O vírus e a corrida do álcool gel

Tempos de crise deveriam servir de ensinamento para evoluirmos enquanto pessoas, amigos, irmãos, enquanto seres humanos. Essas fases cíclicas pelas quais passamos deveriam provocar em cada um de nós um momento de reflexão. Pararmos um instante de olhar para o nosso umbigo e enxergarmos ao redor a fim de tentar, pelo menos, entender o motivo de tudo isso. 

Mas, por enquanto, não é o que ando percebendo por aí. Lembro que quando surgiu o temido H1N1, a personagem mais cobiçada da história era o álcool gel, produto que novamente está fazendo a fama com a chegada desse novo vírus, antes chamado de corona, agora de Covid-19. 

Teorias da conspiração à parte (será que foi criado em laboratório para a China, enfim, dominar o mundo?), a disseminação desse vírus mutante, que se espalha com mais rapidez do que o vírus da gripe comum e do H1N1, já provocou uma mudança radical no cotidiano da população mundial. Países em quarentena, pessoas isoladas, evitando contanto humano, trabalhando remotamente. Soa a mim um tanto metafórico. Se às vezes nos queixamos que as redes sociais nos repelem fisicamente, veio um vírus para nos separar de vez. Na Itália, pessoas pegam os ônibus sem abrir a boca com medo do contágio. Nesse mesmo país, moradores tentam passar o tempo cantando nas sacadas dos prédios.

Ao meu redor, porém, os hábitos continuam os mesmos. Pessoas reclamando que não conseguirão dar conta de trabalhar em casa e ao mesmo tempo cuidar do filho, impedido de ir à escola. 

Tomando o exemplo do restante do mundo e já vislumbrando o que poderia ocorrer conosco, imaginei que se fosse ao mercado dali uma semana não encontraria mais álcool gel, ou papel higiênico. PH ainda tem, mas o álcool, ah, esse só no mercado negro agora. Até armazéns que vendem produtos a granel estampam na vitrine: “temos álcool gel”. 

Hoje fui à farmácia para comprar o leite em pó do meu filho. Num intervalo de cinco minutos, duas pessoas perguntaram sobre o álcool. Uma mulher apavorada queria saber quando era a previsão de chegada.

Num mercado perto de casa acabou até o suco de laranja. Eu me pergunto: quem toma tanto suco de laranja em 15 dias? Será que quando saímos de férias parece que o mundo vai acabar também? 

Ora bolas, desde a pandemia de H1N1 deveríamos ter mantido esse hábito de usar álcool gel. E se não tem o tal álcool 70, use vinagre. Adapte-se. Crises são feitas para isso. Pare de reclamar e passe a meditar. Aproveite esse tempo, que sejam 40, 15 ou 7 dias, para refletir sobre seu estilo de vida, para ficar perto da família, para pensar na paranoia em que vivemos hoje. 

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Foto por Bruna Tovar Faro em Pexels.com

Portanto, acredito que a evolução do ser humano, no sentido de exercer a compaixão, a paciência, a empatia, mudar o foco para o outro, está longe de acontecer. O egoísmo, o desespero e o medo são tão contagiosos quanto um vírus. 

A desordenada mala da vida

A mala que guardou os macacões, as mantinhas, o cobertor, as fraldas, as luvinhas e sapatinhos de crochê – e acompanhou toda a espera do nascimento do primeiro e, talvez, único filho – agora vai e volta da segunda casa de Totônio. É um ir e vir com o qual ainda não me acostumei. 

A bolsa de fundo branco, riscas azuis e alça bege não se parece com malinha de bebê, que normalmente tem estampada uma coroa de príncipe. Nunca quis uma mala de príncipe. Acho kitsch demais. 

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Mascotinho do Totônio.

Como há quatro anos, a bolsa é novamente arrumada com capricho e cuidadosamente preparada para que nada falte, principalmente o coelhinho, o bichinho de pelúcia sem nome, que Totônio ganhou dos avós maternos na sua primeira Páscoa, aquela festa que representa a ressurreição de Jesus Cristo. A foto de Totônio com seis meses de vida, no bouncer de olhos arregalados, segurando o coelhinho, está pendurada num quadro na parede. O bichinho de pelúcia agora tem outro significado: transformou-se num objeto de transição, que leva o cheirinho do “lar oficial” de Totônio para sua outra casa.  

Quando a mala retorna, às vezes é difícil encontrar o mascotinho na bagunça: roupas limpas entrelaçadas com usadas, pijamas misturados com roupa de sair, cuecas embaralhadas com meias. Eu olho para o estado dessa confusão e me deprimo um pouco, porque me parece falta de cuidado, de atenção, de zelo, de carinho. Olhar para essa mala me passa uma sensação ruim, não só porque lembra união e separação, início e fim, mas, sobretudo, porque representa o estado de confusão que Totônio e eu estamos atravessando.

