
Toda primeira vez carrega um tipo especial de memória. Há expectativa, um certo nervosismo no ar e aquela sensação quase elétrica de que algo importante está prestes a acontecer. Por isso tantas histórias de amor — e tantos grandes shows — começam exatamente assim.
Curitiba finalmente viveu a sua primeira vez com Bryan Adams.
Depois de mais de quatro décadas de carreira, o cantor canadense pisou na capital paranaense, no dia 09 de março (justamente quando o clássico Heaven batia um milhão de plays no Spotify), com a turnê Roll With The Punches, e encontrou uma Live Curitiba completamente lotada, reunindo fãs de diferentes gerações para ouvir seus hits memoráveis e algumas das baladas mais românticas do rock.
Nem tudo, porém, começou em tom de romance
A entrada no local foi marcada por certa desorganização: muita gente parecia não saber exatamente qual setor deveria acessar, e a comunicação na chegada deixou parte do público confusa (inclusive jornalistas). Soma-se a isso o valor dos ingressos — que na plateia VIP ultrapassavam os dois mil reais com taxas adicionais pouco discretas — e o contraste entre experiência musical e custo da noite inevitavelmente se impõe.
Cinco minutos antes do horário marcado, o B-stage (ou palco B) era montado às pressas justamente nessa área VIP. Enquanto isso, ao fundo da pista, uma multidão se espremia tentando garantir qualquer ângulo possível do espetáculo. É o tipo de contraste que os grandes shows inevitavelmente produzem: proximidade absoluta para alguns, esforço quase acrobático para outros.
Então Bryan Adams surgiu pela plateia.
Cercado por um rigoroso esquema de segurança, o cantor atravessou o público em direção ao palco improvisado, criando um daqueles momentos que percorrem a multidão como uma corrente elétrica. Em poucos segundos, a estreia de Curitiba já começava com um gesto de proximidade.
O que veio depois foi uma demonstração rara de consistência artística.
Em tempos de correções digitais, bases pré-gravadas e vozes filtradas por camadas de tecnologia, Adams segue apostando naquilo que sempre definiu sua carreira: voz, guitarra, muitos violões e canções.
A voz, aliás, permanece praticamente intacta.
Com impressionante controle vocal, ele atravessa o repertório com a mesma assinatura rouca e potente que marcou seus discos desde os anos 1980. Durante quase todo o show, mal se vê o cantor recorrer a um gole de água. As músicas se sucedem em sequência quase ininterrupta, emendadas com naturalidade por quem domina o próprio repertório como extensão da própria respiração.
Bastidores e improvisos
Ao seu lado, a banda funciona como uma engrenagem precisa — e com uma história curiosa digna de bastidores de turnê. O guitarrista Luke Doucet foi chamado às pressas para substituir Keith Scott e integrar a banda ao lado de Gary Breit (teclados) e Pat Steward (bateria) depois de receber uma mensagem direta e quase improvável:
“Hey… você consegue aprender 26 músicas em três dias?”
Levando em conta certas adaptações, o guitarrista conseguiu entregar à altura.
O baterista Pat Steward também protagonizou um dos momentos mais divertidos da noite. Antes de Make Up Your Mind, Bryan prometeu ao público que ali viria “o melhor solo de bateria que vocês verão na vida”.
A simpatia de Adams com o público também se revelou em pequenos gestos.
Em certo momento, antes de uma das músicas, pediu que a plateia não risse quando aparecesse no telão um clipe antigo em que ele surgia com aquele corte de cabelo rebelde do início de carreira.
Celulares e um pequeno “punch”
Logo na segunda música, Straight From the Heart, no B-stage, veio um pequeno episódio que resume bem a relação contemporânea entre público e palco. Uma fã empolgada aproximou o celular demais do rosto do cantor para registrar a cena. Adams respondeu com um gesto rápido, baixando o aparelho com um leve “punch” de mão — nada agressivo, apenas o suficiente para recuperar seu espaço.
O momento teve algo de simbólico.
As canções de Bryan Adams nasceram em um mundo muito diferente do atual: a era das fitas K7, dos LPs, das fichas de orelhão, das dedicatórias gravadas em mixtapes. Um tempo em que as pessoas iam aos shows para viver a experiência, não para filmá-la.
Um repertório que atravessa gerações
Clássicos como When You’re Gone, Back to you, Run to You, Please Forgive Me e 18 Til I Die foram cantados em coro por uma plateia que parecia saber cada verso de memória. Heaven, em um arranjo mais ritmado para violão, ganhou uma nova textura ao vivo, surpreendentemente fresca para uma música que já atravessou gerações, embora alguns fãs tenham sentido falta do piano da versão original.
Um dos momentos mais hipnotizantes da noite aconteceu quando Adams assumiu o violão para interpretar Everything I Do (I Do It for You), do filme Robin Hood: o Príncipe dos Ladrões, de 1991. Diferente de outras apresentações da turnê, ele permaneceu praticamente imóvel no palco.
Foi um daqueles raros momentos de epifania coletiva em que milhares de pessoas parecem compartilhar a mesma emoção ao mesmo tempo.
