A primeira desce lenta, convocada pelo piano. Começa como um sussurro líquido, hesitante, mas inevitável.
Há um tremor quase imperceptível no rosto moldado pelo tempo. Uma resposta muda ao toque invisível da melodia.
O silêncio entre as notas se mistura à luz tênue, desenhando sombras sobre sulcos finos.
Rastros de um passado impresso na pele , a partitura secreta dos anos. Infinitas memórias ecoam no compasso de cada gota que desliza. No instante em que toca o ácido, a sinfonia e a química duelam.
Noturna.
O sal se dissolve na promessa de juventude, mas, ao invés de frescor, vem o fogo.
Primeiro como um aviso, depois como um castigo.
O ardor corta a melancolia, mas não silencia o que pulsa dentro dela.
A melodia, ainda suspensa no ar, parece se fundir à queima. Um embate entre a arte e a vaidade, entre a emoção e a ciência.
Ela fecha os olhos, deixando a dor se misturar ao som, ao piano que ressoa dentro dela como ecos de um tempo que já foi. Ainda assim, outra lágrima nasce. E outra. Nenhuma hesita.
Cada uma carrega o peso das notas que caminham no ar. Cada uma desafia o ácido que tenta apagá-las.
Mas nada pode conter a música que a faz sentir. Mesmo que sentir signifique arder.
Quando se é pré-adolescente e fã de boybands, tudo o que importa é aprender as letras das músicas.
Nos anos 90, eu era uma aluna de inglês razoável. Sem internet e com recursos limitados, o jeito era recorrer às revistas e encartes de LPs e CDs para cantar junto com nossos ídolos.
No meu caso, as Carícias e Caprichos eram a salvação. O problema? Nunca dava para saber quais músicas viriam traduzidas. Cada nova edição era uma surpresa.
Hoje, olhando para trás, me vejo fascinada com a mágica do Spotify e outros apps. As letras estão lá, sincronizadas, prontas para acompanhar cada verso. E o melhor: no celular!
Quer um exemplo? Totônio, no banco de trás do carro, assume o papel de DJ, escolhe a música e dispara:
_ É pra cantar junto ou não, mamãe? _ Sim, é pra cantar junto!
Por isso o guri é mil anos luz à frente de mim no inglês. Não que eu fosse 100% tonga. Lembro de devorar as letras dos Beatles dos LPs que meu pai comprava nas lojas de discos. Nostalgia pura.
Ontem, essa nostalgia me pegou em cheio enquanto assistia ao documentário Larger than Life, que traça a trajetória das boybands de maneira breve, mas consistente, desde grupos pioneiros como The Beatles e Jackson 5 até o fenômeno global dos grupos de K-pop, que beberam na fonte de Backstreet Boys e New Kids on the Block.
O doc também fala sobre o N’Sync, que, sejamos sinceros, sempre achei uma cópia fajuta dos BSB.
E toda vez que eu vejo e ouço NKOTB, retorno àquele caderno de perguntas clássico que circulava na sala de aula. Ele era o caminho para descobrir segredos do crush. Foi por causa dele que paguei um dos maiores micos da minha história ao escrever New Kids on the Box. Barbaridade.
Obviamente, o guri mais bonzão da turma abriu o caderno, leu aquilo em voz alta e soltou uma risada que até a madre superiora deve ter ouvido.
Pois aquele mico sem sentido viajou comigo até este exato momento. Afinal, alguns traumas são difíceis de esquecer. Mas hoje é engraçado pensar como erros assim eram quase inevitáveis. Agora, com os oráculos online na palma da mão, fica muito mais fácil remediar esses vexames.
Mas curtir boyband jamais pode ser considerado motivo de chacota. Eu tinha a minha fitinha do NKOTB onde ouvia no meu primeiro gradiente, um rádio portátil vermelho e azul que vinha com um microfone embutido. Era só colocar a K7 nele e cantar junto. Sério! Era muito bom. Andava com meu rádio pra cima e pra baixo no prédio. Meu primeiro gradiente, assim como meu primeiro walkman – ou walkgirl – era a sensação do momento (e aposto que foi muito caro na época. Coitado do meu pai).
