pra rodopiar pelo salão. Enfim, não importa. Eu só queria cantar “Apesar de Você” em alto e bom som. Como disse minha amiga, era o grito que estava preso na garganta. Era outro contexto da canção, mas o verso “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia” me fazia todo sentido.

Então eu me dei conta que o ano estava terminando e passei longos meses sem escrever sobre o show do Chico. Agora, é como fazer uma retrospectiva. A turnê passou por Curitiba em agosto. Inverno. Comprei os ingressos logo no primeiro dia de venda e para o primeiro dia, pois sabia que iriam esgotar logo (três noites com o teatro lotado). Pra mim e minha mãe. Porque o combinado era sentar perto do palco. Sem brigas dessa vez, lá fomos nós duas de Uber para o teatro Guaíra. Sentamos na quinta fila. Ou seria na oitava? Enfim, perto o suficiente para ver aquele sorriso encantador!!!!

Me vesti discretamente. Meia calça, saia, blusa, brincos compridos. Tudo preto e branco. Apenas meu esmalte era vermelho e destoava do visual. Parecia uma jovem senhora. No saguão do teatro, percebi que muita, mas muita gente estava de vermelho. Me senti enturmada por causa do esmalte. Muita gente vestida como se tivesse ido direto do trabalho, de moletom, calça jeans. Muita gente vestida pra protestar mesmo. Todos democraticamente vestidos para assistir ao show do Chico, que no dia anterior foi visitar o amigo ex-presidente da República que ainda está preso na sede da PF aqui em Curitiba.

Fui lá para o meu lugar. Alguns rostos conhecidos, que não me reconheceram, ou fizeram de conta que não era eu. Ótimo! Prefiro assim (às vezes). Lá nas primeiras filas, tinha um guri que vestiu a camisa do time de futebol do Chico, o Politheama, por cima de outra.

O show começa (recorrendo ao set list no Google, porque a memória já era) com a homenagem a Assis Valente, “Minha embaixada chegou”. E eu me dei conta, logo de cara, que Chico estava mais leve do que o primeiro show que vi. Sorrindo. Começa com a voz trêmula, se aquecendo para as demais 30 canções do repertório. Perfeito.

Na quarta música, quase entrei em pânico. “Iolanda”. Nome da minha vó que está com Alzheimer. Virei pra minha mãe e intimei: “Não vai chorar, hein!”. Ela olhou, sorriu e eu segurei o choro. Perto da metade do show, Chico cantou “A volta do Malandro” e “Homenagem ao Malandro”. Cantei alto e dei risada mais alto ainda! Ironia.

Depois de vinte e duas músicas, chegou o momento em que a plateia se posicionou. “Sabiá”: “Vou voltar/Sei que ainda vou voltar…”, parceria com Tom Jobim. Chico cantou a música em pleno ano de 68, durante o III Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, Rio de Janeiro. E venceu a competição.

E praticamente o teatro inteiro começou a gritar “Lula, livre”. Algumas vaias, mas meus ouvidos entenderam que os do contra eram minoria ali. Bem, eu preferi me abster. Ficar na minha. Chico também ficou na dele. Não fez discurso. Não precisa.

Eu seguia radiante e com “Geni e o Zepelim” no bis (que eu cantei de cor) e “Paratodos” podia ir para casa com a alma lavada.

Porém, assim que o show terminou, algumas pessoas ainda protestavam do seu modo. “Esse bando de burguês…blá, blá, blá”, dizia uma senhora. Bem, fiquei pensando…. será que ela ganhou o ingresso? Por que mesmo a meia entrada na plateia custando R$ 245, o show do Chico era Parapoucos!

O possante azul de Totônio

Sol, 16 graus, e decidimos sair no meio da manhã para o tour pelos parquinhos da região. Já na porta do apê, Totônio pede colo para descer as escadas. São três lances e eu até entendo sua ansiedade em chegar mais rápido à garagem agarrado na sua mãe. O pai tenta segurá-lo. Mas não, quando a mãe está junto, é sempre o colo dela que ele quer.

