por Janaina Monteiro

Enquanto eu escrevo esta resenha, centenas de milhares de órfãos de guerra estão espalhados pelo planeta Terra. Só em Gaza, segundo autoridades locais, o número ultrapassa 60 mil crianças. Agora imagine um planeta não muito distante daqui, também devastado por conflitos, disputas políticas e decisões tomadas por adultos incapazes de evitar o colapso. Esse mundo se chama Krypton. E qualquer semelhança não é mera coincidência.
Antes da heroína, uma sobrevivente de Krypton
Antes de Superman se tornar o maior símbolo de esperança da DC, ele também foi uma criança arrancada de sua casa por uma guerra que não escolheu. A chamada Guerra Civil Kryptoniana colocou o General Zod contra o Conselho dos Cinco, culminando na destruição do planeta. Entre os sobreviventes enviados para longe estavam Kal-El, que veio a se tornar o Superman, e sua prima Kara Zor-El com seu inseparável dog de estimação Krypto.
Se Clark Kent chegou à Terra ainda bebê e foi criado por pais amorosos, com toda a segurança emocional que uma cidade do interior americano pode oferecer, Kara viu o fim de Krypton aos poucos, como quem assiste a tudo desmoronar sem poder fazer nada. Ela chegou ao planeta do primo com mais idade e, digamos, com muito mais raiva.
É justamente dessa herança traumática que nasce Supergirl, segundo longa do novo Universo Cinematográfico da DC. Dirigido por Craig Gillespie (Cruella) e com roteiro de Ana Nogueira, filha de brasileiros, o filme coloca Milly Alcock (A Casa do Dragão) no centro de uma aventura espacial que tem menos a ver com salvar o universo e mais com encontrar um lugar nele.
Kara Zor-El carrega cicatrizes que Superman nunca conheceu
A trama começa quase como um videoclipe. Vivendo sozinha em sua nave, cercada pela própria bagunça, Kara fica vagando pela galáxia sem grandes objetivos. Ela bebe demais, vive de ressaca, evita responsabilidades e sequer encontra motivos para comemorar o aniversário de 23 anos. Apesar dos superpoderes, parece completamente perdida no espaço, como se fosse a pior pessoa do mundo intergaláctico.
Ou seja, a nossa Supergirl blondie não é uma heroína qualquer, tentando salvar planetas, mas uma jovem tentando descobrir seu propósito. Uma garota que carrega traumas demais para abraçar o otimismo quase ingênuo do primo.
A amizade com Ruthye transforma vingança em jornada de amadurecimento
Sua jornada ganha direção quando conhece Ruthye (Eve Ridley, de O problema dos Três Corpos), uma jovem alienígena determinada a encontrar Krem das Colinas Amarelas, o homem que assassinou sua família. A partir de agora, as garotas não estão em busca de diversão, mas de vingança. Ou melhor, justiça com as próprias mãos, com as próprias unhas sem esmaltação em gel e, de preferência, sem surtar.
O resultado é uma espécie de road movie espacial que, em vários momentos, lembra Guardiões da Galáxia. Há criaturas exóticas (em excesso), planetas improváveis, humor na medida certa e uma dupla improvável percorrendo o cosmos atrás de um objetivo comum.
Uma geração perdida viajando pela galáxia
A Supergirl de Milly Alcock parece representar uma geração inteira que cresceu ouvindo promessas de um futuro brilhante e recebeu, em troca, crises econômicas, guerras, ansiedade coletiva e um mundo cada vez mais difícil de entender. Ela vaga pelo universo como muitos jovens vagam pelas redes sociais, cercada de gente, mas sem saber exatamente onde se encaixa.
Essa sensação de deslocamento aparece até no figurino. Kara veste uma camiseta estampada com Debbie Harry, vocalista do Blondie, ícone do punk e musa da new wave. Certamente, não foi uma escolha aleatória, já que Debbie sempre se sentiu como uma outsider, e o punk é a marca registrada do inconformismo e da recusa em aceitar o mundo como ele é.
Quando o filme acerta e quando tropeça
Nessa jornada da heroína, nem tudo funciona da melhor maneira. Em determinado momento, quando uma dose de kryptonita derruba Kara já em seu uniforme, surge o Lobo de Jason Momoa, com uma maquiagem kissiniana. A participação é divertida, mas deixa aquela sensação incômoda de que o roteiro precisou convocar um machão intergaláctico para resolver uma situação que a própria heroína poderia ter superado.
Uma trilha sonora feita para quem se sente outsider
Já a trilha sonora faz exatamente o contrário: fortalece a identidade do filme. Se os trailers já davam pistas ao som de Blondie e Jimmy Ruffin, o soundtrack aposta pesado em vozes femininas como Wet Leg, Sleigh Bells, Wolf Alice, Halsey e Rilo Kiley, e para minha grata surpresa Satin In a Coffin, da banda Modest Mouse (pena que não foi Float On). E, numa das escolhas mais inesperadas do ano, ainda sobra espaço para Garota de Ipanema, provavelmente a canção brasileira mais conhecida do universo.
O futuro de Supergirl no universo de James Gunn
Para os fãs de DC, resta avisar que não houve cenas pós-créditos exibidas para a imprensa, mas James Gunn já deixou escapar que Kara deve reaparecer nos próximos capítulos do DCU.
Supergirl | Dir. Craig Gillespie | Roteiro: Ana Nogueira, baseado nos quadrinhos de Tom King e Bilquis Evely | Com Milly Alcock, Eve Ridley, Matthias Schoenaerts, David Krumholtz, Emily Beecham e Jason Momoa | Trilha: Ilan Eshkeri | 126 min | Warner Bros. Pictures / DC Studios | EUA, 2026 | Em cartaz nos cinemas brasileiros


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