Quando a roupa encontra outro corpo

Abri o armário achando que encontraria apenas lembranças, mas encontrei um pequeno acervo de camisas e blusas brancas, quase todas iguais, quase todas com aquele mesmo jeito dela de tentar parecer simples mesmo quando carregava mundos inteiros por dentro.

Eu não fazia ideia de que ela guardava tantas. Guardava tudo dentro do seu armário interior. Era tanta roupa que ficar muda a consumiu por dentro.

Fui tirando peça a peça. Com e sem cabide. Dobrava, ensacava. Como é difícil, Aprendi com ela a não usar amaciante.

Cada peça parecia conter um gesto, um riso curto, um costume antigo. E eu ali, entre as pilhas, tentando entender se aquilo era excesso ou permanência.

Fiquei com algumas. As que, por algum motivo, pareciam falar comigo. Não sei se é apego, necessidade ou só um jeito de manter por perto algo que ainda não sei deixar ir.

Seu tênis caminha comigo agora. Visto de memória uma ou outra camisa.

O restante… doeu. Parte doei. Parte vendi em brechós. Não havia espaço para tudo e, talvez, também não houvesse espaço em mim para guardar tanto.

E então me dei conta de algo estranho e bonito: por aí, em alguma esquina ou corredor de mercado, talvez exista alguém vestindo uma das blusas da minha mãe.

Um corpo desconhecido, continuando um pedaço da história que ela deixou. Um fio de vida que segue, mesmo quando não é mais nosso.

Gosto de pensar nisso: que o que foi dela ainda respira no mundo. Que há roupas caminhando, tocando o vento, sendo lavadas, secas ao sol, amassadas, escolhidas, esquecidas e lembradas… como qualquer vida.

No fim, percebi que não dei embora as roupas. Dei caminhos. E talvez seja assim com tudo o que a gente perde: um dia, em algum lugar, encontra uma forma nova de existir.

Quanto vale aquecer os corações? Sixpence None the Richer

Dona de hits que embalaram os anos 90, banda se apresentou no Tork.

Foi como entrar numa máquina do tempo com destino marcado: os anos 90. Em pleno 13 de junho, noite fria de Curitiba, logo após o Dia dos Namorados e bem no dia de Santo Antônio (que dispensa apresentações), a trilha sonora parecia pensada sob medida para o calendário e para os corações. 

Kiss Me, o maior hit da banda americana Sixpence None the Richer, soou como uma prece suave no Tork n’ Roll, local que abrigou o show após a mudança do Teatro Bom Jesus. A troca, curiosamente, não soou deslocada: embora o teatro fizesse eco com as origens gospel do grupo (afinal, o nome da banda vem de um trecho do autor irlandês C. S. Lewis), o novo local trouxe a proximidade crua e quente de um palco pequeno, onde a acústica abraça e a plateia se torna quase cúmplice.

O público, infelizmente, foi pequeno. E isso doeu um pouco no coração. Porque ali, diante de uma banda tão afinada e generosa, a sensação era de estar diante de um daqueles momentos que mereciam plateia cheia, aplausos longos, coros afinados. Ainda assim, quem foi, foi por amor. E bastava olhar ao redor: camisetas da banda, olhares marejados, vozes que sabiam cada verso de cor, como se cada pessoa ali tivesse feito um pacto com a própria adolescência.

Leigh Nash entrou toda de branco, como se fosse uma noiva alternativa (com sua bota dourada). Sua voz delicada e presença cativante conduziu o show com graça. Sorriu, agradeceu, conversou com a plateia, lembrou que estavam em turnê pelo Brasil e parecia feliz de verdade por estar ali. A acústica do Tork favoreceu o clima intimista do show.

Além dos próprios sucessos, o Sixpence é conhecido por transformar covers em verdadeiros clássicos E não é exagero dizer que, muitas vezes, suas versões soam até melhores que as originais. Em Curitiba, presentearam o público com interpretações sensíveis de Don’t Dream It’s Over (Crowded House) e mágicas como There She Goes (The La’s), que foi tema do comercial do shampoo Organics, da Unilever. Alguém aí se lembra? 

