Escova fast, identidade slow: por que alisamos o cabelo?

Depois do boom das farmácias, agora são os salões de beleza que tomaram conta da cidade. Tem um em cada esquina. Alisar virou quase regra. Mas só isso não basta. Tem que ser rápido. Escova fast. Resultado imediato.

Só na região onde eu moro, contei três deles.

Bem, eu nasci com cabelo liso. Tão liso que até o shampoo escorrega. Mas sempre tive uma queda pelos cacheados. Aquele cabelinho de anjo, sabe?

Quando eu tinha uns 12 anos, talvez influenciada pela minha mãe — que vivia fazendo permanente — fui ao salão pra enrolar o meu. E o cabeleireiro me enrolou. Durou um tempo.

Hoje, gosto de cabelo curto, chanel. Já faz anos que corto desse jeito. Não é modinha. Outro dia, até o meu cabeleireiro sugeriu uma escova definitiva: “Você acorda pronta, tudo no lugar”. Pode até ser. Mas eu gosto do jeito que meu cabelo acorda. Ou melhor: do jeito que eu acordo com ele.

Também já fui fã de frisar o cabelo, seguindo a vibe dos anos 90. Minha avó fazia trancinhas em tudo, depois soltava e… pronto, frisado perfeito.

Sempre fui fascinada por black power. Talvez por amar soul music. Ao mesmo tempo, cresci vendo o exagero do hair metal, de Bon Jovi e companhia, com aqueles cabelos enormes. Cada época com sua estética, suas referências, suas “regras”. E, de algum jeito, todo mundo convivia com isso.

Mas, olhando essa proliferação de escovas fast, eu comecei a me perguntar: de onde vem essa vontade de alisar o cabelo? De fazer uma progressiva e simplesmente não acordar com o cabelo que você tem?

A pergunta não é só estética. É também cultural, histórica e, muitas vezes, emocional.

Durante muito tempo, o cabelo liso foi vendido como sinônimo de praticidade, beleza e até “aceitação social”. Não à toa, a indústria da beleza cresceu em cima dessa promessa. Um levantamento da L’Oréal aponta que quem alisa o cabelo convive com uma rotina constante de manutenção, entre retoques, cuidados e expectativas de resultado. Quase como um compromisso permanente com uma versão ideal de si mesma.

Do ponto de vista psicológico, o ato de alisar pode ir além da praticidade. Em alguns casos, está ligado ao desejo de controle, de pertencimento ou até de adequação a padrões que foram naturalizados ao longo do tempo. Não é regra, mas é uma camada que existe.

E, quando a gente olha para mulheres que têm cabelos, digamos, mais volumosos e “rebeldes”, essa conversa ganha ainda mais profundidade. O alisamento, muitas vezes, atravessa questões de identidade, pressão social e história. Nos últimos anos, o movimento de valorização do cabelo natural trouxe à tona um resgate importante: o de reconhecer beleza onde antes só havia imposição.

Talvez por isso essa não seja uma discussão simples.

Eu mesma não sei dizer o que faria se tivesse nascido com outro tipo de cabelo. Se alisaria, se deixaria natural, se mudaria o tempo todo. A verdade é que a gente não decide só com base no gosto, mas com base em tudo o que viveu, viu e aprendeu.

Difícil mesmo é a gente se aceitar como é.

Mas também é curioso perceber quantas versões de nós mesmas cabem ao longo do tempo. Tipo a música do Jorge Ben Jor.

A questão vai muito além de “alisar ou não”. E, sim, sobre o quanto a gente consegue (ou não!) se reconhecer no espelho, do jeito que acorda. Deixar o cabelo enrolado, liso, branco acontecer naturalmente.