A gente achava (ou queria acreditar) que, depois de uma pandemia global, alguma coisa mudaria nas pessoas.
Que o medo da perda, do isolamento, da finitude, nos deixaria mais atentos uns aos outros. Que a dor compartilhada amoleceria corações, abriria ouvidos, ensinaria a cuidar.
Mas não. Passou o caos, e muita gente continuou exatamente igual. Ou pior.
Há quase dois meses, cada dia começa com incerteza e termina com cansaço. E, mesmo assim, tem gente ao meu redor que parece viver em outra frequência. Uma frequência em que a empatia é luxo, e tudo o que importa é o que você entrega.
Gente que mal pergunta se está tudo bem (é claro que não está!), mas cobra. Cobra prazos, respostas, disposição. Cobra como se nada estivesse acontecendo.
Vivemos num mundo ansioso, acelerado, onde sentir virou quase um atraso. Não há tempo pra pausas, pra escutar, pra acolher. Só importa o desempenho, o resultado, o “segue o baile”. E se você para ou diminui o ritmo (ainda que por um motivo profundamente humano) é tratado como um obstáculo, um problema, um ruído.
E aí a gente se pergunta: de que adiantou tudo aquilo? O medo, a saudade, os boletins médicos, as orações em rede, o “vai passar” colado na janela? Parece que passou, mas junto passou também qualquer rastro de sensibilidade que podia ter nascido dali.
Algumas pessoas simplesmente não querem saber. E talvez nunca queiram. Só querem que você entregue, entregue e entregue.
Mas aqui, pelo caminho, sigo acreditando que sentir ainda é resistência. E que se há algo a ser feito, é continuar sendo humano, mesmo quando o mundo insiste em deixar de ser.