O possante azul de Totônio

Sol, 16 graus, e decidimos sair no meio da manhã para o tour pelos parquinhos da região. Já na porta do apê, Totônio pede colo para descer as escadas. São três lances e eu até entendo sua ansiedade em chegar mais rápido à garagem agarrado na sua mãe. O pai tenta segurá-lo. Mas não, quando a mãe está junto, é sempre o colo dela que ele quer.

Totônio tem um possante azul que fica guardado no porta-malas do carro. Os botões da direção já não funcionam há mais de ano. Eu, quando vejo o carrinho de plástico sempre repito: _ A mamãe promete que leva para consertar na assistência NESTA semana. Não adianta, eu sempre esqueço. Mas Totônio finge que não está nem aí e dirige numa boa. Ou melhor, nós dirigimos. O pai sai correndo atrás da mamãe.  E Totônio gosta da brincadeira. _Mais rápido, mais rápido, pede o piá. Eu não aguento mais correr. Apesar que faria bem, esquentaria o corpo. Porque o vento gelado faz a sensação térmica parecer 10 graus. Totônio está de capuz. Sempre coloco o capuz. Sempre. Eu sei que pode parecer exagero. É mais prevenção que exagero.

O “smart” costuma chamar a atenção dos pedestres. As velhinhas adoram. _Tão pequenininho e já dirigindo. Acho que vai ser piloto de Fórmula 1!, exlcama uma antiga moradora.

Seguimos em linha reta e, a uma quadra da via terminar, viramos à esquerda em direção à ciclovia. Totônio está tranquilo, curte o passeio. Até chegarmos ao primeiro parquinho do roteiro. Ele pede para descer e corre até o imenso escorregador. Vai duas vezes. Brinca por alguns segundos em todas as gangorras e já está pronto para ir embora. Mas prefere continuar a pé pela ciclovia.

No caminho, alguns bons-dias para aqueles que se exercitam. E vamos desviando das bicicletas e reparando nas árvores que beiram os trilhos do trem. Muitas amoreiras, carregadas. Logo, logo, seus frutos estarão madurinhos para os passarinhos consumirem antes de nós. Boa parte das mudas são plantadas por um morador da região chamado Napoleão. Ele conhece o pai do Totônio. Os dois jogavam tênis numa academia ali perto.

_Bom dia! Não aparece mais lá??, pergunta surpreso.

_Pois é! Não dá mais tempo… , responde o pai.

_Outras, outras…, titubeia Napoleão.

(outras quais??????)

_Outras prioridades!!, completa o pai do Totônio.

(ahhh bom)

Nos despedimos e seguimos a rota, até que bem próximo da pracinha da “Barra da Tijuca” (um conjunto de prédios tão bonitos, mas tão bonitos, que nos faz remeter ao bairro carioca, o qual não conhecia até poucos meses atrás. Agora, eu entendo por que), a criança de 13 quilos me pede colo. E só serve o meu. Você pode se perguntar que 13 quilos para um piá de quase 3 anos é pouco. Mas olhe para mim: 1,58; 51 quilos. Não consigo mais carregá-lo sem comprometer minha lombar.

Totônio brinca na pracinha quase vazia. Um menino simpático de uns 10 anos se balança e logo dá tchau para o amiguinho mais novo.

_Totô, vamos embora que está muito frio!!!

Ok. Ele concorda, mas não quer saber de seu carro usado. Prefere o colo da mamãe. Sinto que falta combustível para esse menininho que só aceitou a mamadeira pela manhã. Tento transferi-lo para o colo do pai. E então começa um show de berros e lágrimas em plena “Barra da Tijuca” curitibana. E sou repreendida: _Você não pode fazer tudo o que ele quer. Ele precisa entender isso!!!!!

Na verdade, não consigo ouvi-lo chorando e cato o guri de novo no colo. Explico pra ele que está muito pesado e a mamãe não consegue mais carrega-lo. Meus braços, para se ter uma ideia, estão desiguais. Me acostumei a carregar o piá do lado direito. Encaixá-lo na cintura. Por isso, o meu soco de direita é mais poderoso.  E na hora que eu aceno, as pelancas do esquerdo são mais visíveis.

Enfim, transporto o menino aparentemente sem energia pelo colo até nossa casa. Com direito a várias paradas para tentar fazê-lo andar, que de nada adiantaram. E o pior está por vir: três lances de escada acima. Minha lombar grita, mas penso eu que daqui a alguns anos será realmente impossível carregá-lo. Então, eu aproveito essa dor e o sol. Porque no dia seguinte, os 16 graus viraram 12 ou 10. Brrrrrrrrrrrrr

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