Certa vez, fui à dermatologista de pele de capa de revista. Estava em tratamento oncológico e só queria resolver uma coisinha qualquer. Coisinha que se chama acne, melasma (trato, mas não reclamo como antes).
“E agora, vai cuidar melhor da sua alimentação?”, ela perguntou, como quem sugere culpa, como quem entrega sentença.
Fiquei ali, quieta por um instante. Pensando em como seria essa mesma pergunta se eu tivesse sete anos de idade. Diria que minha mãe me alimentou mal desde a barriga? Que a maçã da lancheira selou meu destino? Que você, menina, devia ter comido mais couve?
Quando a mutação acontece, não há cúrcuma que combata.
Então lembrei das coxinhas de quando trabalhava no Diário Popular. Sempre dava minhas escapulidas à tarde até a Casa das Coxinhas, que ficava na rua lateral do jornal Seriam elas as vilãs? Ou será que foi a depressão que tive aos vinte e poucos?
Ninguém sabe.
Só sei que esta doença atinge muitos. E os Ubers estão aqui pra provar.
No trajeto entre o hospital e casa, da casa pro hospital, as corridas curtas se transformaram em histórias longas.
Gente que nunca vi me contou coisas que eu nunca vou esquecer.
Um dos motoristas me falou da mulher dele, que começou a sangrar no meio da missa da novena. Susto, sirene, hospital e Jesus Cristo no altar, olhando tudo.
Era o intestino dela.
“Meu filho está sofrendo demais. Ele não desgruda da mãe.”
Outro motorista me perguntou se eu trabalhava no hospital. “Não, minha mãe está internada”, respondi.
“Minha mulher morreu aí”, disse o viúvo, pai de três filhos, hoje já adultos.
Doze anos atrás, era ele quem enfrentava a batalha, num desses quartos do hospital.
Ela se recuperou. Foi pra casa. Mas a doença voltou sem pedir licença, no meio de um trajeto qualquer.
Uma dor que não avisou e a levou rapidamente. “Tratamos tudo pelo SUS”, disse. “Não dava pra pagar particular. Mas ela foi forte.” Ele dirigia com firmeza, como quem aprendeu a guiar pela vida.
Teve ainda o motorista que me deu um jornal. Disse que o filho de três anos também teve câncer. Que sobreviveu por um milagre. “Não é religião”, ele disse. “É fé.”
Fez promessa, cumpriu. O menino tá bem. “Pega esse jornal. Os testemunhos me ajudaram bastante.”
Ali, dentro desses carros, no trajeto casa-hospital/hospital-casa, entendi o que a médica talvez nunca vá entender:
Que doença não escolhe dieta, nem classe social, nem se você é gente boa.
Ela só vem.
E quando vem, o que salva não é o suco verde.
É o afeto.
O olhar.
A escuta.
Descobri que a doença é democrática.
Mas as histórias que ela atravessa, essas sim têm escolha: entre calar ou tocar.
E elas me tocaram.