A máscara caiu

O protocolo é usar máscara. O baile continua para aqueles que dançam conforme a música e cobrem suas bocas sem dar um pio. Que escondem seus sorrisos por trás de um tecido fino preso por elásticos. Mas o sorriso ainda está lá. Com ou sem dentes.

Para outros, a máscara caiu. Os rostos foram desnudados pela quarentena. O isolamento nos proporciona descobrir “quem é quem” nesse jogo de esconde-esconde. É como se fosse possível fazer um raio X de quem você conhece, ou acredita que conhecia. Alguns casos mais delicados precisam de tomografia, exame que revela com maior precisão o grau do problema, o grau da lesão. O contraste ajuda a definir o nível de vaidade. De egoísmo. O grau de maluquice. De gula. De carência. De insegurança. De avareza. De Inveja. Cobiça. Ira. Luxúria. Soberba. Preguiça. O grau da mentira. Mas também faz reluzir o estágio do altruísmo, de tolerância, de honestidade. Potencializa a força da amizade, do amor, do carinho, do companheirismo.

No raio X dos vaidosos, detectamos um nódulo que mostra um mundo perfeito. Esse pessoal tem dificuldade de olhar para os lados e trava um discurso um tanto ambíguo. Descobriram esse tal mundinho perfeito durante o confinamento. Trabalhando em casa, cozinhando, fazendo coisas que todos – vamos combinar – estamos fazendo, mas que a grande maioria não precisa ostentar. Sair se gabando por aí de atitudes corriqueiras que devemos, sim, dar valor no dia a dia, mas que não há necessidade de transformá-las numa fantasia. É bom ter pés no chão. É saudável ficar sem maquiagem. Sem salto alto. 

Nos confins do confinamento, o vaidoso está lá, com suas caras e bocas, pedindo, suplicando por uma aprovação qualquer nesse grande Big Brother. Um like. Um coração. Um aplauso que seja. O laudo diz que a vaidade pode ser provocada pela combinação de carência com insegurança. E como não há sustentação sem ancoragem, o tombo, a queda, o mergulho para esses que vivem nessa bolha machucam em dobro. O ego vai subindo, subindo, subindo até que… plaft. Leva o vaidoso direto pra UTI.

No raio X dos altruístas, detectamos uma íngua, benigna, que se manifesta quando alguém está em apuros, quando alguém precisa de um prato de comida na rua, um cobertor, uma roupinha para o neném que nasceu ou uma simples palavra de carinho, mesmo à distância. É como receber o chamado de Batman no céu. O herói morcego, animal que pode ter transmitido o coronavírus aos humanos. Para o xamanismo, o voo do morcego significa a iminente transformação do ego. Quando um ciclo se encerra e dá a vez a outro. Eu li na internet que o totem do morcego simboliza a ilusão, o renascimento, os sonhos, as intuições. Que permite viagens espirituais e melhora a comunicação. Na China, o único mamífero voador é sinônimo de felicidade e sorte. Quem diria.

Totônio nunca gostou de usar máscaras, mesmo sendo fã dos PJ Masks. O Lagartixo tinha sua máscara verde, mas algo o incomodava. Talvez se sentisse sufocado ou talvez o elástico apertasse suas orelhas. Sua primeira fantasia foi de Batman, o homem morcego. Não tinha máscara, só um cinto. 

O guri, por enquanto, decidiu que não quer máscara. Não precisa esconder sua identidade. Sua principal arma atualmente é o álcool gel nas mãos que precisa passar a cada saída da nave-mãe.

Resta saber qual será o resultado desse retiro espiritual que estamos fazendo. Se a vaidade dará lugar à modéstia. Se o morcego ainda terá asas pra voar.

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Foto por Edward Jenner em Pexels.com

A política da má vizinhança  

Dez dias se passaram desde que estamos trancafiados em nossa nave-mãe (com direito apenas a um dia de alvará) por conta da pandemia do coronavírus e adivinha… 

Tava demorando. Recebi um whats da síndica: 

_Estão reclamando de barulho no seu apartamento e de cachorro também, eu até achei estranho, será que é aí mesmo?, perguntou a moça, que devia receber um prêmio pela paciência. 

_ Bem, meu filho não costuma andar de quatro, nem latir, e não costuma imitar um cão, então, acredito que o cachorro não é daqui. (claaaro que me confundiram com a vizinha do segundo andar que tem uns dogs enooooormes)

Por isso, às vezes não boto fé na humanidade, pensando no significado da palavra humanidade mesmo, com “m” minúsculo, no sentido de bondade, benevolência, compaixão, piedade. Ora bolas, o povo tá morrendo lá fora, e meus vizinhos reclamando do barulho. Não sacaram ainda que isso aqui é um teste de resistência, de paciência e de tolerância. Tipo aquele programa “No limite”, mas sem precisar comer cérebro de macaco.

Também, pudera, estou cercado de vizinhos sem filhos. O da parede do lado, dia desses levantou-se da sua cobertura quando me viu chegar com Totônio. O da frente também não tem filho. Solteiro, sem namorado, que eu saiba. O casal do andar debaixo, graças a Deus, não tem filhos. Deus sabe o que faz. Deus poupa as criancinhas. 

Tá ruim? Vai pra rua. Vai trabalhar num coworking a 1,5m de distância das pessoas. Quem sabe você tem a sorte de não se contaminar. Ou então, troque o dia pela madrugada, quando a maioria das pessoas, principalmente as crianças, e também os animais, costumam dormir. 

Eu fui trocar uma ideia de novo com Totônio.

_Filho, reclamaram que estamos latindo muito alto. Barulho só entre 9h e 22h.

Ele riu. Tem que rir mesmo.

O problema é que ninguém dá um desconto. Ninguém se coloca no lugar do outro. Ninguém tem empatia. Veja, se não dão desconto na hora de pagar a escola do Totônio, não dão desconto pro barulho também. O problema é que meu prédio tem paredes como se fossem de papelão. Tipo cenográficas. Aqui todas as paredes têm ouvidos. Culpa da construtora que deve ter economizado no material. Sem contar que o bairro é suuuper tranquilo.

Confesso que fiquei um pouco revoltada com tudo isso. Deu pra perceber, né? Até fui me consultar com pessoas de confiança. 

Minha mãe disse pra eu ignorar. 

Uma amiga disse mandar o povo “c***r” no mato. Sem cachorro, claro!

Então, surgiu a saída à francesa. Dica de uma amiga que morou muito tempo no país do Macron e daquele bulldog feio pra danar. Pois bem, ela disse que o francês, quando decide dar uma festa no apê, manda uma carta superpolida para os vizinhos pedindo desculpas prévias e um convite para eles participarem do evento. Não é o caso de fazer isso aqui, porque eu não gostaria de ter pessoas tão chatas como convidados da minha festa.

E tem um detalhe: os franceses, às vezes, colocam no elevador ou, no corredor, um folheto se desculpando pelo cheiro da comida. Estamos a quilômetros de distância deles mesmo. 

Mudando de assunto…. sabia que hoje choveu? Choveu de verdade. Pra baixar a poeira. Bem no aniversário de 327 anos de Curitiba. Ah, também choveu reclamação : )

P.S.1: Quando tudo isso voltar à normalidade, pretendo dar uma festa de arromba na laje. Estão todos convidados, inclusive os cachorros. Menos meus vizinhos, claro. Au-au pra todo mundo!

P.S.2: O bicho tá pegando entre as vizinhas do terceiro e segundo andar. Tem até disco music e filme do Mel Gibson rolando no último volume. Aff

Foto por Julia Kuzenkov em Pexels.com
Banana pra quem reclama do barulho!