O modo como tudo é despejado e socado dentro da mala talvez seja a metáfora da pressa motivada por outro verbo com o qual também não me habituei: devolver. “Que horas posso devolvê-lo?”. Como se Totônio fosse uma coisa ou um carro ou um sei lá o quê. Nós devolvemos objetos dos quais não gostamos, devolvemos ainda o carro alugado, o vestido de festa emprestado, mas não crianças, filhos. 

Talvez fosse mais fácil superar determinadas fases da vida se conseguíssemos devolver sentimentos. “Meu amor por você se desgastou. Quero devolvê-lo. Toma aí”. E assim como numa prateleira vazia, um espaço desmemoriado em nosso ser estivesse pronto para receber uma nova dose de amor. Só que na vida real, dos plebeus, não funciona desse jeito.

Totônio, na verdade, não dava muita bola pro coelhinho, mas os dois foram obrigados a criar laços fortes e seguir lado a lado, da Páscoa ao Natal, essa festa que representa o nascimento de Jesus Cristo. Essa festa que costuma reunir as famílias em torno de uma mesa gigante com comida farta, amor farto, bebida farta e, por vezes, confusão farta. A confusão da mala. Na vida de Totônio, tudo é em dobro agora: casa, Natal, presente; talvez um dia, família. Meu desejo maior é que o amor, esse sentimento irreversível, venha sempre em dobro para Totônio nessa mala desordenada que é a vida.

O dia em que salvei meu pai

Meu super-herói não é mito. É real. De carne e osso. Usa capa, mas só se for de chuva. Voa só de avião. Mas, para mim, ele sempre teve superpoderes. Ele sempre me salvou.

Me salvou quando caí de bicicleta pela primeira vez no quintal de casa, onde havia grama verdinha, um pinheirinho, uma garagem com piso de lajota e uma família feliz. Me salvou quando não conseguia entender aquela regra chata de matemática. Me salvou quando eu queria sair com as amigas e não sabia dirigir. Me salvou quando precisei (e preciso) de dinheiro. Me salvou com apoio moral, com educação, segurança, carinho e amor. Me carregou no colo até o hospital quando tive uma luxação e não deixou que o médico engessasse meu joelho.

Queria me salvar quando precisava de emprego, mas eu, orgulhosa, dizia que – só desta vez – conseguia fazer tudo sozinha. Como fui injusta.

Mas teve um dia quando o inverso aconteceu. Papai havia caído, batido a cabeça e desmaiado na casa da minha vó, em Santos. Foi submetido a uma tomografia no pronto-socorro, que, aparentemente, não acusou nada grave.

De volta a Curitiba, numa tarde, ele caminhou quilômetros e se queixou de uma das pernas. Que precisava arrastá-la para andar. No dia seguinte, ele entrou no banheiro e não saía mais de lá.

_ Pai, tá tudo bem?

Quando abriu a porta, só dava risada. Ria, ria, ria. Não, não estava tudo bem.

Fui pra o trabalho (ainda me pergunto como consegui) e pedi que minha mãe me telefonasse caso percebesse alguma piora. Eu estava na redação do jornal, sentada em frente ao computador, quando o telefone tocou. Atendi trêmula e saí correndo. Não me lembro a que velocidade dirigi até o nosso prédio. Morávamos no quarto andar e foi uma odisséia descer as escadas. Meu pai foi carregado, de um lado, pelo zelador e, do outro, por meu irmão. E como foi difícil colocá-lo no meu Ka.

Também não me recordo como pude conter o nervosismo e dirigir até o hospital. Só sei que parei o carro na frente e, prontamente, surgiu um funcionário com uma cadeira de rodas. Meu super-herói sumiu pela porta da emergência. Sorrindo, sem saber se voltaria vivo de lá.

A agonia daquela noite foi uma das sensações mais horríveis que já tive. Eu chorava, chorava, chorava…cansei de chorar no saguão do hospital. Estava exausta, com o rosto ardendo com o sal de minhas lágrimas. Minha neurologista passou por mim, mas nem teve coragem de se aproximar. O marido dela é quem deveria operar meu pai, drenar o coágulo. Só que ele estava viajando e outro médico assumiu a cirurgia.

Foi uma noite interminável. Meu pai foi parar na UTI. E ele conta que ouviu alguém comentar sobre um erro na manipulação do cateter. Foi por pouco. Por 12 horas que meu pai se salvou. Um médico disse isso. Por apenas meio dia, ele não estaria aqui hoje pra abraçar seu neto. E Deus queira que ele possa salvar Totônio quando cair de bicicleta, ou tiver que decifrar uma equação matemática. Deus queira que ele viva para sempre.