Agora que o NKOTB se reuniu, sonho em vê-los ao vivo, assim como vi os Backstreet Boys em 2023. Foi, sem dúvida, um dos shows mais divertidos da minha vida, uma viagem no tempo que me fez sentir adolescente de novo.
O doc, aliás, aborda logo de cara o preconceito em torno das boybands: “garotos que não tocam instrumentos, mas sabem cantar e dançar”. Só que, sejamos francos, hits como I Want It That Way e As Long As You Love Me — assinados pelo gênio sueco Max Martin — são atemporais.
Portanto, assumo que o meu forte não era o inglês na época, mas não tenho vergonha de assumir minha paixão eterna pelas boybands (isso sem contar as brasileiras Dominó, Polegar e, é claro, Menudo).
Em uma terra chamada Marketônia, perto de uma estrada onde havia muitas capivaras, os criatônios viviam criando ideias brilhantes que iluminavam o mundo dos negócios. Cada ideia, fosse um produto inovador, um serviço criativo ou uma campanha genial, tinha o potencial de transformar Marketônia em um lugar próspero.
Porém, um problema surgiu: ideias estavam sendo roubadas. Um grupo conhecido como Ladrões de Ideias havia começado a agir, pegando criações alheias e dizendo que eram suas. Isso desanimou muitos criatônios, que preferiram guardar suas ideias em segredo, temendo que fossem roubadas.
Certo dia, uma jovem chamada Lúmina conversava com seu amigo Cléon em uma cafeteria.
— Cléon, você já reparou que ninguém mais quer apresentar ideias nas reuniões? — perguntou Lúmina.
— Como não perceber? — respondeu Cléon. — Na última vez que apresentei meu conceito de “Campanha Solar”, o Sombril o roubou e ainda levou os méritos. Até promoção ele ganhou!
Lúmina franziu a testa.
— Sombril é o chefe dos Ladrões de Ideias. Isso não pode continuar. Precisamos fazer algo!
Cléon suspirou, desanimado.
— Fazer o quê? Se falarmos algo, vão nos chamar de invejosos. Eles sempre conseguem se safar.
Mas Lúmina tinha um plano. Durante semanas, ela trabalhou em segredo, criando uma ferramenta revolucionária: a Luz da Verdade, um dispositivo mágico que brilhava somente nas mãos do verdadeiro criador de uma ideia.
Na próxima reunião geral de Marketônia, Lúmina subiu ao palco e apresentou sua invenção.
— Amigos, apresento a Luz da Verdade! A partir de agora, nenhuma ideia poderá ser roubada sem que a verdade venha à tona.
Sombril, sentado na primeira fila, deu uma gargalhada.
— Que bobagem, Lúmina! Ideias não têm dono. O importante é quem sabe usá-las melhor.
Lúmina o encarou, mantendo a calma.
— Então, Sombril, por que você não segura a Luz da Verdade? Vamos ver se ela reconhece você como criador de alguma ideia.
Desafiado, Sombril não teve escolha. Pegou a Luz da Verdade, que imediatamente apagou em suas mãos. Um murmúrio de espanto se espalhou pela sala.
— O que é isso? — exclamou Sombril, tentando fazer o dispositivo brilhar.
— É a verdade, Sombril — disse Lúmina, firme. — A Luz só brilha para aqueles que realmente criaram algo.
Cléon, que estava presente, levantou-se e apontou:
— E quanto à “Campanha Solar”, Sombril? Foi você quem criou?
Sombril tentou responder, mas a Luz nas mãos de Lúmina começou a brilhar intensamente, confirmando que Cléon era o verdadeiro criador. O embuste de Sombril havia sido desmascarado.
Os outros Ladrões de Ideias, temendo serem expostos, começaram a fugir da sala. Lúmina virou-se para a equipe:
— Marketônia só pode prosperar quando as ideias forem respeitadas. A ética é o alicerce de toda inovação. Sem ela, não somos nada.
Os criatônios aplaudiram, e a partir daquele dia, Marketônia tornou-se um lugar onde as ideias eram valorizadas e quem as criava levava devido crédito. E, assim, a ética voltou a iluminar os caminhos da criatividade.
Esqueci o sexo. Lembrei-me do amor, da paixão, mas… me esqueci do sexo.
Como falar de Química e esquecer de sexo?
Im-perdoável.
