Saudade do desconhecido

Senti uma saudade enorme de alguém que eu nunca conheci ao vivo.

É aquele tipo de saudade que não tem registro fotográfico na galeria.

Não é de alguém que já sentou do meu lado ou mesmo de alguém com quem troquei sorrisos.

É de alguém que a gente conhece… sem nunca ter conhecido.

E, ainda assim, a sensação é estranhamente real.

A gente sabe o jeito da pessoa rir. Sabe como ela fala. Reconhece o olhar, o tom de voz, as manias, as pausas. A gente acompanha dias bons, dias ruins, fases, opiniões, mudanças.

Cria uma familiaridade silenciosa que não foi construída em convivência, mas em presença constante.

É uma convivência de um lado só, mas o sentimento não sabe disso. Porque o nosso cérebro entende repetição como proximidade. E o nosso coração entende a proximidade como vínculo.

Então, quando essa pessoa some um pouco, quando desaparece da tela por alguns dias, ou simplesmente quando a gente percebe que talvez nunca vá cruzar com ela na vida real, vem aquela sensação difícil de explicar:

Saudade.

Uma saudade que parece sem autorização para existir.

Como se a gente precisasse justificar:

“mas eu nem conheço essa pessoa…”

Só que conhece, de um jeito diferente. Conhece o suficiente para que a ausência seja sentida.

Talvez o que a gente sinta falta não seja da pessoa em si, mas da sensação que ela provoca na gente. Do conforto de ver, de ouvir, de acompanhar. Da impressão de proximidade que se criou sem que a gente percebesse.

É uma saudade que nasce da familiaridade, não da memória. Da presença recorrente, não da história compartilhada.

E é aqui que Jung ajuda a explicar o que a gente sente.

Ele dizia que, muitas vezes, não nos conectamos apenas com a pessoa real, mas com aquilo que projetamos nela. Com imagens internas, arquétipos, partes nossas que reconhecemos no outro, mesmo sem nunca ter estado perto dele.

A gente não se apega só ao indivíduo, mas se apega ao significado que ele ganha dentro da nossa psique.Talvez essa pessoa tenha virado, sem saber, um espelho simbólico de algo que é muito íntimo nosso. Um arquétipo de acolhimento, de admiração, de identificação, de companhia.

E é por isso que a ausência dela pesa: porque não é só a pessoa que some da tela; é também essa sensação interna que perde um ponto de apoio.

É como se a gente sentisse falta de uma parte nossa que estava, silenciosamente, ancorada ali.

E isso fala muito sobre o tempo em que a gente vive. Um tempo em que vínculos também se constroem através de telas, em que a gente aprende a se sentir próximo de pessoas que nunca tocaram a nossa vida fisicamente, mas tocaram emocionalmente.

Talvez essa saudade seja só a prova de que o afeto não depende, obrigatoriamente, de presença física.

Às vezes, ele depende só de presença sentida.

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