Autobiografia de leitora

Minha memória mais antiga de leitora vem do berço. Eu, deitada, quase dormindo, e minha mãe acomodada numa poltrona, sob a luz de um abajur, forçando os olhos para ler a coleção inteirinha de Monteiro Lobato, que guardo até hoje.

Os 15 volumes estão expostos na estante do meu apartamento juntamente com outros livros e coletâneas que meus pais adquiriam via Círculo do Livro, um clube de livros dos anos 80 e que foi a grande base introdutória de leitura pra muita gente da minha geração.

A cada noite, mamãe pegava um dos volumes da coleção com as personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo e lia um trecho pra mim. Começou pela letra M, com as Reinações de Narizinho, e terminou no O, com a continuação dos trabalhos de Hércules e histórias diversas.

Hoje, revisitando o passado e admirando essa coleção maravilhosa, surge um quê de decepção ao me dar conta que sou incapaz de me recordar de boa parte do conteúdo das histórias. Talvez sofra de déficit de atenção. Lembro sim das personagens, da Emília toda tagarela (depois ganhei umas bonequinhas de pano da Estrela), da Dona Benta, da Tia Nastácia, do Saci-Pererê, do Visconde de Sabugosa etc etc.. Registrada na memória ficou minha mãe, lendo pra mim. E quando eu adormecia, ela certamente se enriquecia com aquelas histórias que não havia lido quando ela era criança.

Aliás, ler para uma criança é uma das atitudes mais afetuosas que um pai ou mãe podem ter. Esses minutos são instantes preciosos que nos permitem desconectar de todo esse ruído do mundo digital; nos permitem que a paciência e a atenção se aproximem aos poucos, dando espaço à criatividade, ao conhecimento, a um mundo de fantasia tão necessário para nos mantermos psicologicamente sãos.

Assim como meus pais me introduziram a Monteiro Lobato, pretendo apresentá-lo em breve a Totônio, meu filho, que inclusive já assistiu a um teatrinho de bonecos com as personagens e se encantou com o saci. Será uma oportunidade maravilhosa de relembrar as histórias do homem que tem o nosso sobrenome. E como eu me orgulhava disso na escola. De carregar o sobrenome e as sobrancelhas de um Monteiro, apesar de nenhuma conexão sanguínea com o escritor.

Além da coleção de ML, guardo outros exemplares do Círculo do Livro (aliás, todos de capa dura, com edições ilustradas e “redesenhadas” por mim), como o Dentinho Malcriado, a Nova Casa do Bebeto, Alice no País das Maravilhas. Há também alguns volumes da Coleção Taba. Eu era simplesmente apaixonada por esses livros que vinham com disquinho, e batizei-a de coleção curumim, por causa dos indiozinhos que estampavam as capas. Aí sim: lembro de todas as historinhas, que recuperavam o folclore brasileiro com canções de MPB ao fundo. Foi meu primeiro contato com Chico Buarque, Tom Zé. Caramba! E só beeem mais tarde fui perceber quem eram essas figuras e a importância de uma coleção dessas para crianças.

Os demais livros de casa eram adquiridos durante as aventuras no mercado. Meus pais costumavam fazer juntos a “compra do mês”. Morava na Vila Guaíra na época (antes de me mudar pra Campinas), e costumávamos abastecer nossa casa no Jumbo Eletro, da Avenida Presidente Kennedy (hoje é Extra, se não me engano). E lá, nesse mercado, havia uma fileira inteira repleta de livrinhos infantis, sejam de historinhas ou de atividades, alimentos para a alma. Depois que me mudei de cidade, esse hábito permaneceu. Lembro o primeiro livro que consegui ler (sobre uns gatinhos). Também foi comprado num mercado. Meu pai sentou-se no sofá de casa e me ajudou a decifrar as frases. Parece que foi ontem.

Meu pai também me deu as Histórias da Carochinha. Dia desses, peguei pra ler pro Totônio. Duvidei que ele fosse gostar, porque não havia ilustrações. Mas não é que o garotinho ouviu do início ao fim o conto de João e o Pé de Feijão!!

Quando cresci um pouco mais, ganhei a coleção dos contos de fadas da Disney que vinha com fitas K7. Gostava do Ursinho Pooh (Puf pra mim), principalmente da voz dele quando se empanturrava de mel. E à medida que envelhecemos vamos dando conta das histórias por trás dos contos de fadas, histórias de bullying, rejeição, preconceito, enfim…

Dia desses, minha mãe encontrou na casa dela o Menino Maluquinho e me deu pra ler pro Totônio. Bem, não é exatamente pra idade dele. Mas essa questão de idade é relativa, principalmente porque hoje as crianças vão para a escola mais cedo (felizmente pude colocar Totônio com mais de dois anos, o que me rendeu certo ostracismo profissional, mas não posso reclamar); recebem mais estímulo e conseguem perceber muito mais coisas do que eu, por exemplo, nos anos 80.

