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Dia D: O Filme de Spielberg e os Mistérios da Vida Extraterrestre

por Janaina Monteiro

Cena de Dia D (Disclosure Day), filme de Steven Spielberg sobre extraterrestres.
Foto: Universal Pictures/Divulgação

O ser humano é um bicho curioso que costuma olhar para o céu quando a vida aperta. No dia a dia, andamos tão enfiados no próprio umbigo, no feed, nos dramas, nas guerrinhas particulares, que perdemos a capacidade de nos surpreender. De nos abrir para o novo. Para o outro. Para o completamente desconhecido. Dia D (Disclosure Day, 2026), novo filme de Steven Spielberg, começa exatamente nesse ponto cego da nossa existência e, de lá, não para mais.

Mas antes de falar do filme, precisamos falar do teaser que o antecedeu.

Trump e os arquivos secretos sobre OVNIs: o teaser que ninguém esperava

Em fevereiro deste ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenou que o Pentágono divulgasse arquivos classificados sobre UAPs — os famosos OVNIs para os íntimos. Em maio, o Departamento de Guerra dos EUA começou a soltar os documentos: imagens de objetos fazendo curvas de 90 graus em alta velocidade, relatos de pilotos militares, fotos da missão Apollo 17 com luzes não identificadas sobre a superfície lunar. A justificativa oficial foi quase poética: “Esses arquivos, escondidos atrás de classificações, há muito alimentaram especulações justificadas, e é hora de o povo norte-americano ver por si mesmo.”

Se Spielberg tivesse contratado o presidente dos Estados Unidos para fazer o marketing do seu filme, o timing não teria sido mais preciso.

De Contatos Imediatos a Dia D: a obsessão de Spielberg por vida extraterrestre

Spielberg tem uma relação antiga, quase obsessiva, com a ideia de vida além da Terra. Em 1977, Contatos Imediatos do Terceiro Grau transformou o encontro com o desconhecido numa experiência quase espiritual. Havia beleza e medo em partes iguais, e a humanidade saía do filme menor, no bom sentido. Em 1982, E.T. — O Extraterrestre marcou uma geração inteira ao transformar um alienígena numa metáfora da infância, da saudade e do pertencimento. Em 2005, Guerra dos Mundos mostrou o lado mais sombrio do mesmo encontro. Agora, Spielberg retorna ao gênero que domina como ninguém.

Curioso notar que o título original, Disclosure Day, carrega uma ambiguidade com a história: o Dia D foi o nome dado ao desembarque das forças aliadas na Normandia, França, em 6 de junho de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial — o momento em que o mundo decidiu que algumas verdades precisavam ser confrontadas de frente, custasse o que custasse. Apenas três anos depois, em 1947, aconteceu o Incidente de Roswell: um objeto não identificado caiu no Novo México e o governo americano passou décadas tentando convencer todo mundo de que era apenas um balão meteorológico. Ninguém acreditou muito. E, assim, começou a maior conspiração da história moderna.

Dia D herda essa tradição de verdades enterradas — e do peso que elas têm quando finalmente vêm à tona.

O que é esse DIA D, afinal?

A trama acompanha Margaret Fairchild (Emily Blunt), uma meteorologista que começa a manifestar habilidades inexplicáveis e a falar idiomas que nunca aprendeu. Em paralelo, acompanhamos Daniel Kellner (Josh O’Connor), um especialista em cibersegurança que foge após descobrir informações comprometedoras envolvendo a corporação Wardex e décadas de acobertamento sobre visitas extraterrestres.

Na cola deles está Noah Scanlon (Colin Firth), executivo nada confiável, além de agentes do governo e praticamente qualquer pessoa interessada em manter segredos enterrados. O roteiro é assinado por David Koepp (Jurassic Park, Guerra dos Mundos), parceiro de longa data de Spielberg, com trilha sonora de John Williams.

Dia D no cinema: ação frenética, trem e um namorado que merecia ser abduzido

Até a metade do filme, Dia D funciona como um thriller conspiratório em velocidade máxima — uma alegoria à nossa vidinha onde tudo é urgente e tudo entra no modo ansiedade. Spielberg parece ter assistido a uma maratona de Missão: Impossível e decidido brincar nesse terreno. Há perseguições, fugas, espionagem corporativa e uma sequência envolvendo um trem que parece inspirada por Tom Cruise.

Nem tudo funciona, porém. Algumas cenas de perseguição despertam aquele velho questionamento que acompanha o cinema de ação desde que inventaram os carros: por que ninguém atira logo no pneu?

E já que estamos falando de críticas sinceras: Jackson, o namorado da protagonista, interpretado por Wyatt Russell, é tão inconveniente em determinados momentos que a gente passa a torcer para que ele seja abduzido por extraterrestres.

Fé e ciência em Dia D: o trunfo mais perspicaz de Spielberg

Mas o que realmente diferencia Dia D de tantos outros filmes sobre alienígenas é a forma como Spielberg mistura ciência e espiritualidade. Há uma personagem religiosa — uma freira de mente aberta — que funciona como contraponto perfeito ao embate entre fé e evidência científica. Em vez de apresentar os dois universos como incompatíveis, o roteiro sugere que talvez ambos estejam tentando responder à mesma pergunta: quem somos diante do desconhecido?

O Spielberg de Contatos Imediatos reaparece aqui com clareza. No fundo, os extraterrestres nunca foram o assunto principal dos seus filmes. O assunto sempre fomos nós.

Dia D, inteligência artificial e o caso Mayk Leão: o que é real?

Dia D também flerta com discussões contemporâneas sobre inteligência artificial, manipulação de imagens e a fragilidade da verdade. Em uma época em que qualquer vídeo pode ser questionado e qualquer evidência descartada como montagem, Spielberg pergunta: como distinguimos o real do fabricado?

A reflexão lembra, em escala bem menor e bem mais próxima, o caso de Mayk Leão, o influenciador de 31 anos que viralizou ao publicar vídeos de luzes estranhas sobre sua chácara em Campo Largo, no Paraná — e foi de 46 mil para mais de 2 milhões de seguidores em dias. Antes mesmo de sabermos o que estava nas imagens, já estávamos debatendo, compartilhando, acreditando e desacreditando.

Não importa tanto o que você filmou. Importa o que as pessoas estão dispostas a acreditar. E por quê.

A empatia como resposta: o que Dia D diz sobre a humanidade

Spielberg sempre fez filmes sobre guerra — O Resgate do Soldado Ryan, A Lista de Schindler, Cavalo de Guerra, Ponte dos Espiões. Em cada um deles, debaixo da ação, há sempre a mesma pergunta: o que nos torna humanos? A resposta dele é sempre a mesma: a empatia.

Dia D não é diferente. No fundo, é um filme sobre o que acontece quando somos forçados a encarar o outro — o completamente diferente, o incompreensível, o que não cabe nas nossas categorias.

Se não sabemos resolver nossas próprias guerras — as que travamos entre países, entre crenças, entre nós mesmos —, como estaremos preparados para começar outra? Se ainda não aprendemos a entender o vizinho, o que pensa diferente de nós, o que nos faz achar que saberíamos o que fazer diante de uma inteligência que nem conseguimos imaginar?

Diante da vastidão do universo, nós não estamos sozinhos. Mas será que estamos preparados para escutar o que vem por aí?


Dia D (Disclosure Day) | Dir. Steven Spielberg | Roteiro: David Koepp | Com Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo e Wyatt Russell | Trilha: John Williams | 145 min | Universal Pictures | Em cartaz nos cinemas brasileiros

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