Hoje eu chorei.
Chorei na frente da médica.
Dos enfermeiros.
Dos pacientes.
Na frente de todo mundo.
Até do diretor de criação.
Meu Deus.
Chorei até na frente dela.
Poxa, tinha prometido que só entraria no quarto com boas energias. Mas quer saber? Vou culpar a chuvinha lá fora. Ou o barulho do O2.
Chorei porque, apesar de acreditar no inesperado, as notícias não são boas.
Quando recebi o diagnóstico, chorei.
Quando ela foi pra UTI, chorei.
Quando ela voltou pra UTI, chorei.
Entre um job e outro, eu vou ali no cantinho ou no banheiro do quarto e choro um pouquinho. Depois, volto firme e pergunto se ela quer comer. Nada.
Vou confessar. Chorei na frente do meu filho. Mas como isso? Eu vi naquele filme que ganhou o Oscar que a gente precisa ser forte. E parece que chorar ainda é sinal de fraqueza.
No primeiro choro, Totônio me retribuiu com uma figurinha de coração. Depois, ele veio me abraçar. O melhor abraço do mundo.
Teve um dia que chorei tão alto que os vizinhos devem ter escutado.
Mas quando me desando a chorar, lembro que esse bicho já me pegou uma vez. E a tristeza talvez seja alimento pra ele voltar.
Medo.
O dela já é o terceiro. Triplo negativo. Tripla batalha.
Nome difícil, peso grande. Mas ela é maior.
Maior que o medo, maior que qualquer sigla no laudo.
E se hoje chorei, tudo bem. Chorar também é forma de amar. É o cuidado que escorre pelos olhos quando o peito já não dá conta.
E amanhã?
Amanhã estarei aqui de novo.
Com o peito apertado, olhando para o peito dela que tenta respirar apesar de tomado por microinimigos que se proliferam a cada lágrima.
Estou aqui porque é o mínimo que eu posso fazer. E porque amar também é isso: chorar, sim. Continuar também.
E quando ela parar de respirar? Chorarei. No presente e no futuro. Respirando o seu amor.