A política da má vizinhança  

Dez dias se passaram desde que estamos trancafiados em nossa nave-mãe (com direito apenas a um dia de alvará) por conta da pandemia do coronavírus e adivinha… 

Tava demorando. Recebi um whats da síndica: 

_Estão reclamando de barulho no seu apartamento e de cachorro também, eu até achei estranho, será que é aí mesmo?, perguntou a moça, que devia receber um prêmio pela paciência. 

_ Bem, meu filho não costuma andar de quatro, nem latir, e não costuma imitar um cão, então, acredito que o cachorro não é daqui. (claaaro que me confundiram com a vizinha do segundo andar que tem uns dogs enooooormes)

Por isso, às vezes não boto fé na humanidade, pensando no significado da palavra humanidade mesmo, com “m” minúsculo, no sentido de bondade, benevolência, compaixão, piedade. Ora bolas, o povo tá morrendo lá fora, e meus vizinhos reclamando do barulho. Não sacaram ainda que isso aqui é um teste de resistência, de paciência e de tolerância. Tipo aquele programa “No limite”, mas sem precisar comer cérebro de macaco.

Também, pudera, estou cercado de vizinhos sem filhos. O da parede do lado, dia desses levantou-se da sua cobertura quando me viu chegar com Totônio. O da frente também não tem filho. Solteiro, sem namorado, que eu saiba. O casal do andar debaixo, graças a Deus, não tem filhos. Deus sabe o que faz. Deus poupa as criancinhas. 

Tá ruim? Vai pra rua. Vai trabalhar num coworking a 1,5m de distância das pessoas. Quem sabe você tem a sorte de não se contaminar. Ou então, troque o dia pela madrugada, quando a maioria das pessoas, principalmente as crianças, e também os animais, costumam dormir. 

Eu fui trocar uma ideia de novo com Totônio.

_Filho, reclamaram que estamos latindo muito alto. Barulho só entre 9h e 22h.

Ele riu. Tem que rir mesmo.

O problema é que ninguém dá um desconto. Ninguém se coloca no lugar do outro. Ninguém tem empatia. Veja, se não dão desconto na hora de pagar a escola do Totônio, não dão desconto pro barulho também. O problema é que meu prédio tem paredes como se fossem de papelão. Tipo cenográficas. Aqui todas as paredes têm ouvidos. Culpa da construtora que deve ter economizado no material. Sem contar que o bairro é suuuper tranquilo.

Confesso que fiquei um pouco revoltada com tudo isso. Deu pra perceber, né? Até fui me consultar com pessoas de confiança. 

Minha mãe disse pra eu ignorar. 

Uma amiga disse mandar o povo “c***r” no mato. Sem cachorro, claro!

Então, surgiu a saída à francesa. Dica de uma amiga que morou muito tempo no país do Macron e daquele bulldog feio pra danar. Pois bem, ela disse que o francês, quando decide dar uma festa no apê, manda uma carta superpolida para os vizinhos pedindo desculpas prévias e um convite para eles participarem do evento. Não é o caso de fazer isso aqui, porque eu não gostaria de ter pessoas tão chatas como convidados da minha festa.

E tem um detalhe: os franceses, às vezes, colocam no elevador ou, no corredor, um folheto se desculpando pelo cheiro da comida. Estamos a quilômetros de distância deles mesmo. 

Mudando de assunto…. sabia que hoje choveu? Choveu de verdade. Pra baixar a poeira. Bem no aniversário de 327 anos de Curitiba. Ah, também choveu reclamação : )

P.S.1: Quando tudo isso voltar à normalidade, pretendo dar uma festa de arromba na laje. Estão todos convidados, inclusive os cachorros. Menos meus vizinhos, claro. Au-au pra todo mundo!

P.S.2: O bicho tá pegando entre as vizinhas do terceiro e segundo andar. Tem até disco music e filme do Mel Gibson rolando no último volume. Aff

Foto por Julia Kuzenkov em Pexels.com
Banana pra quem reclama do barulho!

