O chulé no corredor e a escapadela da nave-mãe

Saí da nave-mãe para levar Totônio até o foguete do papai. Para cumprir nossa missão e chegar até o carro, foi preciso transitar pelos corredores sem janelas do nosso prédio, invadido pelo cheiro de chulé. Agora sei quantas pessoas, seus respectivos sexos e prováveis faixas etárias, ocupam cada apartamento, já que se tornou um hábito entre os condôminos deixar o calçado pra fora antes de entrar no apê. Eu acho engraçado porque sempre cultivei esse costume, que herdei da minha mãe, de entrar em casa e tirar imediatamente os sapatos. Por isso aprecio a cultura japonesa desde pequena, mesmo tendo ascendência espanhola e portuguesa. 

Acredito que, acima de tudo, é uma questão de puro bom senso não andar no quarto com o mesmo calçado que você pisa no cocô de pombo na rua.

É bonitinho ver ali os chinelinhos das criancinhas todos enfileiradinhos; o Nike do rapazote, o Crocs da velha, as Havaianas da vizinha nova. Não tenho chulé, mas os meus tênis não ficam expostos desse jeito, pra todo mundo ver. Ficam pra dentro. Não vejo problema na minha decisão em deixá-los em cima de um pano perto da porta. Totônio também não tem chulé e já aprendeu que precisa tirar seus microtênis assim que coloca os pés na sala.

Dessa forma, ele pode correr com suas meias antiderrapantes sem fazer barulho e não incomodar os vizinhos do andar de baixo. Bem, na verdaaaade nossa correria diária deve estar incomodando um pouquinho os vizinhos. Mas a bateção de portas também me incomoda um bocado. Tenho uns vizinhos que ou são meio irados, ou têm muita força no muque a ponto de estremecer o prédio. Acho que descontam tudo nas portas. Só pode. 

Nosso dia 8 transcorreu “ok”. Totônio acordou de bom humor e correu ao encontro de seu livro de atividades com 505 passatempos entre labirintos, jogo dos sete erros, liga pontos e continhas de matemática. Obviamente eu ajudo nas operações aritméticas, mas Totônio já sabe que 2 + 2 = 4. Como a mamãe é fã de Radiohead, ele aprenderá mais tarde que 2+2=5. O guri presta atenção e, depois de supostamente aprender no livro, vai direto pra lousa onde brinca de professor. Seu 6 parece uma pera. O 2 é tipo um 5 do avesso.

Totônio também convocou Bob Esponja e Patrick para brincarem conosco no jogo do pizzaiolo. Eu nunca imaginei me tornar tão íntima de uma esponja-do-mar, muito menos de uma lula. Então, Totônio distribuiu pedaços de pizza de papelão pra mim e seus dois amigos imaginários famosos. Depois, pegou o vulcão que acoplamos nos trilhos de um brinquedo dele que tem uma alavanca para simular as lavas. 

_Totônio, o que é isso?

_ É o botão pro Bob Esponja e o Patrick voltarem pro fundo do mar!

_ Ah, claro! 

Quem sabe um dia a gente volte a ver o mar. Pode até ser um mar de gente que não tem problema. Hoje, no nosso nono dia de quarentena, Totônio acordou às 6h pra fazer xixi. Não nas estrelas como na letra da Leminskanção, mas no banheiro mesmo. Depois foi dormir no sofá. Aproveitei e fui ver o sol nascer. Redondo, ainda. 

Hoje, sabadão de quarentena, até tinha um bocado de gente na rua. Todo mundo se desviando com medo de trocar fluidos. Nem acreditei que fui à padaria e caminhei um pouco pela calçada com minha mãe, que precisa se exercitar por conta da asma. Ficamos a 1,5m de distância como exige o protocolo.

Na verdade, me senti até um pouco culpada por ter saído de casa. Pensei até que meus vizinhos me jogariam os calçados chulezentos na cabeça quando retornasse. Mas cá estamos de volta à nave-mãe. De castigo, mas seguros!

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