 

Eu vivo sempre no mundo da lua

Ah…a Lua. Esse satélite natural que atrai a Terra e olhares apaixonados. Aos cinco anos, fiquei admirada ao constatar que aquele pedaço de rocha preta exposto no museu do Kennedy Space Center fora extraído da superfície lunar. Iluminada pelo Sol, ela se transforma na lanterna que acende minha mente e meu terraço. E subo lá toda vez que me sinto angustiada. Pode ser um clichê olhar para o céu quando bate o desespero. Mas deitar sob o tapete escuro da infinitude do universo, debaixo de estrelas que já são poeira cósmica, me faz sentir a própria poeira. Sim, somos pequenos. E, por sermos pequenos, deveríamos ser menos vaidosos.

Há 50 anos, no dia 16 de julho, a Apollo 11 decolava rumo à Lua com seus tripulantes Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin “Buzz” Aldrin. Meu pai tinha 27 anos de idade e minha mãe, 15. Cinquenta anos depois, eu ainda dirijo meu Citroën (e não um carro voador), voltando da casa de meus pais com Totônio dormindo na cadeirinha, no banco de trás. O céu está claro, limpo. Na Nossa Senhora da Luz, levo um susto quando olho para a esquerda.

_ Minha Nossa Senhora!! Hoje tem eclipse!!!

Um eclipse parcial lunar para comemorar o lançamento da missão americana ao satélite.

E hipnotizada, conduzo o C4 a 40 quilômetros por hora. Os demais motoristas me ultrapassam. Eu dobro a primeira rua à direita rumo à minha casa. Subo os quatro lances de escada até meu apê com Totônio no colo. O guri continua dormindo. Vou para a “laje”. E lá está ela. A Lua. Encoberta parcialmente pela sombra do nosso planeta. Nosso lindo balão azul.

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Há 50 anos, no dia 19 de julho, Neil Armstrong pisa na Lua. Meus pais assistiam pela televisão à emocionante cena e ao discurso magnífico do astronauta: “um pequeno passo para o homem. Um grande salto para a humanidade”.

“If you believe they put a man on the Moon”, já cantava REM. Há quem diga que tudo não passou de encenação. Que a Lua era um estúdio de televisão na Califórnia. Pelo simples motivo que foguete nenhum é capaz de ultrapassar o cinturão de Van Halen, zona de alta radiação que envolve a Terra. Um professor me disse, ano passado, que Neil Armstrong em pessoa negou ter pisado na superfície lunar num vídeo circulado pelo YouTube. Mas não conheço ninguém além desse teacher que afirmou ter visto o tal vídeo.

Fake news em 1969. Culpa do cinturão hard rock de Van Halen? De Kennedy que queria vencer os russos na corrida espacial? Mentiram para o mundo? Mas o que seria, então, a tal rocha exposta na Nasa? Ônix? Da Chapada dos Veadeiros?

Fato é que 50 anos depois que o homem supostamente pisou na Lua, nós, pobres terráqueos, discutimos os likes ocultos do Instagram. Uma pequena preocupação para pequenos seres humanos. Pra que pisar na Lua, então, se já vivemos no próprio mundo da Lua com suas teorias da conspiração?

 

A carta que minha mãe escreveu

Quem dera ser para o Totônio metade do que minha mãe foi e continua sendo pra mim. Minha mãe é a dona Silvia, que sempre teve 100% de alcance e 100% de envolvimento nesse nosso relacionamento de quase 40 anos. As métricas dela são admiráveis, mas, é claro, que eu não curtia e compartilhava 100% de tudo. Diria que quase tudo. Porque eu e dona Silvia sempre fomos muito próximas, muito cúmplices. E quando os laços são tão apertados assim, difícil esconder os sentimentos. O sexto sentido materno fala mais alto.

Dona Silvia casou, largou a faculdade de direito para constituir família. E eu sou muito grata por essa opção que ela tomou na vida. Não quero jamais que ela se sinta frustrada por isso. Minha mãe canalizou a energia para formar seres humanos dignos, honestos, verdadeiros e espero que tão merecedores de um amor incondicional como o dela. E grande parte do que sou hoje, sou por causa dela e pretendo ser para Totônio.

Para dona Silvia, dia das mães é todo dia. Por isso, não nos preocupamos mais com datas, em trocar presentes, em sair pra almoçar fora. Preferimos estar presente, trocar abraços, olhares, nos alimentar de memórias. Como essa carta que eu encontrei quando revirava uma caixa com coisas antigas guardada no fundo de uma gaveta. Eu estava triste, tristinha, num desses dias em que você se sente mal, rejeitada. Num desses momentos em que você se pergunta se está indo na direção certa.

