Troque seu cachorro por uma criança pobre

Em plena quarentena, uma cachorra está na rua, desolada, na frente de um shopping. O dono tenta lidar com a frustração de seu animal de estimação, ops, sua filha, e explicar o motivo de o lugar estar fechado num dia de semana. Afinal, por que os dois não podem ir às compras ou simplesmente passear lá dentro, estrear a guia nova? A pobre coitada empacou na calçada e fincou as quatro patas na entrada do templo do capitalismo. Não arreda a pata de lá. 

Totônio está em casa. Sentado no sofá. Chorando e gritando e pulando e se esgoelando que quer porque quer sair de casa e ir passear, brincar no parque. Sua mãe tenta explicar que o lugar está fechado, por isso não adianta insistir, garoto! Mas a pobre criança continua triste, querendo sair pra se divertir. 

Qual a diferença entre as personagens envolvidas na história? Sem querer polemizar, ignoremos a mais obvia, de natureza biológica. A diferença é que a cachorra ainda pode sair de casa todos os dias e caminhar alegremente com seu dono para fazer o cocô diário e, na volta, lavar as patinhas com água e sabão (nada de álcool gel, hein). Totônio, dotado da capacidade cognitiva humana, de um pinico e de banheiro, precisa #ficaremcasa. Não chora na frente do shopping, mas em cima do sofá. 

Por isso, quando este tipo de comparação vem à tona, sempre me vem à cabeça o “Rock da Cachorra”, do Eduardo Dusseck: “Troque seu cachorro por uma criança pobre”.

Todo esse preâmbulo porque preciso assistir aulas online, EAD improvisado em tempo real, como medida atípica adotada diante da interrupção das presenciais. O problema é que minha produtividade, meu rendimento claramente serão prejudicados, já que é uma missão altamente ninja dar atenção a uma criança de 4 anos e, ao mesmo tempo, focar no que o professor diz. Afinal, que criança consegue ficar na frente da televisão, vendo desenho, por duas horas e meia (ou mais), sem incomodar a mãe? Só me resta gravar a aula para assisti-la depois, quando eu estiver exausta, querendo dormir. 

Uma amiga minha entendeu o que eu quis dizer:

_Se a minha cachorra pode pedir pra ir ao banheiro bem na hora da aula, imagina se seu filho começa a pedir “mamãe, mamãe, vem brincar comigo”!

Ou seja, ela não tem filho, mas compreendeu minha preocupação. Eu sou a favor das aulas e já disse, inclusive, que esse é um momento de adaptação. Mas também espera-se bom senso. 

Fato é que hoje conseguimos dar uma escapada da nave-mãe. Fizemos uma visita drive thru ao tio Zé e aos avós.

Tio Zé trabalha no mercado. Está na linha de frente da guerra (como bem observou minha amiga ali acima) e, por isso, Totônio vem abusando dele. O devorador de chocolatinho Kinder grava mensagens ao tio pedindo mais doce. 

_Tio Zé, compra mais chocolatinho e 7 Belo pra mim? Por favoooooor?

Então, fomos nós de carro espacial até a casa do tio Zé. Demos um “oi” e “obrigado” relâmpagos; pegamos nossa encomenda e fomos até o prédio da vovó Silvia e do vovô Fernando, que moram pertinho. Pela janela do possante, Totônio conseguiu trocar uma ideia e matar a saudade dos dois.

No percurso de volta, fiquei espantada com o tanto de carro nas ruas. O tanto de gente apressada. O tanto de gente no drive thru do McDonald’s. Ah, se pelo menos eles servissem hambúrguer de siri…

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