Essa foi uma das primeiras perguntas que ouvi. E entendo. Quando alguém morre, espera-se um ritual. Um lugar, uma hora, um momento em que se possa dizer adeus. Mas a verdade é que minha família é pequena. Temos poucos amigos. E, pra ser sincera, nunca gostei de velórios.
Não consigo me acostumar com a ideia de se despedir em uma sala fria, com cadeiras de plástico e café ralo. Aquela atmosfera de constrangimento onde ninguém sabe exatamente o que dizer. Me soa mais como uma formalidade do que um consolo. Por isso, optamos pelo silêncio. Pela intimidade.
Somos low profile até na morte.
Não, eu não postei nenhum comunicado.
Não senti vontade, nem necessidade.
Mas entendo quem faz. E, hoje em dia, a maioria faz. Não por vaidade ou por espetáculo, como às vezes se julga rápido demais… mas porque existem pessoas com muitos conhecidos mesmo. Colegas de trabalho, vizinhos, parentes distantes, amigos do grupo de natação da tia… E como avisar todo mundo sem enlouquecer? As redes viraram esse grande megafone. Uma forma prática (e muitas vezes inevitável) de comunicar que a vida mudou.
Publicar a morte de alguém no Instagram ou no Facebook pode parecer estranho à primeira vista. Mas virou, pra muita gente, um novo tipo de velório. Não aquele cheio de flores e cadeiras, mas um espaço virtual onde se compartilha a perda — e, com sorte, se recebe algum consolo. Um comentário, um emoji, uma palavra simples que diga: vi sua dor, estou aqui.
Velórios existem desde sempre por isso. É cultural. Porque o luto precisa ser reconhecido. Precisa sair do peito e encontrar abrigo em outros olhos. A diferença é que agora, em vez de um salão, muitos têm encontrado esse abrigo no feed.
Eu sigo não gostando de velórios. Mas entendo o valor dos rituais. E às vezes, nesse mundo corrido e digital, até um story serve como despedida. Mesmo que silenciosa. Mesmo que breve. Mesmo que entre um meme e uma receita.
O importante, talvez, seja não calar a dor, e permitir que ela, de algum jeito, seja vista. Nem que seja só por alguns segundos, entre um scroll e outro.