Quando se é pré-adolescente e fã de boybands, tudo o que importa é aprender as letras das músicas.
Nos anos 90, eu era uma aluna de inglês razoável. Sem internet e com recursos limitados, o jeito era recorrer às revistas e encartes de LPs e CDs para cantar junto com nossos ídolos.
No meu caso, as Carícias e Caprichos eram a salvação. O problema? Nunca dava para saber quais músicas viriam traduzidas. Cada nova edição era uma surpresa.
Hoje, olhando para trás, me vejo fascinada com a mágica do Spotify e outros apps. As letras estão lá, sincronizadas, prontas para acompanhar cada verso. E o melhor: no celular!
Quer um exemplo? Totônio, no banco de trás do carro, assume o papel de DJ, escolhe a música e dispara:
_ É pra cantar junto ou não, mamãe?
_ Sim, é pra cantar junto!
Por isso o guri é mil anos luz à frente de mim no inglês. Não que eu fosse 100% tonga. Lembro de devorar as letras dos Beatles dos LPs que meu pai comprava nas lojas de discos. Nostalgia pura.
Ontem, essa nostalgia me pegou em cheio enquanto assistia ao documentário Larger than Life, que traça a trajetória das boybands de maneira breve, mas consistente, desde grupos pioneiros como The Beatles e Jackson 5 até o fenômeno global dos grupos de K-pop, que beberam na fonte de Backstreet Boys e New Kids on the Block.
O doc também fala sobre o N’Sync, que, sejamos sinceros, sempre achei uma cópia fajuta dos BSB.
E toda vez que eu vejo e ouço NKOTB, retorno àquele caderno de perguntas clássico que circulava na sala de aula. Ele era o caminho para descobrir segredos do crush. Foi por causa dele que paguei um dos maiores micos da minha história ao escrever New Kids on the Box. Barbaridade.
Obviamente, o guri mais bonzão da turma abriu o caderno, leu aquilo em voz alta e soltou uma risada que até a madre superiora deve ter ouvido.
Pois aquele mico sem sentido viajou comigo até este exato momento. Afinal, alguns traumas são difíceis de esquecer. Mas hoje é engraçado pensar como erros assim eram quase inevitáveis. Agora, com os oráculos online na palma da mão, fica muito mais fácil remediar esses vexames.
Mas curtir boyband jamais pode ser considerado motivo de chacota. Eu tinha a minha fitinha do NKOTB onde ouvia no meu primeiro gradiente, um rádio portátil vermelho e azul que vinha com um microfone embutido. Era só colocar a K7 nele e cantar junto. Sério! Era muito bom. Andava com meu rádio pra cima e pra baixo no prédio. Meu primeiro gradiente, assim como meu primeiro walkman – ou walkgirl – era a sensação do momento (e aposto que foi muito caro na época. Coitado do meu pai).
Agora que o NKOTB se reuniu, sonho em vê-los ao vivo, assim como vi os Backstreet Boys em 2023. Foi, sem dúvida, um dos shows mais divertidos da minha vida, uma viagem no tempo que me fez sentir adolescente de novo.
O doc, aliás, aborda logo de cara o preconceito em torno das boybands: “garotos que não tocam instrumentos, mas sabem cantar e dançar”. Só que, sejamos francos, hits como I Want It That Way e As Long As You Love Me — assinados pelo gênio sueco Max Martin — são atemporais.
Portanto, assumo que o meu forte não era o inglês na época, mas não tenho vergonha de assumir minha paixão eterna pelas boybands (isso sem contar as brasileiras Dominó, Polegar e, é claro, Menudo).
