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O Convite: quando a sinceridade ameaça o casamento

por Janaina Monteiro

Assistir a um filme de Woody Allen quando se tem 20 e poucos anos de idade é como sentar pela primeira vez no divã. Você até tem histórias para contar, mas ainda não sabe quais realmente importam, ou de quais piadas rir. Aos 40 anos, sobretudo depois da experiência de um casamento desfeito, a experiência muda. Os diálogos deixam de impressionar apenas pela inteligência e passam a ecoar nas concessões diárias, nos silêncios que se acumulam, na preservação dos filhos e na paz de espírito.

Por isso, fazer comédia sobre casamento é desafiador. O drama suporta excessos, mas a comédia bem executada, não. Ela depende de ritmo, tempo e, principalmente, espontaneidade. Quando nasce de um remake, então, a missão se torna ainda mais delicada. Se o original ainda é recente, por que insistir?

Um jantar sem filtros

Refeito a partir do espanhol Sentimental, de Cesc Gay, que por sua vez nasceu da peça Els veïns de dalt (Os Vizinhos de Cima), O Convite (The Invite. EUA, 2026 – O2 Filmes) encontra uma boa justificativa para existir. A ideia, roteirizada desta vez por Will McCormack e Rashida Jones (The Office), é sedutora: reunir dois casais de vizinhos para um jantar em que todos resolvem abandonar os filtros sociais. Sem meias-palavras, sem diplomacia, sem aquelas pequenas mentiras que costumam manter um relacionamento (e a boa convivência) funcionando. É uma premissa que desperta curiosidade justamente porque parte de uma fantasia compartilhada por muita gente. Afinal, o que aconteceria se disséssemos exatamente o que pensamos?

O problema é que falar tudo nem sempre significa dizer alguma coisa. A verborragia de Seth Rogen e sua personificação allenesca quase me fizeram pegar um fone de ouvido logo no início do filme. A vontade era de abandonar a sessão para não sofrer um burnout.

Quando a conversa finalmente ganha vida

Quando o casal vivido por Edward Norton e Penélope Cruz entra em cena, o filme eleva o tom e multiplica as camadas. A atriz espanhola interpreta uma terapeuta. Já Norton entrega tudo na pele de um bombeiro. Enquanto o casal anfitrião transforma qualquer desconforto em discurso, os visitantes parecem muito mais seguros da própria intimidade. São eles que mudam a temperatura da noite ao compartilhar aspectos da relação que muitos casais monogâmicos provavelmente evitariam discutir em voz alta. Não há escândalo, nem provocação gratuita. Apenas uma honestidade que costuma causar mais desconforto do que qualquer segredo.

A partir dali, a dinâmica entre os quatro personagens ganha vida e a conversa deixa de soar como uma sessão coletiva de terapia conduzida por quem acabou de descobrir a psicanálise.

Freud à mesa

É justamente nesse ponto que O Convite encontra sua melhor sacada. O filme sugere que boa parte dos conflitos conjugais continue orbitando o sexo, o que deixaria Freud provavelmente extasiado. Por mais que os personagens tentem revestir suas crises de argumentos sofisticados, as falas acabam voltando ao desejo, à frustração e à intimidade. A impressão que fica é que, quando o sexo deixa de existir, o casamento começa a desmoronar junto. Se não desmorona, o que sobra é o amor, o afeto. Não é exatamente uma conclusão inédita, mas o filme tem o mérito de colocá-la sobre a mesa sem recorrer ao moralismo.

No entanto, prestes a entrar no clímax, surge o ato falho da história. A sequência em que a personagem de Olivia Wilde tenta tirar a blusa durante as preliminares talvez funcionasse melhor num episódio de The Office. O gesto surge coreografado demais, como se precisasse ilustrar uma ideia em vez de simplesmente acontecer. Ok, isso poderia até ser justificado pelo fato de o filme ser teatral, mas soou mais como uma cena potencialmente brochante, pouco orgânica.

Um remake que encontra seu espaço

Conforme o longa vai evoluindo, é impossível não lembrar de Deus da Carnificina. Ambos confinam adultos aparentemente civilizados em um apartamento para assistir à lenta queda de suas máscaras. A diferença está nas interpretações. O elenco dirigido por Roman Polanski transforma cada pausa em tensão e cada frase em um duelo. Em O Convite, Edward Norton e Penélope Cruz chegam perto desse nível de precisão, enquanto Seth Rogen permanece preso a um registro que confunde ansiedade com excesso de palavras.

Se as atuações oscilam, a direção de Olivia Wilde merece reconhecimento. Considerando a origem teatral da obra, é justamente na direção que o filme encontra sua maior qualidade, mesmo se tratando de um remake. Wilde entende essa armadilha e trabalha o apartamento como um personagem. Os corredores estreitos, a disposição dos ambientes e os enquadramentos fazem com que aquele espaço participe da conversa tanto quanto seus moradores.

Nem toda verdade salva um casamento

No fim, o filme deixa mais uma provocação do que um convite para rir das piadas. Vivemos convencidos de que relacionamentos fracassam porque as pessoas escondem demais. O Convite inverte essa lógica ao imaginar o que aconteceria se ninguém escondesse nada. A resposta não é libertadora, mas desconfortável. Já que nem toda verdade fortalece um casamento, assim como nem toda sessão de análise produz uma resposta satisfatória.

Sair do consultório entendendo os próprios conflitos é relativamente simples. Difícil é voltar para casa e decidir o que fazer com eles.

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O Convite | Dir. Olivia Wilde | Roteiro: Will McCormack e Rashida Jones, baseado na peça Els veïns de dalt (Os Vizinhos de Cima), de Cesc Gay, e no filme Sentimental | Com Seth Rogen, Penélope Cruz, Edward Norton e Olivia Wilde | 102 min | O2 Filmes | EUA, 2026 | Em cartaz nos cinemas brasileiros

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