Abri o armário achando que encontraria apenas lembranças, mas encontrei um pequeno acervo de camisas e blusas brancas, quase todas iguais, quase todas com aquele mesmo jeito dela de tentar parecer simples mesmo quando carregava mundos inteiros por dentro.
Eu não fazia ideia de que ela guardava tantas. Guardava tudo dentro do seu armário interior. Era tanta roupa que ficar muda a consumiu por dentro.
Fui tirando peça a peça. Com e sem cabide. Dobrava, ensacava. Como é difícil, Aprendi com ela a não usar amaciante.
Cada peça parecia conter um gesto, um riso curto, um costume antigo. E eu ali, entre as pilhas, tentando entender se aquilo era excesso ou permanência.
Fiquei com algumas. As que, por algum motivo, pareciam falar comigo. Não sei se é apego, necessidade ou só um jeito de manter por perto algo que ainda não sei deixar ir.
Seu tênis caminha comigo agora. Visto de memória uma ou outra camisa.
O restante… doeu. Parte doei. Parte vendi em brechós. Não havia espaço para tudo e, talvez, também não houvesse espaço em mim para guardar tanto.
E então me dei conta de algo estranho e bonito: por aí, em alguma esquina ou corredor de mercado, talvez exista alguém vestindo uma das blusas da minha mãe.
Um corpo desconhecido, continuando um pedaço da história que ela deixou. Um fio de vida que segue, mesmo quando não é mais nosso.
Gosto de pensar nisso: que o que foi dela ainda respira no mundo. Que há roupas caminhando, tocando o vento, sendo lavadas, secas ao sol, amassadas, escolhidas, esquecidas e lembradas… como qualquer vida.
No fim, percebi que não dei embora as roupas. Dei caminhos. E talvez seja assim com tudo o que a gente perde: um dia, em algum lugar, encontra uma forma nova de existir.