
Foi como entrar numa máquina do tempo com destino marcado: os anos 90. Em pleno 13 de junho, noite fria de Curitiba, logo após o Dia dos Namorados e bem no dia de Santo Antônio (que dispensa apresentações), a trilha sonora parecia pensada sob medida para o calendário e para os corações.
Kiss Me, o maior hit da banda americana Sixpence None the Richer, soou como uma prece suave no Tork n’ Roll, local que abrigou o show após a mudança do Teatro Bom Jesus. A troca, curiosamente, não soou deslocada: embora o teatro fizesse eco com as origens gospel do grupo (afinal, o nome da banda vem de um trecho do autor irlandês C. S. Lewis), o novo local trouxe a proximidade crua e quente de um palco pequeno, onde a acústica abraça e a plateia se torna quase cúmplice.
O público, infelizmente, foi pequeno. E isso doeu um pouco no coração. Porque ali, diante de uma banda tão afinada e generosa, a sensação era de estar diante de um daqueles momentos que mereciam plateia cheia, aplausos longos, coros afinados. Ainda assim, quem foi, foi por amor. E bastava olhar ao redor: camisetas da banda, olhares marejados, vozes que sabiam cada verso de cor, como se cada pessoa ali tivesse feito um pacto com a própria adolescência.
Leigh Nash entrou toda de branco, como se fosse uma noiva alternativa (com sua bota dourada). Sua voz delicada e presença cativante conduziu o show com graça. Sorriu, agradeceu, conversou com a plateia, lembrou que estavam em turnê pelo Brasil e parecia feliz de verdade por estar ali. A acústica do Tork favoreceu o clima intimista do show.
Além dos próprios sucessos, o Sixpence é conhecido por transformar covers em verdadeiros clássicos E não é exagero dizer que, muitas vezes, suas versões soam até melhores que as originais. Em Curitiba, presentearam o público com interpretações sensíveis de Don’t Dream It’s Over (Crowded House) e mágicas como There She Goes (The La’s), que foi tema do comercial do shampoo Organics, da Unilever. Alguém aí se lembra?
Ah, é claro, a composição mais famosa da banda, Kiss Me, escrita por Matt Slocum (guitarrista e principal compositor da banda) deixou a plateia nas nuvens. A canção foi lançada em 1998 e se tornou o maior sucesso comercial do grupo, eternizada por sua inclusão em filmes e séries como Ela é Demais (She’s All That) e Dawson’s Creek. Logo na introdução, era possível ver os emojis imaginários de coração disparando das cabeças dos presentes.
Por isso, quando soube que a banda viria para o Brasil, foi inevitável pensar: “eu vou”. E fui. E me senti transportada para uma época em que tudo era mais simples, ou pelo menos parecia ser. Talvez o maior poder da música esteja aí: em nos permitir visitar o passado sem precisar sair do lugar.
O setlist foi praticamente impecável, embora um ou outro fã concordasse que I Can’t Catch You poderia muito bem ter substituído a natalina River, de Joni Mitchell, uma das faixas do álbum The Dawn of Grace, de 2024. Mas são detalhes pequenos, incapazes de comprometer o que foi, no todo, um reencontro precioso. Sim, porque teve doçura e introspecção em Melody of You e Julia. E o gran finale com a irresistível Breathe your name.
No fim das contas, a cidade pode até não ter comparecido em peso, mas quem esteve lá saiu com o coração mais cheio. Assim que a banda se despediu e as luzes do palco se apagaram, o som do Tork emendou a delicada God Only Knows, dos Beach Boys; uma homenagem a Brian Wilson, que havia falecido dois dias antes.
E assim, aos poucos, a gente foi se despedindo dos anos 90. Enquanto uma fila tímida se formava com fãs esperando a chance de entrar no camarim, outra crescia na frente do Tork com uma galera ansiosa para curtir uma festa geek.
Antes disso, os músicos do Sixpence voltaram ao palco discretamente para desmontar seus instrumentos, como se aquele fosse apenas mais um dia comum de turnê. Mas, para quem esteve ali, não foi só isso: foi memória viva, feita de som e sentimento.
Setlist:
Don’t Dream It’s Over (Crowded House cover)
Midnight Sun (The Choir cover)
Don’t Let Me Die in Dallas (Leigh Nash song)
River (Joni Mitchell cover)
There She Goes (The La’s cover)
Encore:
* Em breve, esta resenha será publicada no blog Mondo Bacana.