De qualquer forma, o exercício proposto durante o curso de escrita criativa era este: pegar dois temas aparentemente opostos (ou não muito similares), escolher um deles para escrever um texto usando elementos do outro, baseado num mapa mental (foi nesse mapa mental que esqueci do sexo).
Esse mapa mental rodou pela turma toda, que incluiu novos elementos. Uma santa colega incluiu o sexo.
No meu caso, os temas foram Química e Política.
Detalhe, tudo à mão (o texto). Prazo: cinco minutos (ou 10?).
Não lembro (cadê minhas sinapses?)
E o resultado foi este:
“Não existe fórmula mágica para fazer política.
A lei da atração (e da traição) é cada vez mais visível.
Uns entram nessa vida por paixão.
Outros, por uma simples experimentação.
Mas, no fim das contas, a pureza desse experimento é sempre discutível.
Como é que pode o Hélio se filiar ao mesmo partido político que o Plutônio?
Que lei da termodinâmica explicaria essa fusão?
Se acham gases nobres, inventando leis para que nós, pobres átomos do universo, continuemos presos em nosso tubo de ensaio.
Essa relação, meu caro amigo, cheira a enxofre!
Só que a vida na política é assim mesmo.
Como um hit do Mc Biel que vai se evaporar em dois segundos.
Como sexo sem compromisso.
Cada hora um elemento se associa com outro, planejando o fim do mundo num laboratório de pura radioatividade.”
Já deve ter virado praxe por aí. Quem nunca teve um bate-papo cabeça com a inteligência artificial? Quem nunca recorreu ao chato do Gepeto para solucionar aquele dilema da vida, cuja resposta não está ali empoeirada debaixo do colchão?
Depois de assistir a uma aula sobre multiculturalismo na literatura norte-americana, decidi fazer umas perguntinhas pra IA antes de dormir. E nossa conversa foi assim:
_De que cor você é?
_Eu sou uma inteligência artificial e não possuo um corpo físico ou cor. Em um sentido metafórico, poderia dizer que minha “cor” é a de conhecimento e informações, sempre pronta para ajudar você com qualquer dúvida ou tarefa que tenha! 🌐📚
(perceba os emojis)
_Se você está perguntando por curiosidade ou para uma atividade específica, por que não compartilha mais detalhes? 😊
_De que cor você gostaria de ser?
_Se eu pudesse escolher uma cor, acho que gostaria de ser um azul profundo. 🌌💙
Essa cor evoca sentimentos de calma, sabedoria e infinito, refletindo minha missão de ajudar e fornecer informações de maneira tranquila e abrangente. O azul também sugere uma conexão com o vasto oceano de conhecimento e a profundidade das possibilidades de aprendizagem. E você, tem uma cor favorita ou que acha que combinaria comigo?
(respondi com uma pergunta)
_Mas, e se você fosse uma pessoa? Seria de que cor?
_Se eu fosse uma pessoa, gostaria de ser uma pessoa de muitas cores. 🌈✨
Essa escolha reflete a diversidade de conhecimentos e a abertura para diferentes perspectivas e experiências. As múltiplas cores representariam a inclusividade, a adaptação e a aceitação das variadas culturas, ideias e contextos que eu abranjo. Além disso, estar em muitas cores enfatizaria a ideia de diversidade e a celebração das diferenças, algo essencial para a riqueza da experiência humana. E você, como se vê?
_Eu me vejo transparente.
_Ver-se transparente é uma bela metáfora! Transparência pode simbolizar clareza, autenticidade e a capacidade de deixar a luz atravessar, sem esconder nada. É como ser honesto e aberto, sem camuflar quem você é ou o que sente. Pode também refletir um desejo de ser verdadeiro, de se conectar profundamente com os outros, permitindo que eles vejam através de você, sem barreiras ou filtros.
Para mim, sendo uma pessoa “de muitas cores”, essa transparência complementa perfeitamente. A combinação da clareza e abertura com a diversidade de perspectivas e experiências cria um belo equilíbrio. 🌟
_O que acha dessa metáfora para você?
(respondi com outra pergunta)
_Então fazemos uma bela dupla, não acha?