Outro instante curioso e inesperadamente fofo aconteceu durante Have You Ever Really Loved a Woman, gravada para o filme Don Juan DeMarco, de 1995. No meio de um verso, Adams simplesmente deu um espirro e continuou cantando na maior naturalidade, sem perder o ritmo da música.
Já o clímax veio com Summer of ‘69, com a plateia indo ao delírio (e os telões mostravam tudo).

O que faltou em Curitiba
Alguns elementos visuais da turnê não apareceram em Curitiba.
Em outras cidades, enormes infláveis — uma luva de boxe gigante em Roll With the Punches e um carro em So Happy It Hurts — voam sobre o público. Na Live, provavelmente pelas dimensões da casa, esses momentos ficaram de fora.
O que apenas reforça uma impressão que muitos fãs compartilharam ao sair do show: Curitiba ainda carece de uma casa de espetáculos realmente à altura de produções internacionais desse porte.
Também ficaram de fora do repertório duas músicas que costumam aparecer em outras datas da turnê: o cover de Twist and Shout e Let’s Make a Night to Remember, normalmente cantada no B-stage.
Ainda assim, foi uma noite memorável.
Para sempre jovem
Bryan Adams sempre foi, antes de qualquer rótulo, um contador de histórias sobre amor, juventude e memória. Parte dessa sensibilidade vem de sua própria trajetória. Filho de diplomata, passou parte da juventude em Portugal — anos que ele próprio descreve como alguns dos mais felizes de sua vida.
Por isso, existe algo de familiar quando ele volta a países de língua portuguesa. No Brasil, a proximidade da língua cria uma ponte natural entre palco e plateia.
Em determinado momento do show, ele mesmo brincou com isso e perguntou para alguém da plateia se estava “tudo bem”. Sim, está tudo bem.
E quando foi se apresentar disse que aqui ele é “Bryanadams”, tudo junto, como se fosse uma palavra só.
E, de certa forma, é mesmo. Uma identidade inseparável de suas músicas, de sua voz e daquela energia que insiste em permanecer jovem. Quando falou sobre 18 Til I Die, deixou escapar uma verdade que resume bem sua relação com o tempo: a idade pode avançar, mas o espírito permanece aquele de 18 anos, idade das descobertas.
Para alívio de seus fãs, Bryan parece realmente decidido a permanecer com 18 anos.
O romântico incorrigível
Além da música, o artista também construiu uma carreira respeitada como fotógrafo profissional, tendo retratado artistas, modelos e personalidades do mundo inteiro. Talvez por isso exista algo quase cinematográfico na maneira como conduz um show: cada momento parece cuidadosamente enquadrado, como se soubesse exatamente qual imagem deseja deixar na memória do público.
E a imagem que ficou em Curitiba foi a de um artista generoso no palco.
Em determinado momento, ele brincou com a plateia perguntando se estava falando rápido demais. A resposta veio em coro: não.
Mesmo quando acelera uma balada como Heaven, Adams ainda carrega algo raro no mundo contemporâneo: o romantismo sem pressa.
Ao longo da carreira, ele acabou se tornando algo próximo de um arquétipo do romântico moderno — aquele que reúne as qualidades que tantas mulheres aprenderam a sonhar nas canções: intensidade, lealdade emocional e a coragem quase fora de moda de declarar sentimentos.
O verão de 26

Num tempo de vozes afinadas por algoritmos e performances coreografadas ao milímetro, o canadense segue fiel ao estilo que construiu sua carreira: romântico, roqueiro e sem artifícios.
Aquele romantismo de guitarras abertas, versos diretos e promessas cantadas sem ironia, como quando sustenta, com absoluta convicção, o verso “take my life”. E todo mundo se arrepia.
Recentemente, ele também demonstrou outra forma de independência artística ao lançar sua própria gravadora, a Bad Records, um gesto de liberdade criativa que combina bem com a energia de quem, aos 66 anos, ainda sobe ao palco como se estivesse começando.
No último show no Brasil, apareceu inclusive com os cabelos soltos. Talvez um detalhe trivial, ou um pequeno símbolo dessa mesma liberdade.
Se Summer of ’69 eternizou um verão de juventude, Curitiba agora pode reivindicar o seu próprio capítulo nessa história.
O verão de 26.
PS: Agora só falta inventar uma nova posição.🤭
SETLIST
1. Can’t Stop This Thing We Started (acústica, B-stage)
2. Straight From the Heart (acústica, B-stage)
4. Kick Ass
5. Run to You
6. Somebody
7. Roll With the Punches
8. Do I Have to Say the Words?
9. 18 til I Die
10. Please Forgive Me
11. It’s Only Love
12. Shine a Light
13. Heaven
14. Never Ever Let You Go (parcial)
15. This Time
16. Heat of the Night
17. Make Up Your Mind
18. You Belong to Me
20. Have You Ever Really Loved a Woman?
21. When You Love Someone
22. So Happy It Hurts
23. Here I Am (acústica, com Gary Breit no piano)
24. When You’re Gone (acústica, com Bryan sozinho)
25. The Only Thing That Looks Good on Me Is You
26. (Everything I Do) I Do It for You
27. Back to You
28. Summer of ’69
29. Cuts Like a Knife
30. All for Love (acústica solo)