E, então, eu encontro essa página de caderno toda escrita à mão no dia em que fiz 31 anos. No meu aniversário anterior, nós duas tivemos um desentendimento, cujo motivo nem me lembro mais. E essas palavras, que estavam esquecidas na gaveta da estante, ficarão agora gravadas aqui:

No cabeçalho, ela trazia essa frase (talvez parafraseando algum autor que tenha lido):  “Não é preciso acumular conhecimento. Experiências, sim. Isto enriquece mais a alma que o cérebro”.

“Amada filha

Janaina,

Neste seu trigésimo primeiro aniversário de vida, não tenho quase nada mais pra lhe dizer. Tive a graça e a benção dos céus, deuses e deusas, de poder estar sempre ao seu lado todos estes divinos anos. Talvez isto não tenha sido assim tão saudável pra você, porém, nunca saberemos ao certo.

Você foi minha primeira e intraduzível emoção – o fazer nascer um ser humano – que viria a ser da melhor e mais pura essência. E é isto o que importa enquanto estivermos por aqui –  a nossa natureza – a receita da qual fomos feitos. Os conceitos, os sentimentos (bons) – as atitudes – a moral, a dignidade de poder habitar este planeta sem deixar manchas – marcas – que possam transformar, um dia, você num ser menor.

Eu poderia citar aqui muitos adjetivos, porém, no meu minúsculo dicionário, no meu quase nada saber, palavra alguma traduziria você. Só lhe peço – por você, não por mim: tente não sofrer. Faça o que não fui capaz, encontre o que até hoje nunca consegui: viver bem, sem culpa. Siga sempre de cabeça erguida – pensando, sempre, primeiro em você. Isto não é egoísmo. É ser o melhor, para passar o melhor. Inteira. Resolvida. Verdadeira. Ainda que muitos se afastem de você. Melhor que fingir. Que atuar.

(…)

Siga a “voz do coração” sim, mas a razão é fundamental para o equilíbrio. Se precisar voltar ao passado, faça-o apenas para resgatar o seu melhor.

Cuide bem desse corpo que lhe foi emprestado. Tenha sempre o indispensável para uma vida boa. Não se abale com tanta matéria ao seu redor. Sabemos que grande parte de tudo o que vemos é ilusão – isto não é papo furado, é a certeza, a experiência…

Nunca deixe que a turbulência de certas épocas da vida tire sua paz interior. Mantenha-se no controle para superar: tudo passa, tudo sempre passará.

Somente algo devastador pode tirar você do prumo.

Chorar faz um bem enorme, mas, todos os dias, certamente que não. Nunca dê um “dane-se”, todavia não se afogue em mágoas.

Encontre seu equilíbrio em tudo quanto puder. Viver bem e ser feliz de quando em quando é a base para que o curso do seu rio não leve seu barco a ficar encalhado.

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Desejo que no seu barco haja sempre mais alegria e realizações e que o nome dele seja harmonia.

Fui, mãe”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Memória trágica de Curitiba

A memória visual que tenho de Curitiba é trágica. Quando passo, por exemplo, pela região da Praça 29 de março, sempre me lembro de um andarilho encontrado morto lá, debaixo de uma marquise. Quando paro com o carro no sinal da Tiradentes, lembro aquela moça morta pelo ex-marido (ou namorado?) ao lado do Mercadorama. E por aí seguem minhas recordações de mortes, que vão me perseguir pelo resto da minha vida.

“I see dead people”. Esse era meu bordão no jornalismo policial; nessa vida nelson rodriguiana. Mas não eram fantasmas que eu via. Eram mortos reais. Mortinhos da Silva. Bebês que morreram em acidentes de trânsito na estrada, presos massacrados em rebelião, chacina em Colombo, crianças assassinadas por padrastos, chacina em Almirante Tamandaré, matadores de velhinhas indefesas, chacina em Curitiba. Eu vi todas essas pessoas mortas. Uma por uma. Desci barrancos; caí na lama; pisei em sangue pra ver cada detalhe. Cada faca cravada no peito. Cada bala que crivou o crânio.

Quase morri na BR-277 esmagada por um caminhão por causa da curiosidade de um  motorista irresponsável. O energúmeno freou bruscamente para ver um acidente e, por pouco, não causou outro. Me dá um frio na espinha quando lembro aquele caminhão quase tombando em cima de mim e do fotógrafo, no acostamento da rodovia. Lembro até dos meus batimentos cardíacos acelerados.

“Mas você precisa ver tudo isso?”, minha mãe sempre me perguntava. “Preciso. É a minha realidade”. E foi por muito tempo.

“Como é que você consegue comer uma macarronada depois de ver tanto sangue?”, era uma indagação comum. A gente se acostuma. Sente fome. Cria o tal escudo. A barreira. Infelizmente. Só que o meu escudo era feito de um material não muito resistente.