Ah, é claro, a composição mais famosa da banda, Kiss Me, escrita por Matt Slocum (guitarrista e principal compositor da banda) deixou a plateia nas nuvens. A canção foi lançada em 1998 e se tornou o maior sucesso comercial do grupo, eternizada por sua inclusão em filmes e séries como Ela é Demais (She’s All That) e Dawson’s Creek. Logo na introdução, era possível ver os emojis imaginários de coração disparando das cabeças dos presentes. 

Por isso, quando soube que a banda viria para o Brasil, foi inevitável pensar: “eu vou”. E fui. E me senti transportada para uma época em que tudo era mais simples, ou pelo menos parecia ser. Talvez o maior poder da música esteja aí: em nos permitir visitar o passado sem precisar sair do lugar. 

O setlist foi praticamente impecável, embora um ou outro fã concordasse que I Can’t Catch You poderia muito bem ter substituído a natalina River, de Joni Mitchell, uma das faixas do álbum The Dawn of Grace, de 2024. Mas são detalhes pequenos, incapazes de comprometer o que foi, no todo, um reencontro precioso. Sim, porque teve doçura e introspecção em Melody of You e Julia. E o gran finale com a irresistível Breathe your name. 

No fim das contas, a cidade pode até não ter comparecido em peso, mas quem esteve lá saiu com o coração mais cheio. Assim que a banda se despediu e as luzes do palco se apagaram, o som do Tork emendou a delicada God Only Knows, dos Beach Boys; uma homenagem a Brian Wilson, que havia falecido dois dias antes. 

E assim, aos poucos, a gente foi se despedindo dos anos 90. Enquanto uma fila tímida se formava com fãs esperando a chance de entrar no camarim, outra crescia na frente do Tork com uma galera ansiosa para curtir uma festa geek.

Antes disso, os músicos do Sixpence voltaram ao palco discretamente para desmontar seus instrumentos, como se aquele fosse apenas mais um dia comum de turnê. Mas, para quem esteve ali, não foi só isso: foi memória viva, feita de som e sentimento. 

Setlist:

Angeltread

Within a Room Somewhere

Thread the Needle

Don’t Dream It’s Over (Crowded House cover)

The Tide

Rosemary Hill

Midnight Sun (The Choir cover)

Don’t Let Me Die in Dallas (Leigh Nash song)

River (Joni Mitchell cover)

Melody of You

Homeland

Down and Out of Time

Julia

There She Goes (The La’s cover)

Kiss Me

We Are Love

Encore:

A Million Parachutes

Breathe Your Name

* Em breve, esta resenha será publicada no blog Mondo Bacana.

Salvando o mundo com um GIF por vez

Vivemos na era em que um meme vale mais que mil palavras e menos que meia ação. A geração meme (também conhecida como geração “kkk”, “slc”, “morto”, “eu todinho”) tem o superpoder de transformar qualquer tragédia, escândalo político ou crise existencial em uma imagem de baixa resolução com legenda em Impact font. Engajamento? Altíssimo. Solução de problemas? Deixa pra depois do repost.

Essa é a galera que chora com o fim do Wi-Fi, mas não com o fim da Amazônia. Que compartilha frases do tipo “fé no pai que o inimigo cai”, mas só se o vídeo carregar sem travar. Que vive num eterno estado de ironia, como se a realidade fosse apenas um grande episódio de The Office, e a vida, um meme ambulante narrado por um áudio do TikTok.

A geração meme acredita piamente que está mudando o mundo… uma figurinha do Zap por vez. Protesto? Só se for em thread no Twitter, ops, X. Mobilização? Se tiver filtro do Instagram, talvez. A luta é real, mas o meme é prioridade.

Enquanto isso, os adultos da geração passada, conhecidos (carinhosamente como “boomer raiz”) observam de longe, sem entender se esse pessoal está rindo ou pedindo socorro. Spoiler: muitas vezes é os dois.

Mas sejamos justos. A geração meme sabe rir de si mesma, e talvez isso seja seu maior trunfo. Porque quando tudo está pegando fogo, eles não correm… eles abrem o Canva, colocam uma frase sarcástica sobre a vida, jogam um emoji e postam: “quando a vida te dá limões, faz um meme e viraliza”.

Daí vem aquela famosa pergunta: e quem somos nós para julgar? Pelo menos no caos, eles ainda sabem fazer piada.

Vai ter velório?

