Manifesto pelo fim do “Dito Isto”

(e quem já foi usado demais)

Eu sou o “dito isto”.

Sim, eu mesmo.

A pausa estratégica.

O respiro que parece inteligente.

A dobradiça entre uma ideia e outra que, quase sempre, nem precisava existir.

E eu estou cansado.

Cansado de entrar em frases que já sabiam onde queriam chegar.

De ser chamado pra dar importância ao que não tem. De servir como maquiagem pra pensamento raso.

Você talvez não saiba, mas eu nunca pedi esse papel.

No começo, eu até fazia sentido.

Eu ajudava a organizar. Conectava ideias com alguma elegância, ou pelo menos com intenção.

Mas aí vocês exageraram e me colocaram em todo lugar.

Me transformaram em vício e me usaram como atalho pra parecer seguro quando, na verdade, estavam só inseguros demais pra dizer “é isso”.

Daí eu fui ficando, assim, gasto.

Hoje, quando eu apareço, quase ninguém me escuta. Só reconhece.

Eu entro e as pessoas pensam: “lá vem o dito isto”.

E não porque eu trago algo novo, mas porque eu anuncio o mesmo de sempre, com um pouco mais de pose.

O fato é que eu virei um aviso de formalidade.

Um alarme de que a conversa vai perder um pouco de vida.

E olha… eu não aguento mais ser isso.

Não aguento mais interromper o fluxo de quem estava quase sendo verdadeiro.

Não aguento mais segurar frases que queriam ser simples.

Não aguento mais esse papel de dar peso artificial às coisas.

Eu não quero mais organizar o que podia ser só dito.

Quero me aposentar das reuniões longas, dos textos que têm medo de respirar, das falas que precisam parecer mais do que são.

Quero deixar vocês sem mim, sem essa transição ensaiada ou a necessidade de provar que existe lógica em tudo.

Sem esse pequeno teatro no meio da frase.

Vocês conseguem, sabia?

Conseguem falar direto e pensar em voz alta.

Conseguem até errar o caminho, e, ainda assim, chegar em algum lugar mais honesto.

Sem mim.

Então, da próxima vez que a frase pedir minha presença, que a língua quase me chame, que o hábito bata na porta, resista.

Me deixa de fora.

Não por mim.

Mas por você.

No fundo, eu só existo quando falta coragem de continuar sem apoio. E acho que já tenha passado da hora de vocês descobrirem como é falar sem precisar de mim.

Dito isto…

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