Trabalhar nessa área foi um dos maiores desafios na minha carreira (agora quase estagnada). Na verdade, um dos maiores desafios da minha vida. Por quase três anos fui repórter e depois editora no Diário Popular. Ainda engatinhava na função quando tive um dos dias mais pesados da minha vida. Fui lá para o Sítio Cercado (se não me engano), onde o padastro havia assassinado as duas enteadas.

Nós, da imprensa, esperávamos no portão da casa para entrevistar policiais e fazer imagens. Quando saem lá de dentro dois gavetões do IML e as duas crianças dentro. Eu olhei aquela cena. Engoli a saliva. Voltei para a redação. Escrevi o texto. Fui pra casa e pra balada. Mas eis que aquela cena surge, assim, como um relâmpago. Passei mal. Muuuito mal.

Hoje no prédio do extinto jornal funciona uma academia de ginástica. Minhas amigas lembram até hoje quando enviei um e-mail a elas avisando: “cuidado: cenas fortes”. Elas pensaram que se tratava de uma brincadeira. De mau gosto, sim. Quando abriram a foto anexada, chocaram-se com o legista do IML carregando uma cabeça degolada. A foto foi capa do jornal. No dia seguinte, uma saraivada de críticas por todo lado. Se fosse hoje, acho que essa capa nunca seria publicada.

Na Tribuna do Paraná, consegui pegar a fase do “espreme que sai sangue”. E foram incontáveis cenas de terror diário. Os plantões de final de semana eram um verdadeiro pesadelo porque chegávamos a cobrir mais de 30 homicídios na capital e região metropolitana entre sexta e domingo. Era preciso registrar tudo. Nossas idas ao IML eram frequentes. Até hoje eu não consigo entender como alguém consegue trabalhar naquele lugar. Sentindo aquele cheiro de chorume. O dia que entrei na sala de autopsia fiquei paralisada diante de um morto. Branco, parecia um boneco de cera. Me deu vontade de cutucar: “hey, tem alguém aí?”.

As capas da Tribuna sempre foram supercriativas. De certa forma era preciso para aliviar a dura realidade. Duas histórias foram curiosas. Havia dias, sim, em que ninguém era morto. Eram raros, mas existiam esses momentos. Aleluia! Então comemorávamos a lista do IML sem nenhum óbito por arma de fogo, arma branca, acidente etc.

Mas, e agora, o que eu vou gravar no meu boletim? – preocupou-se um colega de rádio.

Até que começamos a conversar com o motorista do rabecão sobre os “fantasmas do IML”. Fui anotando despretensiosamente os relatos mal assombrados do colega. Cheguei à redação, escrevi outras matérias e deixei a história das almas penadas para o final. Em cinco minutos a matéria estava pronta. E eu pensei: “nunca será capa do jornal”. Na manhã seguinte, adivinha?

Outro caso que também não tinha a menor pretensão foi a história do cliente de um restaurante de posto de combustíveis na beira da estrada, em Pinhais, que foi agredido até a morte por um segurança. Motivo: o cara insistia em fumar no posto. Não pode! É proibido! O delegado me contava o causo rindo ao telefone. O segurança alertou o rapaz várias vezes e partiu para a ignorância. No dia seguinte, a manchete da Tribuna era essa: “Cigarro mata”.

Mas o pior dos piores mesmo foi cobrir a chacina no Presídio Central em Piraquara (PCE), onde to-do santo ano praticamente tem rebelião. Mas essa história fica para um outro post.

Só sei que, mesmo tendo permanecido por tanto tempo nessa área, a morte é um assunto que me assusta. Mesmo tendo visto dezenas de mortos na minha frente, não consigo lidar direito com perdas. Principalmente de pessoas próximas. De pessoas queridas. Morte física, ou não.

 

 

 

 

 

 

Realizei um sonho de infância

Sinto uma enorme satisfação em ter realizado um sonho de infância. Quando eu era criança, não queria ser executiva de multinacional ou presidente da república. Eu simplesmente queria ser jornalista. De jornal impresso mesmo. Uma espécie em extinção.

E essa paixão eu devo a meu pai. Sempre cercado de jornais e revistas. E livros. Guardou vários deles desde a época da faculdade de direito com a esperança que eu seguisse o mesmo caminho. Ele se formou advogado, porém pouco exerceu a profissão. O que lhe dava prazer era ser cronista esportivo.

Além dos jornais, tinha muito contato com gravadores e fitas K7. Mas era do papel que eu gostava. Nunca me esqueço que contava os dias da semana para ler o suplemento infantil do jornal que ele assinava. E lembro do primeiro jornalzinho que fiz para minhas bonecas lerem. Minhas Barbies eram mais informadas que muita gente!