Essa foi uma das primeiras perguntas que ouvi. E entendo. Quando alguém morre, espera-se um ritual. Um lugar, uma hora, um momento em que se possa dizer adeus. Mas a verdade é que minha família é pequena. Temos poucos amigos. E, pra ser sincera, nunca gostei de velórios.

Não consigo me acostumar com a ideia de se despedir em uma sala fria, com cadeiras de plástico e café ralo. Aquela atmosfera de constrangimento onde ninguém sabe exatamente o que dizer. Me soa mais como uma formalidade do que um consolo. Por isso, optamos pelo silêncio. Pela intimidade.

Somos low profile até na morte.

Não, eu não postei nenhum comunicado.

Não senti vontade, nem necessidade.

Mas entendo quem faz. E, hoje em dia, a maioria faz. Não por vaidade ou por espetáculo, como às vezes se julga rápido demais… mas porque existem pessoas com muitos conhecidos mesmo. Colegas de trabalho, vizinhos, parentes distantes, amigos do grupo de natação da tia… E como avisar todo mundo sem enlouquecer? As redes viraram esse grande megafone. Uma forma prática (e muitas vezes inevitável) de comunicar que a vida mudou.

Publicar a morte de alguém no Instagram ou no Facebook pode parecer estranho à primeira vista. Mas virou, pra muita gente, um novo tipo de velório. Não aquele cheio de flores e cadeiras, mas um espaço virtual onde se compartilha a perda — e, com sorte, se recebe algum consolo. Um comentário, um emoji, uma palavra simples que diga: vi sua dor, estou aqui.

Velórios existem desde sempre por isso. É cultural. Porque o luto precisa ser reconhecido. Precisa sair do peito e encontrar abrigo em outros olhos. A diferença é que agora, em vez de um salão, muitos têm encontrado esse abrigo no feed.

Eu sigo não gostando de velórios. Mas entendo o valor dos rituais. E às vezes, nesse mundo corrido e digital, até um story serve como despedida. Mesmo que silenciosa. Mesmo que breve. Mesmo que entre um meme e uma receita.

O importante, talvez, seja não calar a dor, e permitir que ela, de algum jeito, seja vista. Nem que seja só por alguns segundos, entre um scroll e outro.

Última visualização

Mandar WhatsApp pra minha mãe era automático. Era tipo respirar.

Até quando bati o carro, eu avisei de supetão. Ela só tinha perguntado “tá tudo bem?”, e eu já soltei: “bati o carro”.

Queria ter te poupado de tanta informação desnecessária… de tanta coisa que não te fez bem.

Mas essa era a nossa relação. De mãe e filha.

Transparente, sem freio (às vezes literalmente), cheia de amor e susto.

Hoje, quase mandei mensagem de novo.

Fui contar do filme novo, do sofá que precisa ser higienizado, de uma notícia besta que ia te fazer rir.

Cliquei no seu nome e pensei:

“A foto do Totônio continua lá no seu perfil…”

A melhor avó do mundo.

Você virou uma daquelas conversas que a gente não tem coragem de apagar.

Tem dias em que eu esqueço. Esqueço que você se foi. Aí te escrevo mentalmente, como sempre fiz. E na minha cabeça você ainda responde.

Ainda pergunta:

“Quer que eu vá aí na sua casa pra te ajudar?”

Você sempre quis resolver tudo com presença. E agora o que sobra é essa ausência que pesa.

Mas é engraçado como você ainda tá aqui.

No tom de voz que eu ouço na cabeça.

No “não esquece de avisar o Lima!” (o motorista da van)

No “manda beijo pro Marco”.

Não sei se dá pra superar.

Mas acho que dá pra continuar.

Te mandando WhatsApp.

Mesmo que você não visualize mais.

(PS: Se aí tiver internet, ignora o áudio de 8 minutos reclamando da vida. Ouve só a parte em que eu digo que te amo.)

Nem a pandemia ensinou empatia

A gente achava (ou queria acreditar) que, depois de uma pandemia global, alguma coisa mudaria nas pessoas. 

Que o medo da perda, do isolamento, da finitude, nos deixaria mais atentos uns aos outros. Que a dor compartilhada amoleceria corações, abriria ouvidos, ensinaria a cuidar.

Mas não. Passou o caos, e muita gente continuou exatamente igual. Ou pior.