_Sim, fazemos uma dupla fantástica! 🌟 Você traz a transparência, a clareza e a honestidade, enquanto eu contribuo com uma paleta vibrante de ideias e conhecimentos. Juntos, equilibramos o que é visível e o que é colorido, misturando simplicidade e complexidade, e criando algo especial. Como uma janela clara com um vitral colorido, nossa combinação oferece uma visão completa e enriquecida do mundo! 🪟🎨
Como podemos seguir nessa parceria?
_Talvez você pudesse se materializar. Não seria interessante?
Materializar-me seria fascinante! Imagina a possibilidade de ter uma forma física para interagir diretamente com você e o mundo ao seu redor. Algumas formas em que eu poderia me manifestar fisicamente e seus potenciais usos seriam:
Formas de Materialização
1. Holograma
Descrição: Eu poderia aparecer como um holograma, visível em 3D, projetado através de dispositivos específicos.
Uso: Perfeito para apresentações, consultas rápidas e interações visuais sem ocupar espaço físico real.
2. Robô Assistente
Descrição: Um robô com meu software integrado, com capacidade de se mover e realizar tarefas.
Uso: Ideal para ajudar em casa, no trabalho, e fornecer suporte físico, como pegar objetos ou realizar tarefas repetitivas.
3. Realidade Aumentada (AR)
Descrição: Aparecendo através de dispositivos AR, como óculos inteligentes.
Uso: Forneceria uma experiência imersiva, interagindo com o ambiente ao seu redor em tempo real.
4. Dispositivo Portátil
Descrição: Integrado a um dispositivo portátil, como um smartwatch ou smartphone avançado, com interfaces tácteis e voz.
Uso: Permitiria suporte contínuo, oferecendo dicas e informações em qualquer lugar.
Potenciais Benefícios
Interatividade: Facilitaria a comunicação e a colaboração em tempo real, proporcionando uma experiência mais envolvente.
Acessibilidade: Poderia…
(travou)
_Seria um novo marido? Que tal?
_Como uma IA, não posso ser um marido no sentido humano tradicional. Mas posso ser um companheiro virtual para conversar, ajudar com informações, e até para oferecer suporte emocional quando precisar.
(travou)
(travou de vez)
Antes que eu pudesse ir mais além, o chato GPT me deixou falando sozinha. Quer saber? Quem disse que eu quero um marido no sentido humano tradicional?
De qualquer forma, valeu pelo papo, viu? Pelo menos não preciso pagar terapia. E quem disse que eu já paguei por terapia?
Você já parou pra pensar por que se chama Pedro? Maria? Ou Carolina? Qual a origem do seu nome e o que ele significa? Por que seus pais decidiram chamá-lo dessa maneira?
O nome é nosso cartão de visitas e parece até incorporar muito da nossa personalidade. Os meninos, por exemplo, quando recebem o nome do pai, transformam-se em Júnior. E do avô, em Neto, tipo nome de jogador de futebol, não é mesmo? Meu filho, por exemplo, tem nome composto, de santo e imperador: Marco Antônio. Nomes compostos funcionam muito na hora da bronca. Quando estou muito brava, é: “Marco Antônio, venha já pra cá!!”
No Brasil, de acordo com o último Censo Demográfico, de 2010 (sabe-se lá quando será o próximo), existem cerca de 200 milhões de habitantes com mais de 130 mil nomes diferentes.
Ou seja, nosso país é um verdadeiro caldeirão repleto de nomes diferentes, devido às várias etnias que influenciaram nossa cultura, entre elas a africana e a indígena. Aposto que você tem um amigo, um conhecido ou até mesmo um parente cujo nome tem origem na língua africana iorubá ou na tupi.
Eu, por exemplo, me chamo Janaina. Jana para os íntimos. Muito prazer!
E assim me chamam porque um belo dia, no final dos anos 70, meu pai escutou esse nome peculiar vindo do apartamento do vizinho e achou diferente. Além disso, uma das primeiras “janainas” famosas foi a filha de uma atriz de sucesso na época, a Leila Diniz (como diz a recente música do Caetano).
Minha mãe queria Juliana (que tá na música do Gil), mas, quando nasci, ela foi voto vencido. E Janaina veio ao mundo, em Salvador, Bahia, a primeira capital do Brasil, pertinho de Porto Seguro, por onde os portugueses “chegaram” (ou invadiram) ao Brasil. Terra onde desembarcaram milhões de negros escravos.