Quando terminei o terceirão, aos 16 anos, fiquei em dúvida: letras ou jornalismo? Minha timidez talvez seria um impedimento para cursar comunicação social, mas esse curso foi minha primeira opção. Durante a faculdade, fiz estágio no Caderno G, da Gazeta do Povo, e descobri minha vocação. Nunca me esqueço do dia em que o escritor e roteirista Valêncio Xavier se aproximou de mim e disse: “Você tecla como se estivesse tocando piano”.

No entanto, não me formei empregada (por conta da minha cabeça dura e alguns mal-entendidos). E demorou quase quatros anos para eu realizar meu sonho. Por causa de uma vizinha, conheci a Ana, que era repórter do extinto Diário Popular (e depois virou editora-chefe). Graças a elas, eu consegui uma vaga de repórter. A proposta era escrever para a editoria de Cultura. Minha empolgação era enorme. Só que….me chamaram pra conversar e…”você topa fazer policial?”. Hmm…como é que é? Repórter policial? Eu entendi bem?

A vontade de ser repórter era tanta que aceitei o desafio antes de pensar se daria conta. Para isso, porém, era preciso passar no teste. Teste prático para ver se eu aguentaria o tranco. O combinado era que o Adilson, o fotógrafo, me avisaria pelo celular sobre um “C4” (código da polícia para “morte violenta” – hoje eu dirijo um C4 e nunca me esqueço do código).

Nessa época, eu trabalhava de revisora numa agência de publicidade. Lembro que o Adilson passou na agência com o carro da reportagem. Então fui lá para o Bairro Alto (acho que era esse o bairro). Um acidente de moto. Com criança envolvida. Isso foi em 2005. A criança foi socorrida e o pai dela estava lá: estatelado no asfalto.

Quando cheguei ao local do acidente, tentei não prestar muita atenção aos detalhes. Entrevistei quem eu tinha que entrevistar e voltei para o trabalho. Precisava escrever a matéria, que foi publicada. Talvez eu tenha ainda o recorte do jornal guardado numa pasta qualquer.

Enfim, consegui o emprego e me tornei repórter policial, função que assumiria por quase nove anos ininterruptos. E até hoje eu me pergunto como suportei ver tanta dor.

 

 

 

O inglês de carne e osso

Preciso entregar um texto sobre o Coldplay desde o ano passado, quando assisti ao documentário a “Head Full of Dreams” sobre os 20 anos de estrada da banda inglesa. Estou adiando devido ao turbilhão de acontecimentos que transformaram minha rotina nos últimos três meses. Mas agora, talvez, eu consiga. E quem sabe começando por aqui.

Tenho uma história com Coldplay. Eu e milhões de fãs ao redor do mundo, é claro. Mas toda vez que eu ouço Coldplay, volto no tempo em que a MTV transmitia os clipes da banda. Volto no tempo quando minha mãe descobriu que tinha câncer. E aí minha história começa.

É claro que eu já conhecia “Yellow”. Quem não conhecia? Aliás, o primeiro álbum é espetacular. Redondinho. E o documentário mostra bem como Chris Martin tinha certeza que chegaria ao topo. Predestinado.

“Nobody said it was easy”. “The Scientist”. Segundo álbum do Coldplay. A Rush of Blood to the Head. 2002. Se não me engano, foi por causa do clipe dessa música na MTV (saudosos Top 10, Top 20) que minha mãe conheceu a banda. É triste e inesquecível. Sobre um acidente de carro filmado de trás pra frente. “I’m going back to the start”. A letra termina assim.

“Clocks”. Lembro da minha mãe assistindo ao clipe dessa música todo santo dia. Menos triste. “Confusion that never stops/The closing walls and the ticking clocks”.

2007. Show do X&Y (terceiro da banda) no Via Funchal, em São Paulo. Comprei meus ingressos pela internet. Tinha um PC 486 com dial-up. A primeira tentativa não deu certo. Entrei no site novamente e lá se foram meus assentos. Consegui comprar na quarta fila (se não me engano). R$ 400 na VIP. Duas inteiras. Uma fortuuuuna hoje, imagine na época. Paguei com meu salário de editora.

Perto dos shows do Coldplay que lotam estádios hoje em dia, os de 2007 foram superintimistas. No Via Funchal, cabiam 2.700 sortudos. E foi simplesmente inacreditável. Sentei do lado de uma menina de Manaus. E no final do show, saímos da fileira e fomos para a frente do palco. De cara com a banda. Tocamos na mão do Chris.

Só me arrependo de não ter levado máquina fotográfica. Total absurdo. E minha tia, que morava em SP, ainda conseguiu assistir ao final do show de graça e registrou umas fotos pelo celular dela (que não era um BlackBerry, top na época).