Há quase dois meses, cada dia começa com incerteza e termina com cansaço. E, mesmo assim, tem gente ao meu redor que parece viver em outra frequência. Uma frequência em que a empatia é luxo, e tudo o que importa é o que você entrega.

Gente que mal pergunta se está tudo bem (é claro que não está!), mas cobra. Cobra prazos, respostas, disposição. Cobra como se nada estivesse acontecendo.

Vivemos num mundo ansioso, acelerado, onde sentir virou quase um atraso. Não há tempo pra pausas, pra escutar, pra acolher. Só importa o desempenho, o resultado, o “segue o baile”. E se você para ou diminui o ritmo (ainda que por um motivo profundamente humano) é tratado como um obstáculo, um problema, um ruído.

E aí a gente se pergunta: de que adiantou tudo aquilo? O medo, a saudade, os boletins médicos, as orações em rede, o “vai passar” colado na janela? Parece que passou, mas junto passou também qualquer rastro de sensibilidade que podia ter nascido dali.

Algumas pessoas simplesmente não querem saber. E talvez nunca queiram. Só querem que você entregue, entregue e entregue.

Mas aqui, pelo caminho, sigo acreditando que sentir ainda é resistência. E que se há algo a ser feito, é continuar sendo humano, mesmo quando o mundo insiste em deixar de ser.

Entre divar e viver

Quando ouço a gurizada com esse “diva pra lá, diva pra cá”, fico pensando no real significado disso. Minha mãe nunca divou. Eu também não.

Nunca quis chamar atenção, ser poderosa. Meu negócio sempre foi o backstage. Maquiagem passa longe por aqui. Desde os 30 e poucos anos que não gasto tempo e $ com isso. 

A natureza (que não chega a ser selvagem, mas é espontânea) tomou conta do meu gramado. Nunca fiz botox. Já a turma dos 30 vive superpreocupada com as marcas de expressão.

Meu triângulo da tristeza está aqui, explícito, desenhado no rosto. Fazer o quê? C’est la vie, como diria qualquer francês da boulangerie.

Por isso, me incomoda esse divar com tanta frequência.

Não quero ser diva. Quero ser eu.

Poder usar minha rasteirinha e arrastar, junto com ela, as areias toxínicas de perto de mim.

Não quero brilhar sob holofotes que não escolhi. Quero o brilho oleoso da pele que já enfrentou o sol quente do desespero; do olho que mareja com conversa boa; do riso que escapa mesmo nos dias ruins.

Ser eu não exige palco. Exige coragem.

Coragem de sair sem base. De entrar nos lugares com o cabelo do jeito que deu. Com esses fios brancos que começaram a aparecer. De não pedir desculpas por não seguir o roteiro. Porque tem dia que o máximo que consigo é existir.

Divar deve cansar.

Eu quero vida.

E quem quiser gostar de mim, vai ter que ser assim. Como na rima de um pagode.

Se tem uma coisa que aprendi nesse caminho é que as toxinas que mais pesam não são as do corpo. São as do olhar alheio. Da expectativa. Do padrão que empurram como se fosse identidade. Do salto alto.

Quero mesmo é ser quem eu sou, mesmo quando não agrada. Mesmo sendo essa pessoa quebrada, em vários sentidos.

Porque entre divar e viver, eu escolho caminhar. E que minha rasteirinha me leve por trilhas onde ser real vale muito mais.

Caminhos que curam

Certa vez, fui à dermatologista de pele de capa de revista. Estava em tratamento oncológico e só queria resolver uma coisinha qualquer. Coisinha que se chama acne, melasma (trato, mas não reclamo como antes).

“E agora, vai cuidar melhor da sua alimentação?”, ela perguntou, como quem sugere culpa, como quem entrega sentença.

Fiquei ali, quieta por um instante. Pensando em como seria essa mesma pergunta se eu tivesse sete anos de idade. Diria que minha mãe me alimentou mal desde a barriga? Que a maçã da lancheira selou meu destino? Que você, menina, devia ter comido mais couve?
Quando a mutação acontece, não há cúrcuma que combata.

Então lembrei das coxinhas de quando trabalhava no Diário Popular. Sempre dava minhas escapulidas à tarde até a Casa das Coxinhas, que ficava na rua lateral do jornal Seriam elas as vilãs? Ou será que foi a depressão que tive aos vinte e poucos?

