Mastigando o silêncio

De repente, um movimento à minha direita me faz mover o olhar. Lá está ela, na parede, quieta, nojenta e frágil. Minha única companhia viva numa noite vazia.

Não emite som, mas sua presença é como um peso no ar. Por que elas teimam em morar aqui? O veneno não foi suficiente?

O pavor cresce rápido, quase sem sentido. Não o dela, o meu. Ela não se move, como se esperasse o seu fim ali tão perto dos livros que pode devorar, de tantas páginas que guardam o que eu ainda não li.

Levanto da cama, sem querer fazer barulho, como se, de algum modo, esse ser fosse perceber minha presença e fugir.

Mas, antes que eu possa pensar em algo, o movimento é rápido, seco. Matá-la não parece um ato de defesa, mas de desespero. Volto para a cama, e a sensação de asco permanece assim como a pequena mancha na parede.

Já não sei se a solidão vem de mim ou de algo que se perde aos poucos, como os livros ou as lembranças que esses bichos nunca pedem, mas consomem assim mesmo.

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