Extasiadas, pegamos um táxi para voltar pra casa dela. Só que não. Fomos nós para o bar do hotel na Oscar Freire (acho que era o Fasano) onde a banda estava hospedada. Mas, calma, eu não queria tietar. Afinal, estava sem máquina fotográfica. Eu tinha um propósito.

O bar estava vazio. E, sinceramente, achava impossível chegar perto dos caras. O máximo que podia acontecer era jantarmos e pronto. Lembro que eu pedi um Cosmopolitan ao estilo Sex And The City e que havia um trio tocando bossa nova.

Até que…de repente… Chris Martin, ele mesmo, aparece em carne e osso. Eu não sabia o que fazer. Disfarcei. Ele ficou lá curtindo uma musiquinha e….foi embora. Eu fui atrás. Precisava falar o verso de “Clocks” adaptado.

E o mais incrível foi que um rapaz que trabalhava no hotel me ajudou. Me lembro perfeitamente do Chris, com quase 1,90 de altura, cabelos encaracolados, olhos azuis. olhando pra baixo, em minha direção. Eu mal conseguia falar português, imagina inglês. Mas ele captou a mensagem (o rapaz do hotel me ajudou de novo). “Am I part of the cure, or am I part of the disease?”, diz o verso de “Clocks”. E eu consegui falar pro Chris, em inglês, que ele foi parte da cura da minha mãe. Ele deu um sorrisão. I got it!

E assistindo ao documentário, dia 14 de novembro de 2018, lembrei-me de tudo. Soube que X&Y foi o álbum de uma fase difícil da banda, depois do estrondoso sucesso que foi o segundo disco. Assim, tudo fez mais sentido. Até o fato de eles se apresentarem de preto. E quando tocou “Yellow”, é claro, eu chorei. E no cinema, nos letreiros, eu chorei ouvindo “The Scientist” ao lado da minha mãe.

E graças à minha tia, tenho uma recordação com poucos pixels, mas com uma resolução de vida incrível!

 

Procurando a dona do maltês

Eu aprendi com a vida a não criar expectativas. Isso vale em relação a amigos, parentes, desconhecidos, quem quer que seja. Não espere nada de ninguém. É uma das frases que mais me faz sentido hoje em dia. Porque percebo que é a melhor forma de evitar decepções e encarar a vida de forma mais leve.

Eu aprendi com a vida a cultivar o altruísmo. E isso vale em relação a amigos, parentes, desconhecidos, quem quer que seja. Até animais de estimação. Não fazia ideia que o termo foi criado pelo filósofo francês Auguste Comte. Ser solidária e generosa com as pessoas é uma atitude que decidi adotar e que venho colocando em prática. É o oposto de quem decide ficar preso em seu casulo, alimentando o egoísmo, fazendo vistas-grossas, mesmo sabendo que alguém precisa de ajuda.

Eu quero ajudar e, às vezes, consigo. No ano passado, eu saía do laboratório onde fui fazer um hemograma e outras dezenas de exames quando um cachorrinho branquinho fofinho cruzou a esquina em minha direção. Meu carro estava estacionado no mercado, a algumas quadras dali, e eu voltava a pé quando a bolinha de pelo apareceu.

Latindo bravo, ele parou em frente a uma casa e começou a “discutir” com outro cachorro, como se estivesse implorando ajuda: “Estou perdido. Me deixa entrar, por favor!”. Parei por um segundo. Do outro lado da rua, um rapaz que trabalhava numa loja de aparelhos hospitalares saiu na porta para observar a cena. Ele dava risada, então, eu gritei: “Você já viu esse cachorro por aqui?”. Ele acenou negativamente com a cabeça.

O dog estava nervoso. Quando eu chegava perto, avançava em mim. Sem condições de pega-lo no colo. Levaria uma mordida feia.

Eis que surge uma pedestre, que percebeu o drama do animal. “Nossa, ele está perdido”. Então, eu negociei com ela e pedi gentilmente para que a moça ficasse tomando conta do cachorro, enquanto eu procuraria a dona dele pelas redondezas.

Trato feito. Perguntei para uma faxineira, que limpava o prédio da esquina, se ela conhecia o cachorro branquinho. Mais um não. Virei a rua à direita, e percebi que ali havia um petshop. Então, desconfiei que o cachorro teria fugido de lá. Uma hipótese bem plausível. Toquei a campainha e nada. Continuei andando pela rua, quando uma mulher desesperada, de camiseta laranja, veio correndo em minha direção.

“Só pode ser ela”, pensei. E era. Ou quase.

_A senhora perdeu um cachorro branquinho?

_É da minha filha. Onde ele está? Minha filha vai me matar. Meu marido saiu de casa e deixou a porta da garagem aberta. Esse cachorro é um maltês, custou R$ 2.000, contou a mulher.

