O painel que traduz o meu vazio

Tenho nas paredes da sala e corredor quatro painéis de fotografias pendurados. Três deles com fotos bonitas, de viagens, da barrigona de grávida, sorrisos, Totônio recém-nascido, uma família aparentemente feliz. O outro está vazio. Sem foto alguma. Atrás do sofá. Parece um quadro pós-modernista. Que traduz o vazio.

Esse quadro me perturba. Todo santo dia eu olho pra ele e me incomodo com o fato de que ainda está vazio. Talvez ainda não tenha escolhido as fotos não por falta de tempo. Mas por causa de um vazio existencial. O meu vazio. De anos.

Eu já senti um vazio imenso quando tinha uns 20 e poucos anos. Durou alguns meses. Era como se eu tivesse um buraco negro dentro de mim, sugando todas as minhas energias. Vivia na horizontal de dia, e na vertical de noite. Durou poucos meses até que conheci pessoas fantásticas que me livraram desse pesadelo. O buraco negro evaporou.

Converti a massa negra dentro de mim em energia luminosa. E explodi pra realidade. Esqueci quem me fazia mal, fui trabalhar com jornalismo policial. Vi centenas de buracos negros na minha frente. Mas sobrevivi. Até que outros buracos negros vieram me sugar novamente. Mas eles sempre evaporam de novo.

Agora mesmo parece que estou sendo tragada por um. Que também já dura meses. Mas eu sei que esse também vai evaporar. Porque a vida é assim.

Não é por falta de fotos que o quadro não está preenchido. Tenho fotos de aniversários do Totônio. Na verdade, agora só me restam fotos do Totônio. Preciso de 20 delas. Quero fazer um quadro só dele. Porque, por enquanto, ele preenche esse meu vazio. É nele que penso quando minha energia está acabando. É Totônio que me mantém na vertical.

 

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Procurando a dona do maltês

Eu aprendi com a vida a não criar expectativas. Isso vale em relação a amigos, parentes, desconhecidos, quem quer que seja. Não espere nada de ninguém. É uma das frases que mais me faz sentido hoje em dia. Porque percebo que é a melhor forma de evitar decepções e encarar a vida de forma mais leve.

Eu aprendi com a vida a cultivar o altruísmo. E isso vale em relação a amigos, parentes, desconhecidos, quem quer que seja. Até animais de estimação. Não fazia ideia que o termo foi criado pelo filósofo francês Auguste Comte. Ser solidária e generosa com as pessoas é uma atitude que decidi adotar e que venho colocando em prática. É o oposto de quem decide ficar preso em seu casulo, alimentando o egoísmo, fazendo vistas-grossas, mesmo sabendo que alguém precisa de ajuda.

Eu quero ajudar e, às vezes, consigo. No ano passado, eu saía do laboratório onde fui fazer um hemograma e outras dezenas de exames quando um cachorrinho branquinho fofinho cruzou a esquina em minha direção. Meu carro estava estacionado no mercado, a algumas quadras dali, e eu voltava a pé quando a bolinha de pelo apareceu.

Latindo bravo, ele parou em frente a uma casa e começou a “discutir” com outro cachorro, como se estivesse implorando ajuda: “Estou perdido. Me deixa entrar, por favor!”. Parei por um segundo. Do outro lado da rua, um rapaz que trabalhava numa loja de aparelhos hospitalares saiu na porta para observar a cena. Ele dava risada, então, eu gritei: “Você já viu esse cachorro por aqui?”. Ele acenou negativamente com a cabeça.

O dog estava nervoso. Quando eu chegava perto, avançava em mim. Sem condições de pega-lo no colo. Levaria uma mordida feia.

Eis que surge uma pedestre, que percebeu o drama do animal. “Nossa, ele está perdido”. Então, eu negociei com ela e pedi gentilmente para que a moça ficasse tomando conta do cachorro, enquanto eu procuraria a dona dele pelas redondezas.

Trato feito. Perguntei para uma faxineira, que limpava o prédio da esquina, se ela conhecia o cachorro branquinho. Mais um não. Virei a rua à direita, e percebi que ali havia um petshop. Então, desconfiei que o cachorro teria fugido de lá. Uma hipótese bem plausível. Toquei a campainha e nada. Continuei andando pela rua, quando uma mulher desesperada, de camiseta laranja, veio correndo em minha direção.

“Só pode ser ela”, pensei. E era. Ou quase.

_A senhora perdeu um cachorro branquinho?

_É da minha filha. Onde ele está? Minha filha vai me matar. Meu marido saiu de casa e deixou a porta da garagem aberta. Esse cachorro é um maltês, custou R$ 2.000, contou a mulher.

Fomos nós duas atrás do floquinho. Quando viramos a esquina novamente, a mulher desconhecida ainda cuidava dele. A avó do maltês o agarrou e agradeceu: “Muito obrigada. Deus abençoe”. Só deu tempo de perguntar o nome dele, mas já faz tanto tempo que nem me lembro mais. Era um nome diferente. Depois, ela foi embora. Todos fomos embora. Antes do resgate, pensei por um instante se deveria ir embora. Mas não tinha como deixar o cachorrinho ali. E agradeci a mulher que me ajudou. Ainda existem pessoas como nós neste mundo.

Eu também aprendi com a vida a agradecer. Isso vale em relação a amigos, parentes, desconhecidos, quem quer que seja. Não crie expectativas, seja altruísta e grata. Porque percebo que é a melhor forma de evitar decepções e encarar a vida de forma mais leve.