O chulé no corredor e a escapadela da nave-mãe

Saí da nave-mãe para levar Totônio até o foguete do papai. Para cumprir nossa missão e chegar até o carro, foi preciso transitar pelos corredores sem janelas do nosso prédio, invadido pelo cheiro de chulé. Agora sei quantas pessoas, seus respectivos sexos e prováveis faixas etárias, ocupam cada apartamento, já que se tornou um hábito entre os condôminos deixar o calçado pra fora antes de entrar no apê. Eu acho engraçado porque sempre cultivei esse costume, que herdei da minha mãe, de entrar em casa e tirar imediatamente os sapatos. Por isso aprecio a cultura japonesa desde pequena, mesmo tendo ascendência espanhola e portuguesa. 

Acredito que, acima de tudo, é uma questão de puro bom senso não andar no quarto com o mesmo calçado que você pisa no cocô de pombo na rua.

É bonitinho ver ali os chinelinhos das criancinhas todos enfileiradinhos; o Nike do rapazote, o Crocs da velha, as Havaianas da vizinha nova. Não tenho chulé, mas os meus tênis não ficam expostos desse jeito, pra todo mundo ver. Ficam pra dentro. Não vejo problema na minha decisão em deixá-los em cima de um pano perto da porta. Totônio também não tem chulé e já aprendeu que precisa tirar seus microtênis assim que coloca os pés na sala.

Dessa forma, ele pode correr com suas meias antiderrapantes sem fazer barulho e não incomodar os vizinhos do andar de baixo. Bem, na verdaaaade nossa correria diária deve estar incomodando um pouquinho os vizinhos. Mas a bateção de portas também me incomoda um bocado. Tenho uns vizinhos que ou são meio irados, ou têm muita força no muque a ponto de estremecer o prédio. Acho que descontam tudo nas portas. Só pode. 

Nosso dia 8 transcorreu “ok”. Totônio acordou de bom humor e correu ao encontro de seu livro de atividades com 505 passatempos entre labirintos, jogo dos sete erros, liga pontos e continhas de matemática. Obviamente eu ajudo nas operações aritméticas, mas Totônio já sabe que 2 + 2 = 4. Como a mamãe é fã de Radiohead, ele aprenderá mais tarde que 2+2=5. O guri presta atenção e, depois de supostamente aprender no livro, vai direto pra lousa onde brinca de professor. Seu 6 parece uma pera. O 2 é tipo um 5 do avesso.

Totônio também convocou Bob Esponja e Patrick para brincarem conosco no jogo do pizzaiolo. Eu nunca imaginei me tornar tão íntima de uma esponja-do-mar, muito menos de uma lula. Então, Totônio distribuiu pedaços de pizza de papelão pra mim e seus dois amigos imaginários famosos. Depois, pegou o vulcão que acoplamos nos trilhos de um brinquedo dele que tem uma alavanca para simular as lavas. 

_Totônio, o que é isso?

_ É o botão pro Bob Esponja e o Patrick voltarem pro fundo do mar!

_ Ah, claro! 

Quem sabe um dia a gente volte a ver o mar. Pode até ser um mar de gente que não tem problema. Hoje, no nosso nono dia de quarentena, Totônio acordou às 6h pra fazer xixi. Não nas estrelas como na letra da Leminskanção, mas no banheiro mesmo. Depois foi dormir no sofá. Aproveitei e fui ver o sol nascer. Redondo, ainda. 

Hoje, sabadão de quarentena, até tinha um bocado de gente na rua. Todo mundo se desviando com medo de trocar fluidos. Nem acreditei que fui à padaria e caminhei um pouco pela calçada com minha mãe, que precisa se exercitar por conta da asma. Ficamos a 1,5m de distância como exige o protocolo.

Na verdade, me senti até um pouco culpada por ter saído de casa. Pensei até que meus vizinhos me jogariam os calçados chulezentos na cabeça quando retornasse. Mas cá estamos de volta à nave-mãe. De castigo, mas seguros!

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