A quarentena de Totônio

Dia 4. Difícil explicar para uma criança de 4 anos por que devemos ficar tanto tempo sem sair de casa. Por que, de repente, parece férias de novo. Mas um recesso sem brincadeiras com os amigos, sem visita aos avós, sem ir ao parquinho da praça ou do clube. 

O que nos resta é o nosso lar. Nosso amado lar. É como se nosso apartamento se transformasse numa nave terrestre. Nossa Apollo 2020. Da porta pra fora, só com traje de astronauta. Sem tocar em ninguém, sem pegar no corrimão, sem abrir a boca pra não contaminar. Sem aperto de mão, sem poder abraçar a vovó ou o vovô. 

As aulas do Totônio só seriam suspensas hoje. Na quinta passada, ele foi normalmente para a escola, onde se sente feliz, amado e cuidado pelas profes, alimenta-se bem, brinca com os amigos que adora. O duro é que apenas algumas crianças – acho que quatro – de todas as turmas faziam companhia a Totônio. Ao perceber a ausência dos amigos da sala, Totônio se sentiu desconfortável. Então, desde sexta, ele está em casa, porque seria provavelmente o único aluno a ir à escola. Esse foi nosso “dia 1”.

Difícil fazer uma criança tão exigente quanto meu filho comer bem em casa. Quase impossível manter os “combinados” do tipo: só deixo fazer isso, se fizer aquilo antes. Eu tento reproduzir as receitas da escola, mas a comidinha da tia da cozinha e a companhia dos amigos são sempre melhor que o tempero da mamãe. O quibe da escola é sempre melhor que o meu. Sem contar que o piazinho é sempre do contra: faço feijão carioquinha, ele quer preto. Faço suco de laranja, ele diz que não gosta da cor. Faço ovo cozido, ele só quer a clara. O pai comprou sorvete de chocolate, e Totônio implica de novo com a cor e o gosto. Aff. Eu vivo dizendo pra ele: tem criança que não tem opção. Mas acho que o guri é muito pequeno para entender o sentido de passar necessidade. 

Já no segundo dia de confinamento, eu larguei mão. Totônio ficou com o pai e eu fui me aventurar no mercado. Vesti meu traje de astronauta e, desafiando a lei da gravidade da doença, fui às compras, devidamente higienizada, unindo forças para não conversar com ninguém. É claro que não consegui! Mantendo uma distância segura, troquei uma ideia na fila com um rapaz que precisava comprar cigarro para o pai. “Veja que situação. Não sei nem como comprar cigarro. Nunca fiz isso!”. E ele me olhou com um rosto de desamparo. Eu desejei meu “tudibom” e fui embora cheia de porcaria nas sacolas.

Na semana passada, já estava garantido no congelador o saco com dois quilos de batata pré-frita. Santa air fryer. Dessa vez, comprei bacon, iô-iô crem com tubetes, chocolate, leite condensado, farinha pra bolo. Sem medo de ser feliz. Sem medo do fim do mundo.

O mesmo esquema em relação às telas da televisão, do celular. Enquanto faço faxina, Totônio fica jogando. E as sessões de Bob Esponja são intercaladas com brincadeiras. Domingo na nave-mãe teve dança das cadeiras ao som do novo álbum de Morrissey. Até que, durante uma das músicas, Totônio observou: mamãe, parece a música do anjo (que é Precious, do Depeche Mode). Esse é o nosso repertório de confinamento. 

Meu sofá talvez não sobreviva até abril. Virou pula-pula. Neste quarto dia, armamos barraca em nossa espaçonave que nos dá direito a uma vista espetacular para o céu. O outono ainda nos permite tomar banho de mangueira e pude simular uma cachoeira: eu aponto o esguicho para o vidro da porta que ricocheteia em Totônio. Meu guri conduz alegremente seu triciclo sob os pingos, cantando e me contaminando com seu sorriso consolador. 

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Photo by Frans Van Heerden from Pexels

O vírus e a corrida do álcool gel

Tempos de crise deveriam servir de ensinamento para evoluirmos enquanto pessoas, amigos, irmãos, enquanto seres humanos. Essas fases cíclicas pelas quais passamos deveriam provocar em cada um de nós um momento de reflexão. Pararmos um instante de olhar para o nosso umbigo e enxergarmos ao redor a fim de tentar, pelo menos, entender o motivo de tudo isso. 

Mas, por enquanto, não é o que ando percebendo por aí. Lembro que quando surgiu o temido H1N1, a personagem mais cobiçada da história era o álcool gel, produto que novamente está fazendo a fama com a chegada desse novo vírus, antes chamado de corona, agora de Covid-19. 

Teorias da conspiração à parte (será que foi criado em laboratório para a China, enfim, dominar o mundo?), a disseminação desse vírus mutante, que se espalha com mais rapidez do que o vírus da gripe comum e do H1N1, já provocou uma mudança radical no cotidiano da população mundial. Países em quarentena, pessoas isoladas, evitando contanto humano, trabalhando remotamente. Soa a mim um tanto metafórico. Se às vezes nos queixamos que as redes sociais nos repelem fisicamente, veio um vírus para nos separar de vez. Na Itália, pessoas pegam os ônibus sem abrir a boca com medo do contágio. Nesse mesmo país, moradores tentam passar o tempo cantando nas sacadas dos prédios.

Ao meu redor, porém, os hábitos continuam os mesmos. Pessoas reclamando que não conseguirão dar conta de trabalhar em casa e ao mesmo tempo cuidar do filho, impedido de ir à escola. 

Tomando o exemplo do restante do mundo e já vislumbrando o que poderia ocorrer conosco, imaginei que se fosse ao mercado dali uma semana não encontraria mais álcool gel, ou papel higiênico. PH ainda tem, mas o álcool, ah, esse só no mercado negro agora. Até armazéns que vendem produtos a granel estampam na vitrine: “temos álcool gel”. 

Hoje fui à farmácia para comprar o leite em pó do meu filho. Num intervalo de cinco minutos, duas pessoas perguntaram sobre o álcool. Uma mulher apavorada queria saber quando era a previsão de chegada.

Num mercado perto de casa acabou até o suco de laranja. Eu me pergunto: quem toma tanto suco de laranja em 15 dias? Será que quando saímos de férias parece que o mundo vai acabar também? 

Ora bolas, desde a pandemia de H1N1 deveríamos ter mantido esse hábito de usar álcool gel. E se não tem o tal álcool 70, use vinagre. Adapte-se. Crises são feitas para isso. Pare de reclamar e passe a meditar. Aproveite esse tempo, que sejam 40, 15 ou 7 dias, para refletir sobre seu estilo de vida, para ficar perto da família, para pensar na paranoia em que vivemos hoje. 

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Foto por Bruna Tovar Faro em Pexels.com

Portanto, acredito que a evolução do ser humano, no sentido de exercer a compaixão, a paciência, a empatia, mudar o foco para o outro, está longe de acontecer. O egoísmo, o desespero e o medo são tão contagiosos quanto um vírus.