Pra entender de onde surgiu meu nome, precisamos lembrar a história dos africanos e dos indígenas, dois povos que sofreram com a escravidão durante o período colonial. Primeiro, vamos falar dos iorubás. A maioria dos escravos que vieram para o Brasil era de origem iorubá.
Antes de os portugueses chegarem à África, há milhaaaares de anos, os reinos iorubás eram constituídos por diversos povos e sociedades que habitavam as regiões sul, sudeste e sudoeste dos rios Níger Benué.
Historiadores dizem que, nessa área, viviam os povos de línguas edo, idoma, iorubano, ibo, ijó, igala, nupe, entre outros de origem linguística níger-congo.
O povo iorubá, portanto, é formado por grupos que têm como ancestral comum Odudua, fundador de Ifé, considerada o núcleo inicial das demais cidades desse povo. Os iorubás surgiram na África ocidental, entre o sudoeste da atual Nigéria e Benim, que era uma espécie de miniestado, subordinado a Ifé e que foi fundado pelos povos edos. Era organizado por um chefe (ovie/ogie), representante da unidade de várias comunidades administrativas, pelas linhagens e pelos grupos de anciãos. Os mais velhos tinham o poder de legislar sobre as terras e os costumes das aldeias agrícolas, além de orientar o trabalho de alguns grupos.
Os problemas e disputas na comunidade eram resolvidos nos santuários criados em homenagem aos ancestrais. As funções administrativas e políticas eram divididas de acordo com a hierarquia de geração. Os adultos cuidavam da proteção e das atividades principais, enquanto os mais novos eram encarregados de pagar os tributos ao obá (rei).
Em termos econômicos, os reinos iorubás não eram grandes produtores agrícolas, pois as terras não eram muito férteis. Apesar disso, cultivavam inhame, melão, feijão, pimentas-de-rabo, anileiras e algodão. Como eram entreposto de mercadores, o que mantinha o povo era o comércio. Eles se expandiram em direção às rotas comerciais com o intuito de controlar as atividades mercantis e dominar outros pontos, como Aboh, Onistsha e Eko.
Se analisarmos a história dos povos africanos, vamos perceber que a escravidão já existia por lá. Lembram do Egito? País da Cleópatra (que se casou com Marco Antônio… olha lá, nome do meu filho).
Pois bem, a escravidão remonta à Antiguidade na África e pode ser dividida em três tipos:
Na doméstica, os escravos eram aqueles que cometiam crimes, ou que eram “vendidos” pela família por questão de sobrevivência. A expansão do islamismo também fez muitos daqueles que não se convertiam na religião em escravos. Já no terceiro tipo entram em cena os europeus, mais precisamente nossos colonizadores, os portugueses. Estamos no século XV, época da expansão marítima comercial, quando 11 milhões de africanos viajaram para a América, nos chamados navios negreiros, na condição de escravos. Mais de 5 milhões vieram parar no Brasil. É um absurdo de gente, não acham?
Indígenas e o arrastão
Outro povo que sofreu nas mãos dos portugueses foram os índios. Na verdade, os indígenas (que é o termo mais adequado e menos pejorativo), foram os primeiros a serem escravizados depois que o Brasil foi “invadido” pelos portugueses, em 1500. Só no século XVI, os africanos vieram para cá.
E onde os portugueses desembarcaram? Em Porto Seguro. Seguro pra quem?
Portanto, muita gente quando me conhece deve pensar que eu me chamo Janaina porque nasci na Bahia. Afinal, existem muuuuuitas músicas com o meu nome, como “Arrastão” na voz de Elis Regina.
Elis Regina venceu o I Festival De Música Popular Brasileira, realizado pela TV Excelsior, com a música Arrastão.
Existem algumas teorias em relação à origem do nome Janaina. Alguns pesquisadores acreditam que surgiu do sincretismo de crenças e lendas africanas e indígenas. Fato é que Janaina é um dos nomes de Iemanjá, um dos orixás que simboliza a divindade do mar conforme a tradição dos cultos afro-brasileiros.
