O dia em que salvei meu pai

Meu super-herói não é mito. É real. De carne e osso. Usa capa, mas só se for de chuva. Voa só de avião. Mas, para mim, ele sempre teve superpoderes. Ele sempre me salvou.

Me salvou quando caí de bicicleta pela primeira vez no quintal de casa, onde havia grama verdinha, um pinheirinho, uma garagem com piso de lajota e uma família feliz. Me salvou quando não conseguia entender aquela regra chata de matemática. Me salvou quando eu queria sair com as amigas e não sabia dirigir. Me salvou quando precisei (e preciso) de dinheiro. Me salvou com apoio moral, com educação, segurança, carinho e amor. Me carregou no colo até o hospital quando tive uma luxação e não deixou que o médico engessasse meu joelho.

Queria me salvar quando precisava de emprego, mas eu, orgulhosa, dizia que – só desta vez – conseguia fazer tudo sozinha. Como fui injusta.

Mas teve um dia quando o inverso aconteceu. Papai havia caído, batido a cabeça e desmaiado na casa da minha vó, em Santos. Foi submetido a uma tomografia no pronto-socorro, que, aparentemente, não acusou nada grave.

De volta a Curitiba, numa tarde, ele caminhou quilômetros e se queixou de uma das pernas. Que precisava arrastá-la para andar. No dia seguinte, ele entrou no banheiro e não saía mais de lá.

_ Pai, tá tudo bem?

Quando abriu a porta, só dava risada. Ria, ria, ria. Não, não estava tudo bem.

Fui pra o trabalho (ainda me pergunto como consegui) e pedi que minha mãe me telefonasse caso percebesse alguma piora. Eu estava na redação do jornal, sentada em frente ao computador, quando o telefone tocou. Atendi trêmula e saí correndo. Não me lembro a que velocidade dirigi até o nosso prédio. Morávamos no quarto andar e foi uma odisséia descer as escadas. Meu pai foi carregado, de um lado, pelo zelador e, do outro, por meu irmão. E como foi difícil colocá-lo no meu Ka.

Também não me recordo como pude conter o nervosismo e dirigir até o hospital. Só sei que parei o carro na frente e, prontamente, surgiu um funcionário com uma cadeira de rodas. Meu super-herói sumiu pela porta da emergência. Sorrindo, sem saber se voltaria vivo de lá.

A agonia daquela noite foi uma das sensações mais horríveis que já tive. Eu chorava, chorava, chorava…cansei de chorar no saguão do hospital. Estava exausta, com o rosto ardendo com o sal de minhas lágrimas. Minha neurologista passou por mim, mas nem teve coragem de se aproximar. O marido dela é quem deveria operar meu pai, drenar o coágulo. Só que ele estava viajando e outro médico assumiu a cirurgia.

Foi uma noite interminável. Meu pai foi parar na UTI. E ele conta que ouviu alguém comentar sobre um erro na manipulação do cateter. Foi por pouco. Por 12 horas que meu pai se salvou. Um médico disse isso. Por apenas meio dia, ele não estaria aqui hoje pra abraçar seu neto. E Deus queira que ele possa salvar Totônio quando cair de bicicleta, ou tiver que decifrar uma equação matemática. Deus queira que ele viva para sempre.

 

Eu vivo sempre no mundo da lua

Ah…a Lua. Esse satélite natural que atrai a Terra e olhares apaixonados. Aos cinco anos, fiquei admirada ao constatar que aquele pedaço de rocha preta exposto no museu do Kennedy Space Center fora extraído da superfície lunar. Iluminada pelo Sol, ela se transforma na lanterna que acende minha mente e meu terraço. E subo lá toda vez que me sinto angustiada. Pode ser um clichê olhar para o céu quando bate o desespero. Mas deitar sob o tapete escuro da infinitude do universo, debaixo de estrelas que já são poeira cósmica, me faz sentir a própria poeira. Sim, somos pequenos. E por sermos pequenos, deveríamos ser menos vaidosos.

Há 50 anos, no dia 16 de julho, a Apollo 11 decolava rumo à Lua com seus tripulantes Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin “Buzz” Aldrin. Meu pai tinha 27 anos de idade e minha mãe, 15. Cinquenta anos depois, eu ainda dirijo meu Citroën (e não um carro voador), voltando da casa de meus pais com Totônio dormindo na cadeirinha, no banco de trás. O céu está claro, limpo. Na Nossa Senhora da Luz, levo um susto quando olho para a esquerda.

_ Minha Nossa Senhora!! Hoje tem eclipse!!!

Um eclipse parcial lunar para comemorar o lançamento da missão americana ao satélite.

E hipnotizada, conduzo o C4 a 40 quilômetros por hora. Os demais motoristas me ultrapassam. Eu dobro a primeira rua à direita rumo à minha casa. Subo os quatro lances de escada até meu apê com Totônio no colo. O guri continua dormindo. Vou para a “laje”. E lá está ela. A Lua. Encoberta parcialmente pela sombra do nosso planeta. Nosso lindo balão azul.

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Há 50 anos, no dia 19 de julho, Neil Armstrong pisa na Lua. Meus pais assistiam pela televisão à emocionante cena e ao discurso magnífico do astronauta: “um pequeno passo para o homem. Um grande salto para a humanidade”.