Totônio tem um possante azul que fica guardado no porta-malas do carro. Os botões da direção já não funcionam há mais de ano. Eu, quando vejo o carrinho de plástico sempre repito: _ A mamãe promete que leva para consertar na assistência NESTA semana. Não adianta, eu sempre esqueço. Mas Totônio finge que não está nem aí e dirige numa boa. Ou melhor, nós dirigimos. O pai sai correndo atrás da mamãe.  E Totônio gosta da brincadeira. _Mais rápido, mais rápido, pede o piá. Eu não aguento mais correr. Apesar que faria bem, esquentaria o corpo. Porque o vento gelado faz a sensação térmica parecer 10 graus. Totônio está de capuz. Sempre coloco o capuz. Sempre. Eu sei que pode parecer exagero. É mais prevenção que exagero.

O “smart” costuma chamar a atenção dos pedestres. As velhinhas adoram. _Tão pequenininho e já dirigindo. Acho que vai ser piloto de Fórmula 1!, exlcama uma antiga moradora.

Seguimos em linha reta e, a uma quadra da via terminar, viramos à esquerda em direção à ciclovia. Totônio está tranquilo, curte o passeio. Até chegarmos ao primeiro parquinho do roteiro. Ele pede para descer e corre até o imenso escorregador. Vai duas vezes. Brinca por alguns segundos em todas as gangorras e já está pronto para ir embora. Mas prefere continuar a pé pela ciclovia.

No caminho, alguns bons-dias para aqueles que se exercitam. E vamos desviando das bicicletas e reparando nas árvores que beiram os trilhos do trem. Muitas amoreiras, carregadas. Logo, logo, seus frutos estarão madurinhos para os passarinhos consumirem antes de nós. Boa parte das mudas são plantadas por um morador da região chamado Napoleão. Ele conhece o pai do Totônio. Os dois jogavam tênis numa academia ali perto.

_Bom dia! Não aparece mais lá??, pergunta surpreso.

_Pois é! Não dá mais tempo… , responde o pai.

_Outras, outras…, titubeia Napoleão.

(outras quais??????)

_Outras prioridades!!, completa o pai do Totônio.

(ahhh bom)

Nos despedimos e seguimos a rota, até que bem próximo da pracinha da “Barra da Tijuca” (um conjunto de prédios tão bonitos, mas tão bonitos, que nos faz remeter ao bairro carioca, o qual não conhecia até poucos meses atrás. Agora, eu entendo por que), a criança de 13 quilos me pede colo. E só serve o meu. Você pode se perguntar que 13 quilos para um piá de quase 3 anos é pouco. Mas olhe para mim: 1,58; 51 quilos. Não consigo mais carregá-lo sem comprometer minha lombar.

Totônio brinca na pracinha quase vazia. Um menino simpático de uns 10 anos se balança e logo dá tchau para o amiguinho mais novo.

_Totô, vamos embora que está muito frio!!!

Ok. Ele concorda, mas não quer saber de seu carro usado. Prefere o colo da mamãe. Sinto que falta combustível para esse menininho que só aceitou a mamadeira pela manhã. Tento transferi-lo para o colo do pai. E então começa um show de berros e lágrimas em plena “Barra da Tijuca” curitibana. E sou repreendida: _Você não pode fazer tudo o que ele quer. Ele precisa entender isso!!!!!

Na verdade, não consigo ouvi-lo chorando e cato o guri de novo no colo. Explico pra ele que está muito pesado e a mamãe não consegue mais carrega-lo. Meus braços, para se ter uma ideia, estão desiguais. Me acostumei a carregar o piá do lado direito. Encaixá-lo na cintura. Por isso, o meu soco de direita é mais poderoso.  E na hora que eu aceno, as pelancas do esquerdo são mais visíveis.

Enfim, transporto o menino aparentemente sem energia pelo colo até nossa casa. Com direito a várias paradas para tentar fazê-lo andar, que de nada adiantaram. E o pior está por vir: três lances de escada acima. Minha lombar grita, mas penso eu que daqui a alguns anos será realmente impossível carregá-lo. Então, eu aproveito essa dor e o sol. Porque no dia seguinte, os 16 graus viraram 12 ou 10. Brrrrrrrrrrrrr