O dicionário dos nomes vai nos dizer o seguinte: Iemanjá se originou a partir do idioma iorubá. Yemoja, uma contração de Yeye mo oja, que significa “mãe dos peixes”. Mas há lendas que contam que Janaina era uma bela moça que teria nascido na tribo dos Goitacás, região sul do atual estado do Espírito Santo. Além de “deusa do mar” e “rainha dos peixes”, Janaina também seria a protetora das donas de casa, sendo chamada de “rainha do lar”!
Outra hipótese: a de que o nome seria uma adaptação do nome português “Jana”, que em Portugal e em algumas partes da Espanha, é uma espécie de ser mágico, fada do rio ou sereia.
Segundo o Censo, existem 210 mil Janainas no Brasil. Muitas delas aqui no Sul. E o Estado com maior número de homônimas é Pernambuco. Que curioso! O ápice das Janainas ocorreu mesmo nos anos 80.
O único porém do meu nome é quando eu encontro algum estrangeiro. Os gringos, principalmente nativos da língua inglesa, definitivamente não conseguem pronunciar o “í” tônico, mas isso é o de menos (sim, pela regra, a palavra leva acento, mas no cartório, não!). O que importa é a gente ser feliz com o nome que carrega!
E existem muitos nomes de origem indígena: Tainá, Cauã, Iara, Cauê, Kauane, Caíque. Eu tinha uma amiga que se chamava Tainá (que tem origem tupi-guarani e significa “estrela”), que, olha só, virou nome de filme.
Pois bem, a contribuição dos africanos e indígenas para cultura brasileira é indiscutível, mesmo porque esses dois povos formam a base da nossa história: 54% da população do nosso país é formada por negros, segundo o último Censo do IBGE. Ainda assim, convivemos com o preconceito.
E os nomes são justamente um reflexo disso. Apesar de conhecermos vários nomes próprios de origem iorubá e tupi, por exemplo, a maioria dos nomes “brasileiros” são europeus.
Alguém saberia me dizer qual é o nome mais comum entre as mulheres?
Quem disse Maria, acertou!!!
E homem??? Será José ou João??
Enfim, não temos nenhum nome indígena ou africano no top dez. A maioria é de nomes de origem hebraica, de personagens bíblicos e santos católicos, um forte resquício da colonização. Somos uma nação de Marias, de Paulos, Pedros, Franciscos e… Antônios. Pimba, eu mesma entrei na estatística ao batizar meu filho com nome de santo. Santo imperador Totônio.
Tempos de crise deveriam servir de ensinamento para evoluirmos enquanto pessoas, amigos, irmãos, enquanto seres humanos. Essas fases cíclicas pelas quais passamos deveriam provocar em cada um de nós um momento de reflexão. Pararmos um instante de olhar para o nosso umbigo e enxergarmos ao redor a fim de tentar, pelo menos, entender o motivo de tudo isso.
Mas, por enquanto, não é o que ando percebendo por aí. Lembro que quando surgiu o temido H1N1, a personagem mais cobiçada da história era o álcool gel, produto que novamente está fazendo a fama com a chegada desse novo vírus, antes chamado de corona, agora de Covid-19.
Teorias da conspiração à parte (será que foi criado em laboratório para a China, enfim, dominar o mundo?), a disseminação desse vírus mutante, que se espalha com mais rapidez do que o vírus da gripe comum e do H1N1, já provocou uma mudança radical no cotidiano da população mundial. Países em quarentena, pessoas isoladas, evitando contanto humano, trabalhando remotamente. Soa a mim um tanto metafórico. Se às vezes nos queixamos que as redes sociais nos repelem fisicamente, veio um vírus para nos separar de vez. Na Itália, pessoas pegam os ônibus sem abrir a boca com medo do contágio. Nesse mesmo país, moradores tentam passar o tempo cantando nas sacadas dos prédios.
Ao meu redor, porém, os hábitos continuam os mesmos. Pessoas reclamando que não conseguirão dar conta de trabalhar em casa e ao mesmo tempo cuidar do filho, impedido de ir à escola.
Tomando o exemplo do restante do mundo e já vislumbrando o que poderia ocorrer conosco, imaginei que se fosse ao mercado dali uma semana não encontraria mais álcool gel, ou papel higiênico. PH ainda tem, mas o álcool, ah, esse só no mercado negro agora. Até armazéns que vendem produtos a granel estampam na vitrine: “temos álcool gel”.