Fomos nós duas atrás do floquinho. Quando viramos a esquina novamente, a mulher desconhecida ainda cuidava dele. A avó do maltês o agarrou e agradeceu: “Muito obrigada. Deus abençoe”. Só deu tempo de perguntar o nome dele, mas já faz tanto tempo que nem me lembro mais. Era um nome diferente. Depois, ela foi embora. Todos fomos embora. Antes do resgate, pensei por um instante se deveria ir embora. Mas não tinha como deixar o cachorrinho ali. E agradeci a mulher que me ajudou. Ainda existem pessoas como nós neste mundo.

Eu também aprendi com a vida a agradecer. Isso vale em relação a amigos, parentes, desconhecidos, quem quer que seja. Não crie expectativas, seja altruísta e grata. Porque percebo que é a melhor forma de evitar decepções e encarar a vida de forma mais leve.

Chico Buarque para poucos

Numa sexta-feira dessas, fui ver um trio tocar Chico Buarque. Era na Sociedade Operária Beneficente 13 de maio, fundada na metade do século XIX. A noite estava quente, perfeita pra sair, mas o lugar estava vazio. Quem dera tivesse um par pra rodopiar pelo salão. Enfim, não importa. Eu só queria cantar “Apesar de Você” em alto e bom som. Como disse minha amiga, era o grito que estava preso na garganta. Era outro contexto da canção, mas o verso “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia” me fazia todo sentido.

Então eu me dei conta que o ano estava terminando e passei longos meses sem escrever sobre o show do Chico. Agora, é como fazer uma retrospectiva. A turnê passou por Curitiba em agosto. Inverno. Comprei os ingressos logo no primeiro dia de venda e para o primeiro dia, pois sabia que iriam esgotar logo (três noites com o teatro lotado). Pra mim e minha mãe. Porque o combinado era sentar perto do palco. Sem brigas dessa vez, lá fomos nós duas de Uber para o teatro Guaíra. Sentamos na quinta fila. Ou seria na oitava? Enfim, perto o suficiente para ver aquele sorriso encantador!!!!

Me vesti discretamente. Meia calça, saia, blusa, brincos compridos. Tudo preto e branco. Apenas meu esmalte era vermelho e destoava do visual. Parecia uma jovem senhora. No saguão do teatro, percebi que muita, mas muita gente estava de vermelho. Me senti enturmada por causa do esmalte. Muita gente vestida como se tivesse ido direto do trabalho, de moletom, calça jeans. Muita gente vestida pra protestar mesmo. Todos democraticamente vestidos para assistir ao show do Chico, que no dia anterior foi visitar o amigo ex-presidente da República que ainda está preso na sede da PF aqui em Curitiba.

Fui lá para o meu lugar. Alguns rostos conhecidos, que não me reconheceram, ou fizeram de conta que não era eu. Ótimo! Prefiro assim (às vezes). Lá nas primeiras filas, tinha um guri que vestiu a camisa do time de futebol do Chico, o Politheama, por cima de outra.

O show começa (recorrendo ao set list no Google, porque a memória já era) com a homenagem a Assis Valente, “Minha embaixada chegou”. E eu me dei conta, logo de cara, que Chico estava mais leve do que o primeiro show que vi. Sorrindo. Começa com a voz trêmula, se aquecendo para as demais 30 canções do repertório. Perfeito.

Na quarta música, quase entrei em pânico. “Iolanda”. Nome da minha vó que está com Alzheimer. Virei pra minha mãe e intimei: “Não vai chorar, hein!”. Ela olhou, sorriu e eu segurei o choro. Perto da metade do show, Chico cantou “A volta do Malandro” e “Homenagem ao Malandro”. Cantei alto e dei risada mais alto ainda! Ironia.

Depois de vinte e duas músicas, chegou o momento em que a plateia se posicionou. “Sabiá”: “Vou voltar/Sei que ainda vou voltar…”, parceria com Tom Jobim. Chico cantou a música em pleno ano de 68, durante o III Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, Rio de Janeiro. E venceu a competição.

E praticamente o teatro inteiro começou a gritar “Lula, livre”. Algumas vaias, mas meus ouvidos entenderam que os do contra eram minoria ali. Bem, eu preferi me abster. Ficar na minha. Chico também ficou na dele. Não fez discurso. Não precisa.

Eu seguia radiante e com “Geni e o Zepelim” no bis (que eu cantei de cor) e “Paratodos” podia ir para casa com a alma lavada.

Porém, assim que o show terminou, algumas pessoas ainda protestavam do seu modo. “Esse bando de burguês…blá, blá, blá”, dizia uma senhora. Bem, fiquei pensando…. será que ela ganhou o ingresso? Por que mesmo a meia entrada na plateia custando R$ 245, o show do Chico era Parapoucos!