Entre o agora e o que já passou

Ella costuma dizer a ela mesma para viver no presente. Era quase um mantra que a gente repete mais como tentativa do que como certeza.

Mas depois de descobrir que o tal “presente” talvez não exista como imaginava (essa linha reta, estática, em que a vida supostamente acontece), Ella travou.

O que escorre entre os dedos não é o presente. É o agora. E o agora… minha nossa, acabou de passar.

Se tivesse a oportunidade de trocar uma ideia com Bergson, ah, ele provavelmente sorriria delicadamente. Afinal, pra ele, o tempo não é essa coisa que a gente mede no relógio pendurado na sala de jantar, dividido em pedaços iguais de pizza, organizadinhos como os talheres na gaveta, quase obedientes como nossos filhos.

O tempo vivido, o tempo real, é duração. É fluxo. É algo que se alonga, se mistura, se infiltra. Não dá pra cortar em fatias sem perder o que ele tem de mais essencial.

Ou seja, esse “presente” que Ella tenta segurar talvez seja só uma abstração confortável, ou até mesmo um jeito de organizar o caos da vida diária.

Daí, em suas pesquisas, Ella se deparou com Santo Agostinho que, muito antes, já tinha se angustiado com a mesma questão. O filósofo dizia que se ninguém me pergunta o que é o tempo, eu sei. Mas se me pedem para explicar… eu já não sei mais.

Porque o passado só existe como memória. O futuro, como expectativa. E o presente? Esse mesmo que a gente insiste em nomear? Ele seria apenas um ponto tão breve que quase não tem duração.

Quase nada.

Quase um intervalo entre dois vazios.

Então quando Ella descobre que só existe o “agora”, ela não encontra alívio. Encontra vertigem. Porque o agora não é um lugar onde se fica. É um lugar onde se cai.

E é nesse ponto que a tal da mindfulness entra, não como solução, mas como convite.

O que o filho do Berg acharia disso tudo? Talvez dissesse que há algo de bonito nessa tentativa contemporânea de voltar ao instante vivido, de prestar atenção no fluxo em vez de só medi-lo.

Mas também poderia levantar uma sobrancelha: porque transformar o agora em técnica, em método, em checklist de respiração consciente… talvez seja só mais uma forma de tentar controlar aquilo que, por natureza, escapa.

Talvez mindfulness funcione não quando promete nos fixar no presente, mas quando nos lembra que não há nada fixo para segurar.

E aí Ella começa a desconfiar que “viver o presente” nunca foi sobre parar o tempo, mas sobre sentir que ele passa. Sem ser engolida pelo que já passou. Sem tanta pressa de organizar. Sem tanta ansiedade de entender.

Só… acompanhar.

Como quem senta à beira de um rio sabendo que não dá pra entrar duas vezes na mesma água, mas, ainda assim, molha os pés.

Brincadeiras improvisadas que rompem o silêncio

Abraço, tempo, emprego, liberdade, família. O confinamento nos permite valorizar  gestos, pessoas, coisas banais, corriqueiras, comuns. A dar valor àquilo que somos impedidos de ter e fazer. É como a máxima: “só damos valor quando perdemos”.

Neste sexto dia, recebi via WhatsApp um texto do Augusto Cury sobre exatamente o quanto a vida frenética nos impossibilita ou dificulta apreciar pequenas ações do cotidiano, seja um simples aperto de mão ou a possibilidade de ir à padaria. Mas ele não citou algo fundamental e que agora somos capazes de fruir: o silêncio. 

Do nosso apê, transformado em nave-mãe, o silêncio é mais intenso do que no domingo, quando Deus descansou. É uma calmaria que não remete propriamente à paz, mas à angústia, à solidão. Mesmo assim, é possível transformar essa quietude um tanto nervosa em serenidade, em introspecção, no silêncio interior. É hora de refletirmos, de priorizarmos o certo, de pensarmos no que é necessário. Uma infiltração no banheiro do vizinho pode esperar mais um mês para ser sanada. Quem não pode esperar é aquele que precisa sobreviver. Leio comentários pelas mídias sociais sobre o consentimento que vem do silêncio. Eu acredito que o silêncio pode ser uma bela resposta também. 

A mudez lá de fora é quebrada por alguns veículos que cruzam as ruas ou pelo latido dos cachorros, aos quais é permitido ir e vir. Aqui dentro da nave-mãe, a correria de Totônio é vibrante, mas não deve incomodar os vizinhos que, provavelmente, fazem home office. Afinal, não temos escapatória. 

À tarde, Totônio se revoltou, porque queria sair, ir ao parque com piscina de bolinha. Ele sabe que ainda não pode deixar o apartamento. Então, a lista de lugares para explorarmos na pós-quarentena aumenta: torre panorâmica e parque com a piscina de bolinha.

Pra mim, o piazote está se virando bem nesses dias de clausura. E eu, a cada dia que passa, amo mais meu filho e aprendo mais com meu companheiro de quarentena. Sua capacidade de improvisar vem superando minhas expectativas. Eu simplesmente não preciso inventar brincadeiras, porque ele mesmo tem as ideias e me intima a participar de todas elas. 

O cinto do meu roupão vira cabo de guerra. Na falta de um irmão ou amigo, o aspirador de pó vira companheiro de pega-pega. A mamãe aqui corre como uma doida atrás do guri. 

_ Vem amiguinho, vem me pegar!, diz Totônio.

Não sei se dou risada ou choro. Chorar não. Já chorei o que tinha que chorar muito tempo antes desta quarentena começar. Agora são risos, só risos (mesmo um pouco amedrontados).

Na falta de uma bola perdida (que já foi encontrada, por sinal), Totônio amassou um folha A4 – onde ele desenhou o mapa do tesouro no quinto dia. E essa bolinha de papel virou um dado que vai do zero ao sete. Um por um, ele montou os EVAs no corredor. O tapete se transformou num híbrido de amarelinha improvisada com jogo de tabuleiro. Totônio arremessava o dado de papel e imaginava os números e cada cor do EVA representava um desafio.

Quando a slime nova chegou (a que ele tinha estava grudenta e, infelizmente, não disponho dos ingredientes pra fazer uma meleca caseira), graças a uma compra online sugerida pela vovó, Totônio não se continha de felicidade. E os EVAs se transformaram em pista de corrida, com a geleca de obstáculo.

Boa parte das brincadeiras dele se baseiam na sua fixação por assistir Super Mario no YouTube e outros joguinhos. Ele reproduz o que vê do seu jeitinho fofinho de ser. Até comemora igual. O pódio sempre tem dois lugares. O puff mais alto pra ele e a almofada pra mim. Ele sempre é o segundo 1 e eu, o segundo 2. Totônio comemora com sua dancinha da vitória e sua risada maravilhosa, melhor do que qualquer silêncio da face da Terra. 

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Não há lugar como nosso lar!