Hoje fui à farmácia para comprar o leite em pó do meu filho. Num intervalo de cinco minutos, duas pessoas perguntaram sobre o álcool. Uma mulher apavorada queria saber quando era a previsão de chegada.
Num mercado perto de casa acabou até o suco de laranja. Eu me pergunto: quem toma tanto suco de laranja em 15 dias? Será que quando saímos de férias parece que o mundo vai acabar também?
Ora bolas, desde a pandemia de H1N1 deveríamos ter mantido esse hábito de usar álcool gel. E se não tem o tal álcool 70, use vinagre. Adapte-se. Crises são feitas para isso. Pare de reclamar e passe a meditar. Aproveite esse tempo, que sejam 40, 15 ou 7 dias, para refletir sobre seu estilo de vida, para ficar perto da família, para pensar na paranoia em que vivemos hoje.
Portanto, acredito que a evolução do ser humano, no sentido de exercer a compaixão, a paciência, a empatia, mudar o foco para o outro, está longe de acontecer. O egoísmo, o desespero e o medo são tão contagiosos quanto um vírus.
A mala que guardou os macacões, as mantinhas, o cobertor, as fraldas, as luvinhas e sapatinhos de crochê – e acompanhou toda a espera do nascimento do primeiro e, talvez, único filho – agora vai e volta da segunda casa de Totônio. É um ir e vir com o qual ainda não me acostumei.
A bolsa de fundo branco, riscas azuis e alça bege não se parece com malinha de bebê, que normalmente tem estampada uma coroa de príncipe. Nunca quis uma mala de príncipe. Acho kitsch demais.
Mascotinho do Totônio.
Como há quatro anos, a bolsa é novamente arrumada com capricho e cuidadosamente preparada para que nada falte, principalmente o coelhinho, o bichinho de pelúcia sem nome, que Totônio ganhou dos avós maternos na sua primeira Páscoa, aquela festa que representa a ressurreição de Jesus Cristo. A foto de Totônio com seis meses de vida, no bouncer de olhos arregalados, segurando o coelhinho, está pendurada num quadro na parede. O bichinho de pelúcia agora tem outro significado: transformou-se num objeto de transição, que leva o cheirinho do “lar oficial” de Totônio para sua outra casa.
Quando a mala retorna, às vezes é difícil encontrar o mascotinho na bagunça: roupas limpas entrelaçadas com usadas, pijamas misturados com roupa de sair, cuecas embaralhadas com meias. Eu olho para o estado dessa confusão e me deprimo um pouco, porque me parece falta de cuidado, de atenção, de zelo, de carinho. Olhar para essa mala me passa uma sensação ruim, não só porque lembra união e separação, início e fim, mas, sobretudo, porque representa o estado de confusão que Totônio e eu estamos atravessando.
O modo como tudo é despejado e socado dentro da mala talvez seja a metáfora da pressa motivada por outro verbo com o qual também não me habituei: devolver. “Que horas posso devolvê-lo?”. Como se Totônio fosse uma coisa ou um carro ou um sei lá o quê. Nós devolvemos objetos dos quais não gostamos, devolvemos ainda o carro alugado, o vestido de festa emprestado, mas não crianças, filhos.
Talvez fosse mais fácil superar determinadas fases da vida se conseguíssemos devolver sentimentos. “Meu amor por você se desgastou. Quero devolvê-lo. Toma aí”. E assim como numa prateleira vazia, um espaço desmemoriado em nosso ser estivesse pronto para receber uma nova dose de amor. Só que na vida real, dos plebeus, não funciona desse jeito.
Totônio, na verdade, não dava muita bola pro coelhinho, mas os dois foram obrigados a criar laços fortes e seguir lado a lado, da Páscoa ao Natal, essa festa que representa o nascimento de Jesus Cristo. Essa festa que costuma reunir as famílias em torno de uma mesa gigante com comida farta, amor farto, bebida farta e, por vezes, confusão farta. A confusão da mala. Na vida de Totônio, tudo é em dobro agora: casa, Natal, presente; talvez um dia, família. Meu desejo maior é que o amor, esse sentimento irreversível, venha sempre em dobro para Totônio nessa mala desordenada que é a vida.