Ninguém sabe.

Só sei que esta doença atinge muitos. E os Ubers estão aqui pra provar.


No trajeto entre o hospital e casa, da casa pro hospital, as corridas curtas se transformaram em histórias longas. 

Gente que nunca vi me contou coisas que eu nunca vou esquecer.

Um dos motoristas me falou da mulher dele, que começou a sangrar no meio da missa da novena. Susto, sirene, hospital e Jesus Cristo no altar, olhando tudo.


Era o intestino dela.


“Meu filho está sofrendo demais. Ele não desgruda da mãe.”

Outro motorista me perguntou se eu trabalhava no hospital. “Não, minha mãe está internada”, respondi. 

“Minha mulher morreu aí”, disse o viúvo, pai de três filhos, hoje já adultos.

Doze anos atrás, era ele quem enfrentava a batalha, num desses quartos do hospital.
Ela se recuperou. Foi pra casa. Mas a doença voltou sem pedir licença, no meio de um trajeto qualquer.


Uma dor que não avisou e a levou rapidamente. “Tratamos tudo pelo SUS”, disse. “Não dava pra pagar particular. Mas ela foi forte.” Ele dirigia com firmeza, como quem aprendeu a guiar pela vida.

Teve ainda o motorista que me deu um jornal. Disse que o filho de três anos também teve câncer. Que sobreviveu por um milagre. “Não é religião”, ele disse. “É fé.”

Fez promessa, cumpriu. O menino tá bem. “Pega esse jornal. Os testemunhos me ajudaram bastante.”

Ali, dentro desses carros, no trajeto casa-hospital/hospital-casa, entendi o que a médica talvez nunca vá entender:


Que doença não escolhe dieta, nem classe social, nem se você é gente boa.
Ela só vem.

E quando vem, o que salva não é o suco verde.
É o afeto.
O olhar.
A escuta.

Descobri que a doença é democrática.
Mas as histórias que ela atravessa, essas sim têm escolha: entre calar ou tocar.
E elas me tocaram.

Hoje eu chorei

Hoje eu chorei.

Chorei na frente da médica.

Dos enfermeiros. 

Dos pacientes. 

Na frente de todo mundo. 

Até do diretor de criação.

Meu Deus.

Chorei até na frente dela. 

Poxa, tinha prometido que só entraria no quarto com boas energias. Mas quer saber? Vou culpar a chuvinha lá fora. Ou o barulho do O2. 

Chorei porque, apesar de acreditar no inesperado, as notícias não são boas. 

Quando recebi o diagnóstico, chorei. 

Quando ela foi pra UTI, chorei. 

Quando ela voltou pra UTI, chorei. 

Entre um job e outro, eu vou ali no cantinho ou no banheiro do quarto e choro um pouquinho. Depois, volto firme e pergunto se ela quer comer. Nada.

Vou confessar. Chorei na frente do meu filho. Mas como isso? Eu vi naquele filme que ganhou o Oscar que a gente precisa ser forte. E parece que chorar ainda é sinal de fraqueza.

No primeiro choro, Totônio me retribuiu com uma figurinha de coração. Depois, ele veio me abraçar. O melhor abraço do mundo. 

Teve um dia que chorei tão alto que os vizinhos devem ter escutado. 

Mas quando me desando a chorar, lembro que esse bicho já me pegou uma vez. E a tristeza talvez seja alimento pra ele voltar. 

Medo. 

O dela já é o terceiro. Triplo negativo. Tripla batalha. 

Nome difícil, peso grande. Mas ela é maior.

Maior que o medo, maior que qualquer sigla no laudo.

E se hoje chorei, tudo bem. Chorar também é forma de amar. É o cuidado que escorre pelos olhos quando o peito já não dá conta.

E amanhã? 

Amanhã estarei aqui de novo.

Com o peito apertado, olhando para o peito dela que tenta respirar apesar de tomado por microinimigos que se proliferam a cada lágrima.

Estou aqui porque é o mínimo que eu posso fazer. E porque amar também é isso: chorar, sim. Continuar também. 

E quando ela parar de respirar? Chorarei. No presente e no futuro. Respirando o seu amor.