“If you believe they put a man on the Moon”, já cantava REM. Há quem diga que tudo não passou de encenação. Que a Lua era um estúdio de televisão na Califórnia. Pelo simples motivo que foguete nenhum é capaz de ultrapassar o cinturão de Van Halen, zona de alta radiação que envolve a Terra. Um professor me disse, ano passado, que Neil Armstrong em pessoa negou ter pisado na superfície lunar num vídeo circulado pelo YouTube. Mas não conheço ninguém além desse teacher que afirmou ter visto o tal vídeo.

Fake news em 1969. Culpa do cinturão hard rock de Van Halen? De Kennedy que queria vencer os russos na corrida espacial? Mentiram para o mundo? Mas o que seria, então, a tal rocha exposta na Nasa? Ônix? Da Chapada dos Veadeiros?

Fato é que 50 anos depois que o homem supostamente pisou na Lua, nós, pobres terráqueos, discutimos os likes ocultos do Instagram. Uma pequena preocupação para pequenos seres humanos. Pra que pisar na Lua, então, se já vivemos no próprio mundo da Lua com suas teorias da conspiração?

 

A carta que minha mãe escreveu

Quem dera ser para o Totônio metade do que minha mãe foi e continua sendo pra mim. Minha mãe é a dona Silvia, que sempre teve 100% de alcance e 100% de envolvimento nesse nosso relacionamento de quase 40 anos. As métricas dela são admiráveis, mas, é claro, que eu não curtia e compartilhava 100% de tudo. Diria que quase tudo. Porque eu e dona Silvia sempre fomos muito próximas, muito cúmplices. E quando os laços são tão apertados assim, difícil esconder os sentimentos. O sexto sentido materno fala mais alto.

Dona Silvia casou, largou a faculdade de direito para constituir família. E eu sou muito grata por essa opção que ela tomou na vida. Não quero jamais que ela se sinta frustrada por isso. Minha mãe canalizou a energia para formar seres humanos dignos, honestos, verdadeiros e espero que tão merecedores de um amor incondicional como o dela. E grande parte do que sou hoje, sou por causa dela e pretendo ser para Totônio.

Para dona Silvia, dia das mães é todo dia. Por isso, não nos preocupamos mais com datas, em trocar presentes, em sair pra almoçar fora. Preferimos estar presente, trocar abraços, olhares, nos alimentar de memórias. Como essa carta que eu encontrei quando revirava uma caixa com coisas antigas guardada no fundo de uma gaveta. Eu estava triste, tristinha, num desses dias em que você se sente mal, rejeitada. Num desses momentos em que você se pergunta se está indo na direção certa.

E, então, eu encontro essa página de caderno toda escrita à mão no dia em que fiz 31 anos. No meu aniversário anterior, nós duas tivemos um desentendimento, cujo motivo nem me lembro mais. E essas palavras, que estavam esquecidas na gaveta da estante, ficarão agora gravadas aqui:

No cabeçalho, ela trazia essa frase (talvez parafraseando algum autor que tenha lido):  “Não é preciso acumular conhecimento. Experiências, sim. Isto enriquece mais a alma que o cérebro”.

“Amada filha

Janaina,

Neste seu trigésimo primeiro aniversário de vida, não tenho quase nada mais pra lhe dizer. Tive a graça e a benção dos céus, deuses e deusas, de poder estar sempre ao seu lado todos estes divinos anos. Talvez isto não tenha sido assim tão saudável pra você, porém, nunca saberemos ao certo.

Você foi minha primeira e intraduzível emoção – o fazer nascer um ser humano – que viria a ser da melhor e mais pura essência. E é isto o que importa enquanto estivermos por aqui –  a nossa natureza – a receita da qual fomos feitos. Os conceitos, os sentimentos (bons) – as atitudes – a moral, a dignidade de poder habitar este planeta sem deixar manchas – marcas – que possam transformar, um dia, você num ser menor.

Eu poderia citar aqui muitos adjetivos, porém, no meu minúsculo dicionário, no meu quase nada saber, palavra alguma traduziria você. Só lhe peço – por você, não por mim: tente não sofrer. Faça o que não fui capaz, encontre o que até hoje nunca consegui: viver bem, sem culpa. Siga sempre de cabeça erguida – pensando, sempre, primeiro em você. Isto não é egoísmo. É ser o melhor, para passar o melhor. Inteira. Resolvida. Verdadeira. Ainda que muitos se afastem de você. Melhor que fingir. Que atuar.

(…)

Siga a “voz do coração” sim, mas a razão é fundamental para o equilíbrio. Se precisar voltar ao passado, faça-o apenas para resgatar o seu melhor.

Cuide bem desse corpo que lhe foi emprestado. Tenha sempre o indispensável para uma vida boa. Não se abale com tanta matéria ao seu redor. Sabemos que grande parte de tudo o que vemos é ilusão – isto não é papo furado, é a certeza, a experiência…

Nunca deixe que a turbulência de certas épocas da vida tire sua paz interior. Mantenha-se no controle para superar: tudo passa, tudo sempre passará.

Somente algo devastador pode tirar você do prumo.

Chorar faz um bem enorme, mas, todos os dias, certamente que não. Nunca dê um “dane-se”, todavia não se afogue em mágoas.

Encontre seu equilíbrio em tudo quanto puder. Viver bem e ser feliz de quando em quando é a base para que o curso do seu rio não leve seu barco a ficar encalhado.

carta1

 

Desejo que no seu barco haja sempre mais alegria e realizações e que o nome dele seja harmonia.

Fui, mãe”