As vacas e o ruminar da vida

Era um dia simples. Um daqueles em que o silêncio paira como uma respiração contida, e o sol, generoso, derrama luz sem pressa. No curral, a Vaca do Presépio, imóvel, era mais que uma vaca: era a própria pausa. Existia ali, entre a sombra e o pasto, como quem abraça o vazio sem medo. Ela ruminava mais que capim — ruminava o mundo.

Então, vieram elas. Uma a uma, como ecos de inquietação que o destino soprou para perturbar o equilíbrio. A primeira, a Vaca Ansiosa, chegou desordenada, tropeçando em si mesma.

— E se tudo der errado? E se o céu cair? — ela perguntava, com olhos grandes que viam perigos onde só havia vento.

A Vaca do Presépio olhou-a com doçura quase imperceptível.

— O céu não cai, mas a angústia pode pesar como se caísse. Respira. Rumina devagar.

Depois, veio a Vaca Tirana, pisando firme, como quem desafia o chão a ser mais duro.

— Isto aqui está errado! Aquele curral está torto, e a vida deveria me obedecer! — rugiu, como se pudesse dominar até as nuvens.

A Vaca do Presépio inclinou a cabeça, observando.

— Nem sempre o mundo escuta. Mas, às vezes, é o silêncio que ajeita.

Logo, um olhar enviesado entrou pelo curral. Era a Vaca Invejosa, carregando o peso de não ser outra.

— Por que você tem isso tudo? Essa calma, essa beleza… por que você? — murmurou, amarga.

A Vaca do Presépio suspirou, como quem vê a dor além da pergunta.

— Porque eu aprendi que ser não é ter. A calma vem do que aceito, não do que me falta.

E então, a Vaca Egocêntrica surgiu, adornada de si mesma.

— Olhem para mim. Apenas olhem. Sou o centro. Vocês são satélites — declarou, com uma voz que parecia acreditar.

A Vaca do Presépio não se moveu. Apenas disse:

— Até o centro precisa de algo ao redor. Sem o outro, até o brilho cansa.

A quinta chegou bufando certezas: a Vaca Arrogante.

— Vocês não sabem nada. Eu sei. Sei de tudo. — Ela falava como quem mastiga o mundo sem saboreá-lo.

A Vaca do Presépio sorriu com a lentidão de quem não tem pressa de convencer.

— Saber demais às vezes nos deixa sozinhos. É mais doce aprender junto.

Por fim, a última: a Vaca Tiazona, ruidosa como a vida que quer ser vista.

— Me contem, me contem! Vamos falar do que não é nosso. O mundo gira melhor com boas histórias — ela disse, exalando uma curiosidade que era quase afeto.

A Vaca do Presépio piscou devagar.

— Histórias são vivas. Mas lembre-se: elas também podem cortar.

O dia foi passando, como os dias passam: inteiro e incompleto. As vacas ficaram ali, cada uma sendo sua própria ferida e sua própria cura. Entre o barulho e o silêncio, entre o ego e o outro, aprenderam que, mesmo diferentes, eram parte do mesmo pasto.

No fim, a Vaca do Presépio permaneceu imóvel, mas mudou. Porque mudar não é se mover, é perceber.

Moral, ou o que quer que isso seja: às vezes, a diferença entre o caos e a paz está na forma como se saboreia o dia.

Mastigando o silêncio

De repente, um movimento à minha direita me faz mover o olhar. Lá está ela, na parede, quieta, nojenta e frágil. Minha única companhia viva numa noite vazia.

Não emite som, mas sua presença é como um peso no ar. Por que elas teimam em morar aqui? O veneno não foi suficiente?

O pavor cresce rápido, quase sem sentido. Não o dela, o meu. Ela não se move, como se esperasse o seu fim ali tão perto dos livros que pode devorar, de tantas páginas que guardam o que eu ainda não li.

Levanto da cama, sem querer fazer barulho, como se, de algum modo, esse ser fosse perceber minha presença e fugir.

Mas, antes que eu possa pensar em algo, o movimento é rápido, seco. Matá-la não parece um ato de defesa, mas de desespero. Volto para a cama, e a sensação de asco permanece assim como a pequena mancha na parede.

Já não sei se a solidão vem de mim ou de algo que se perde aos poucos, como os livros ou as lembranças que esses bichos nunca pedem, mas consomem assim mesmo.

Meu peito esquerdo

Quando passei a questionar o sentido da minha vida – mesmo que esse sentido estivesse dormindo no quarto ao lado – as luzes começaram a piscar como se quisessem alertar: hey, tem algo errado aí!

Esses sinais, acredite ou não, foram o caminho para a descoberta do propósito de minha existência: permanecer viva. As piscadelas conduziram a mão até o lugar onde habitava aquilo que me comia por dentro.

Espera aí. Eu tô sentido direito? 

Fui apalpando e encontrando, e apalpando e encontrando e… por mais que procurassem me tranquilizar, me acalmar, dizendo “já passei por isso”, eu tinha plena convicção da natureza epistemológica daquele tumor invasor. Assim como sempre soube que meu filho seria do sexo masculino. Conheço meu corpo. 

No primeiro dia, a culpa veio me assombrar. Culpei a fritura. Culpei ter fritado meu cérebro. No segundo dia, a raiva. E todo dia o medo constante de morrer. Por que eu? Ora, bolas… por que minha mãe também? Por que a prima de uma amiga que é mãe de trigêmeos? Por que as mães de outras amigas? Por que 60 mil mulheres por ano no Brasil em 2020? Mamma mia!

Aprendi na marra que me vitimizar é feio. Aprendi na marra que o sentido da vida é continuar viva para poder abraçar meu filho o dobro de vezes, já que a pandemia ainda me impede de abraçar o mundo inteiro.

No fim, me senti abraçada por todos os gestos carinhosos de pessoas queridas da família, amigos ou até mesmo estranhos que se preocupam mais contigo do que seu vizinho de porta.

Pensei que demoraria dias pra me encarar no espelho. Agora entendo as vantagens de ter seio pequeno. Esse peito esquerdo de bico invertido que jorrava leite e foi mordido pela cria. Assim é bem mais fácil enfrentar a trombada que levei. Que me mutilou. O importante é que o recheio pode ser substituído. Graças à técnica, à tecnologia. Graças a quem veste branco.

O mesmo bico invertido está lá. A diferença é que eu não sinto nada. Socorro!

Espera… isso não é nada. E ao mesmo tempo tudo. Esse recheio também invasor que parece uma armadura, uma concha de feijão, expande a pele, eleva a mente e revela a verdade sobre a minha natureza. Em breve, estarei pronta para peitar todo mundo!

O invasor