Comecei a ler o Menino Maluquinho pro meu filho, adaptando alguns trechos, e não me lembrava que os pais do piá também haviam se separado na história. Ziraldo, fantástico, me fez chorar com o modo como ele contou essa situação que, veja, é tão comum. E me mostrou que um livro pode nos ajudar a enfrentar essas situações.

Na escola, conheci outras coleções e autores sensacionais, como Maria Clara Machado, Pedro Bandeira (que, inclusive, estudou no mesmo colégio que papai em Santos), Ruth Rocha (Marcelo, Marmelo, Martelo). Lembro da Bruxa do Quebra-cabeça, da Marta Melo; da coleção que vinha Meninos sem Pátria e o Escaravelho do Diabo, da editora Vaga-lume, da clássica Para Gostar de Ler, por meio da qual descobri Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, sem me dar conta de quem eram essas feras.

Mesmo cercada por livros, ainda devo a leitura de muitos clássicos, como Ulisses, por exemplo. Mas o que me dá satisfação é que a biblioteca do Totônio está aumentando ao lado da minha, principalmente a de literatura brasileira. Assim vou crescendo junto com ele, aprendendo com o menininho a enxergar as histórias e a vida de forma mais criativa; aprendendo a superar os problemas chatos de adulto que ainda não fazem parte da cabecinha dele.

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A máscara caiu

O protocolo é usar máscara. O baile continua para aqueles que dançam conforme a música e cobrem suas bocas sem dar um pio. Que escondem seus sorrisos por trás de um tecido fino preso por elásticos. Mas o sorriso ainda está lá. Com ou sem dentes.

Para outros, a máscara caiu. Os rostos foram desnudados pela quarentena. O isolamento nos proporciona descobrir “quem é quem” nesse jogo de esconde-esconde. É como se fosse possível fazer um raio X de quem você conhece, ou acredita que conhecia. Alguns casos mais delicados precisam de tomografia, exame que revela com maior precisão o grau do problema, o grau da lesão. O contraste ajuda a definir o nível de vaidade. De egoísmo. O grau de maluquice. De gula. De carência. De insegurança. De avareza. De Inveja. Cobiça. Ira. Luxúria. Soberba. Preguiça. O grau da mentira. Mas também faz reluzir o estágio do altruísmo, de tolerância, de honestidade. Potencializa a força da amizade, do amor, do carinho, do companheirismo.

No raio X dos vaidosos, detectamos um nódulo que mostra um mundo perfeito. Esse pessoal tem dificuldade de olhar para os lados e trava um discurso um tanto ambíguo. Descobriram esse tal mundinho perfeito durante o confinamento. Trabalhando em casa, cozinhando, fazendo coisas que todos – vamos combinar – estamos fazendo, mas que a grande maioria não precisa ostentar. Sair se gabando por aí de atitudes corriqueiras que devemos, sim, dar valor no dia a dia, mas que não há necessidade de transformá-las numa fantasia. É bom ter pés no chão. É saudável ficar sem maquiagem. Sem salto alto. 

Nos confins do confinamento, o vaidoso está lá, com suas caras e bocas, pedindo, suplicando por uma aprovação qualquer nesse grande Big Brother. Um like. Um coração. Um aplauso que seja. O laudo diz que a vaidade pode ser provocada pela combinação de carência com insegurança. E como não há sustentação sem ancoragem, o tombo, a queda, o mergulho para esses que vivem nessa bolha machucam em dobro. O ego vai subindo, subindo, subindo até que… plaft. Leva o vaidoso direto pra UTI.

No raio X dos altruístas, detectamos uma íngua, benigna, que se manifesta quando alguém está em apuros, quando alguém precisa de um prato de comida na rua, um cobertor, uma roupinha para o neném que nasceu ou uma simples palavra de carinho, mesmo à distância. É como receber o chamado de Batman no céu. O herói morcego, animal que pode ter transmitido o coronavírus aos humanos. Para o xamanismo, o voo do morcego significa a iminente transformação do ego. Quando um ciclo se encerra e dá a vez a outro. Eu li na internet que o totem do morcego simboliza a ilusão, o renascimento, os sonhos, as intuições. Que permite viagens espirituais e melhora a comunicação. Na China, o único mamífero voador é sinônimo de felicidade e sorte. Quem diria.

Totônio nunca gostou de usar máscaras, mesmo sendo fã dos PJ Masks. O Lagartixo tinha sua máscara verde, mas algo o incomodava. Talvez se sentisse sufocado ou talvez o elástico apertasse suas orelhas. Sua primeira fantasia foi de Batman, o homem morcego. Não tinha máscara, só um cinto. 

O guri, por enquanto, decidiu que não quer máscara. Não precisa esconder sua identidade. Sua principal arma atualmente é o álcool gel nas mãos que precisa passar a cada saída da nave-mãe.

Resta saber qual será o resultado desse retiro espiritual que estamos fazendo. Se a vaidade dará lugar à modéstia. Se o morcego ainda terá asas pra voar.

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Foto por Edward Jenner em Pexels.com