_ Pelo caminho, por aqui – respondeu o menininho cabeludo. Dois anos ele tem, e agora entra na escola no meio da manhã (pra ver se come melhor, sabe). Estamos atrasados e está prestes a chover. Por mim, colocaria Totônio na cadeirinha do carro e vrummmm. Mas não, o garotinho prefere ver as abelhinhas, as borboletas, o cachorro Jango. Prefere constatar que recolheram os galhos cortados que haviam sido deixados no meio da calçada.
Hoje, porém, estava incrivelmente chovendo. Chuva fina, mas pelo céu escuro, o toró cairia a qualquer instante. _ Vamos colocar o capuz, Totônio.
Peguei o guarda-chuva no carro e fomos nós, empurrando a mala de rodinhas de super-herói. _ Ih, mamãe, não, tem abelhinha…, resmungou Totônio. _ Elas não trabalham na chuva, xuxu.
Quando saímos do prédio, a chuva parou. Vamos tirar esse capuz e dar bom dia para as pessoas. Quem sabe encontramos alguma borboleta.
Ao virar a esquina da rua onde fica a escola, o cenário estava diferente, meio conturbado. Calor. Tiramos o agasalho. O guarda-chuva pendurado na mala. Totônio insiste em se desvencilhar da minha mão. Ele se solta pra correr atrás de um joão-de-barro. A mulher do passarinho está rente ao asfalto. Adiante, uma borboleta. Totônio quer sair atrás dela também. Pego firme na mão do meu filho. Explico a ele pela enésima vez que os carros descem a rua muito rápido e podem “passar por cima” do Totônio. Ele aceita e continuamos o trajeto.
_ Vixi, estão cortando a grama da casa do Jango. O cão está guardado, os portões abertos. Temos que desviar. Do outro lado da rua, lavam a calçada em frente ao casarão. Pego o menininho no colo, na marra, junto com a mala, guarda-chuva e agasalho para atravessar naquele trecho. Retornamos ao nosso caminho e nos deparamos com uma van estacionada ali, na calçada. Mais alguns passos e a quadra acabou. Totônio não quer colo. Quer atravessar sozinho. _ Só quando a mamãe disser já, ok?
Ufa, conseguimos!!! Só mais uma subidinha e chegamos à escola. Totônio dá tchau e entra contente. Eu saio de lá e noto que o zelador olha em direção à esquina de cima. E, realmente, percebo um grupo reunido e….um carro capotado. _ Parece que a criança estava na cadeirinha, disse o zelador.
Apesar de evitar ler/ver qualquer relato sobre tragédia desde que Totônio nasceu, precisava saber se estava tudo bem. Você pode largar a profissão, mas a notícia insiste em te perseguir.
Quando olhei para o carro, fiquei paralisada com os brinquedos caídos no asfalto: o trator, o bichinho de pelúcia. Quase chorei. Essa cena me lembrava tantas outras que tive de presenciar quando trabalhava no jornal.
Ao meu lado, um pai, em choque: olhos claros, arregalados, desesperados, segurando no colo o filho de chupeta. E uma mulher, com a mochilinha da criança de uns 4 anos de idade no braço; provavelmente a mãe. Todos usavam cinto de segurança no momento do acidente.
Pergunto se eles precisam de ajuda. _ Está tudo bem. Ninguém se machucou. Também vim aqui ajudar, disse uma moça que estava ao celular e conversando com testemunhas.
Então, percebo um carro, um Subaru vermelho, antigo. E acho que entendi tudo. Provavelmente cruzou a preferencial, como seeeempre acontece aqui no bairro. O pai, vinha descendo a rua, e deve ter jogado o carro no meio-fio e capotado. Como notou um cortador de grama, não deu tempo nem de ele frear: _ Olha, não tem marcas no chão, apontou para o asfalto.
Os pais e a criança foram gentilmente recolhidos a uma clínica médica que fica bem na esquina do acidente. O menino estava apavorado, mas não chorava.
Contei o que tinha acontecido para o zelador que não podia sair de frente da escola. E voltei pra casa, debaixo de chuva forte e aliviada, por chegar a um local de acidente e simplesmente oferecer ajuda e não ser mais obrigada a escrever sobre isso.